Mini-Conto #2: “Depois de ter vivido o óbvio utópico…”

Separou o rosto do dela e viu que ela ainda estava de olhos fechados. Havia claramente dois sorrisos bobos pairando no ar e ele sabia que possivelmente era o dono de um deles. Aquele era um primeiro beijo e ele já tinha aprendido com o tempo que primeiros beijos davam uma das melhores sensações que ele tinha na vida (e isso num universo pessoal de competição muito complexo e que envolvia sensações tão díspares quanto pizza de pepperone recém-saída do forno, almoço de família, gol de bicicleta em campo molhado, elogio de chefe do chefe e reencontro de amigos da faculdade).

Ele gostava de primeiros beijos por várias razões. Primeiro pela idéia óbvia de êxito: você quer beijar alguém e você consegue. E isso, levando em conta todas as intricadas situações e mecanismos envolvidos, é sempre uma vitória, seja beijando aquela garota por quem você é apaixonado desde garoto ou a menina bêbada que você encontrou numa boate esquisita onde seus amigos te levaram e cujo nome você dificilmente vai lembrar no outro dia (seja o da garota ou o da boate). Depois pelo sentido de mudança de status que existe no fato de construir alguma coisa, algum tipo de relação com as pessoas. Não importava se iria durar uma hora, uma noite ou uma vida, beijar alguém era sempre o começo de alguma coisa, já que aquela pessoa iria passar a fazer parte de um grupo bem específico que existia na cabeça dele, a de garotas que ele já beijou, totalmente diferente do grupo das garotas que ele não beijou, as que ele gostaria de ter beijado e as que ele nunca beijaria.

Existia também a novidade, a exploração. Ainda que ele não acreditasse realmente na existência de primeiros beijos ruins (critérios baixos, talvez?) ele sabia que cada beijo era diferente do outro. Desde o primeiro primeiro beijo, tímido, sem língua, e no qual ele tinha certeza que tinha feito tudo errado até o segundo, que tinha doído (possivelmente porque dessa vez ela tinha feito tudo errado. e talvez fosse culpa do aparelho também) até os outros primeiros, cada um de um jeito, cada um específico e guardado na cabeça dele por alguma razão. Seja um gosto de menta, um gosto de vodca, um gosto de cigarro, uma mordida que foi difícil de explicar pra mãe em casa. Ele se lembrava de cada primeiro beijo, ainda que tivesse uma grande dificuldade pra lembrar dos últimos (talvez porque nunca prestasse atenção de verdade se um beijo era o último ou não)

E quando ela segurou a mão dele e perguntou se estava tudo bem ele disse que sim, claro. E se concentrou em todos os outros beijos. E na semana seguinte, enquanto eles se beijavam de novo, dessa vez num cinema, tudo ia bem. E no mês seguinte, e três meses depois, enquanto ela fazia planos pras férias. Mas seis meses depois ele já estava sentado num outro bar, com outra garota. E quando separou o rosto do rosto dela notou que ela ainda estava de olhos fechados e que havia dois sorrisos bobos pairando no ar. Possivelmente porque ele gostava demais de primeiros beijos.

Anúncios

23 Comentários

Arquivado em contos, Sem Categoria

23 Respostas para “Mini-Conto #2: “Depois de ter vivido o óbvio utópico…”

  1. tag: filmes do zach braff que culminaram em finais de namoro haha
    melhor assistir scrubs então.
    Acho the last kiss meio xarope, e essa personagem da foto irritou the hell out of me.
    Melhor assistir Garden State e terminar relaçoes com familiares depois.

    esse texto é super diferente dos demais, mas gostei, serio.

    • joão baldi jr.

      É, sempre que eu vou ao cinema ver um filme do Zach Braff eu termino um namoro, então tento evitar e só alugar os dvds

      (Scrubs é uma das minhas dívidas pessoais, aquela série que eu ainda vou ver inteira, mesmo que demore)

  2. Ana

    espertinho esse daí, não?

  3. Flávia Costa

    Você citando Los Hermanos? Hauhauhauhauaha.

    Texto legal, esse cara é espertinho mesmo.

    • joão baldi jr.

      Los Hermanos…que coisa, não? Mas foi uma fase, tempos de faculdade, quase uma dimensão paralela. E por mais tentado que eu me sinta, não vou defender o personagem, não ia soar legal…

  4. Bacana.

    Mas eu ainda acho que o texto da carteira de motorista e com a imagem do McLovin deveriam estar neste blog.

  5. Lindo texto de final realisticamente triste.
    .
    .
    .
    Não sou tão fã dos primeiros beijos quanto do andar de mãos dadas… acho que duram mais.

  6. esse texto poderia entrar pra categoria: “impossível terminar de ler sem ter um sorrizinho bobo fugindo pelo canto da boca”.

  7. já estava acreditando que você tinha ficado romântico. mas, o final… ótimo conto, João. o/

  8. Julia H

    pegação, moleque-piranha

  9. Hérica Rocha

    Mega conto!!! O final é totalmente dentro do contexto…..me fez lembrar Drummond…os amores passam, mas o coração continua…sendo assim, nada melhor que o próximo primeiro beijo!

    P.S.: Li ouvindo “Balada do amor inabalável”(Skank) e foi uma delícia!!

  10. Esse é o tipo de crônica que meche com o psicologico, principalmente se você estiver platonicamente(?) apaixonado e estiver dando adeus para os colegas, tanto de trabalho como os de colegio. rs

  11. te beijar e de ter brincado sobre a sinceridade…

    não resiste em não completar! hahaha

    muito bom o texto!

  12. Leandro

    Parabéns pelo Blog, me divirto muito com seus textos.

    E adoro essa música!

    Deixa ser como será, quando a gente se encontrar …”

  13. Marina

    é verdade! como a gente sempre lembra dos primeiros beijos e nunca percebe quando foi o último!

  14. Matheus

    Sempre leio aqui, mas nunca comento. Nem lembro mais como vim parar aqui, só sei você é um escritor, cara. Gosto do seu estilo, me faz rir e pensar sempre. Além de tudo, você gosta de Weezer, o que é essencial para o desenvolvimento cognitivo de qualquer ser humano. Sobreo do texto, eu realmente acho que você poderia ganhar muito dinheiro produzindo finais para textos, em série.

  15. alice

    mto bom e mto verdadeiro tb :)

    acho q essa parte gostosa envolve o flerte anterior ao primeiro beijo tb e é até engraçado q a gente comemore aniversário de namoro a partir de um pedido formal ou mesmo do primeiro beijo, pq começa bem antes disso

  16. Que bonitinho!

    Digo, que texto bom, que linguagem aprazível, que narrativa envolvente.

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s