Problemas práticos do romantismo teórico – XV

Ainda nos tempos do colégio eu e um amigo tínhamos a chamada “Teoria da ex-namorada”. Ela consistia numa crença de que a sua futura namorada seria, de uma certa forma, escolhida pela sua ex-namorada, já que o perfil de garota que você buscaria num novo relacionamento seria claramente influenciado pelo perfil de garota com quem você se relacionou anteriormente, numa relação de causa e efeito que poderia ser retomada até o seu primeiro beijo e faria com que Viviane, aquela inocente menina de nove anos que morava na casa ao lado fosse responsável por esse seu relacionamento doentio com Lucinha, essa nada inocente garota de 27 anos que dorme com o cara que mora na casa ao lado e nem disfarça, essa vaca.

E por mais que ela, como todas as nossas teorias de moleque tivesse certas falhas (garotas não gostam tanto de mímica quanto eu pensava, por exemplo), ela reflete uma verdade clara que algumas pessoas adoram negar: nossos relacionamentos antigos afetam diretamente nossos novos relacionamentos. Podemos tentar fingir que não, podemos deixar de cumprimentar pessoas em festas, podemos ignorar telefonemas, podemos stalinizar o nosso passado recortando fotos, queimando cartas e alterando livros de história para fazer parecer que no 11/09 estávamos ajudando a retirar sobreviventes do World Trade Center e não sentados no fundo da sala ouvindo Coldplay por causa de uma garota que partiu nossos corações como se eles fossem bisnaguinhas Seven Boys (sabor leite), mas a verdade é que relacionamentos te mudam e você simplesmente não pode fugir disso.

Te mudam porque você nunca vai perder o aprendizado e a experiência que ganhou. Ainda que em alguns casos parte desse aprendizado vá parecer muito com as matérias de uma aula de química do segundo grau, porque são coisas você sofreu pra aprender e nunca mais vai precisar usar (os lugares onde a sua ex-namorada sentia cócegas são a sua versão pessoal da estequiometria, por exemplo), outras lições vão ser úteis pra vida toda e vão ser parte do seu processo de crescimento. Um pouco mais de tato que você ganha após seis meses com aquela garota mais sensível, um pouco mais de paciência após dois anos com aquela menina que brigava feito o pombo do desenho dos Animaniacs, uma visão mais coerente da escolha de cor de cuecas depois daquela experiência desastrosa no réveillon de 2005, são pequenos aprendizados que vão ficar e pelos quais você deveria ser grato. Ainda que tivesse sido melhor aprender o lance das cuecas de outra maneira.

E claro, porque algumas pessoas mudam você num nível mais profundo. Mesmo que você peça, como naquela música do Wilco, é impossível que alguém te deixe exatamente do jeito que te encontrou, sem deixar algum tipo de marca. Aquela traição vai te deixar mais receoso na hora de se relacionar com alguém, aquela sua bola fora vai te fazer aprender que também tem um lado canalha, aquele final de semana no sítio vai elevar os seus padrões do que deveria ser felicidade e te fazer se perguntar se vai se sentir assim de novo algum dia, e isso tudo vai influenciar (de forma consciente ou não) as suas futuras escolhas.

Então seja na forma que for, desde um elaborado processo invisível de aproximação (“o amor da minha vida me chutou e por isso irei ficar o resto dos seus dias procurando alguém igual a ela, ainda que não saiba disso”) até um reducionista e consciente processo de oposição (“Luciana me traiu. Não saio mais com Lucianas”), é complicado fingir que cada pessoa que passou pela sua vida não deu uma cota de contribuição pra que você seja quem é e esteja com quem está.

E sim, eu sei que ainda que desse texto dê pra tirar algumas conclusões legais sobre amadurecimento, influência das pessoas nas nossas vidas e como essas pequenas contribuições nos tornam pessoas melhores algumas pessoas vão apenas concluir que “então a culpa toda é do meu ex-namorado”. Mas a vida é assim, fazer o que, certo?

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19 Comentários

Arquivado em crise de meia meia idade, romantismo desperdiçado, teorias, Vida Pessoal

19 Respostas para “Problemas práticos do romantismo teórico – XV

  1. rah! uma luciana indicou via TT esse post. gostei demais! ;)

  2. Leandro

    AH Muleque! Pior é que é verdade, sempre tem esse processo de tentar não repetir os erros, não conviver com uma pessoa com os mesmos defeitos da namorada passada…

    Conheci seu blog a pouco tempo. Tava revirando uns posts antigos aqui, po, também sou de Juiz de Fora e vim para o Rio trabalhar na Petrobras. hahaha

    Parabéns pelos textos.

  3. crise de meia meia idade. hahahaha.

  4. Marina

    Ex-namorados são ruim, muito ruim!

  5. Pombo do animaniacs…rsrsrs

  6. Bruno Machado

    É verdade…. tudo verdade! o dificil é ter esse raciocínio lógico do “isso me fará melhor” no calor da briga com a namorada!
    mas… na hora da bonança… realmente nos tornamos melhores.
    Hoje sou um namorado melhor que fui antes, que foi melhor do anterior a esse e assim vai…

    Excelente texto!
    Parabéns

    Bruno

  7. Matheus

    Eu sempre tive a mesma teoria. Um dia, porém, conheci um cara que sempre se relacionava com o mesmo tipo de garotas, exatamente com os mesmos defeitos. Quando conheci a mãe dele, acabei prestando mais atenção aos outros casos e acabei aceitando a teoria de que, na verdade, tudo isso que você disse é muito importante, mas as referências femininas na família, às vezes, têm um peso muito maior, tanto para o bem quando para o mal, e refletem no tipo de mulher com que o cara vai se relacionar no futuro. Faz sentido pra mim.

    • Elisa França

      Eu concordo com o Matheus. A maior parte das pessoas que conheço só saem com o mesmo tipo de pessoa. Daí eu achava que eu era diferente, mas resolvi analisar e achei um monte de aspectos iguais. Por outro lado, um sempre foi a versão melhorada do anterior… Então você tem razão também.

  8. Cara… estequiometria. Nunca entendi esse troço e não sei até hoje como passei de ano estudando isso. Na verdade, sei: devem ter me passado.

    Eu concordo com o primeiro comentário, sobre a influência da família e tal. Freud explica que…

    Tá, parei.

  9. émille

    muito verdade, João. e isso se aplica a qualquer pessoa minimamente significativa que passou pela sua vida. fato.

    (aaahhh! sabe Friends? tu é incrivelmente parecido com o Chandler. incrivelmente parecido.)

    beijo.

  10. Tammy

    hmm… Pra mim o mais difícil é descobrir qual foi a mudança que você provocou na outra pessoa. E mais difícil ainda saber se foi uma mudança boa ou ruim.

  11. Ana Spoladore

    Onnn <3

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