Sobre reveillon, praia, abordagens, hipsters e rúgbi misto por equipes

Chega o final de ano, você recebe aquela proposta tentadora pra ir ver os fogos em Copacabana com seus amigos e várias coisas passam pela sua cabeça. “Vai estar muito lotado?”, “teremos pouco espaço?”, “verei multidões de pessoas de branco que em muito se assemelharão a figurantes do seriado Walking Dead?”, “possivelmente serei encoxado por pessoas estranhas como num imenso forró no modo shuffle?”, “terei que estar o tempo todo atento de forma quase neurótica aos meus pertences?”, “serei abduzido por uma raça alienígena superior?”.

E ainda que a resposta pra todas essas questões tenha sido “sim”, não estou aqui para falar sobre as dificuldades de transporte (no Rio ônibus podem passar por absolutamente qualquer lugar, incluindo calçadas, áreas sem asfalto ou salas de parto, mas os táxis só seguem trechos pré-determinados pelos próprios motoristas), os problemas de estrutura (na verdade é até um avanço em termos de igualdade de gêneros fazer com que mulheres também tenham que urinar de pé nas ruas) ou qualquer outra dificuldade que eu possa ter tido na noite do dia 31. Mesmo porque a minha noite de réveillon foi realmente sensacional, eu com certeza não tenho do que me queixar e todos os envolvidos estão de parabéns. Ou seja, este não é um texto para reclamar. É um texto para agradecer uma preciosa lição de vida que alguns desconhecidos me ofereceram nesta mágica noite em que não apenas um dia se torna outro, um mês se torna outro e um ano se torna outro como também a coca-cola lata se torna uma bebida que vale 8 reais e não, se não tiver trocado ele vai mesmo pegar os seus dez sem dizer nada.

Um dos grandes problemas que eu e várias outras pessoas notamos na minha geração é que somos de uma leva de caras que pensam demais. Caras ansiosos, caras um tanto quanto complexados, caras criados pela mãe, caras que se preocupam em excesso com as coisas, que escondem seus verdadeiros sentimentos e desejos por trás de um verniz de civilização, nerdices, citações de filmes e um ar de “tudo bem mesmo, eu estou me dedicando mais ao trabalho e à minha carreira paralela de blogueiro”. Caras que são inseguros, que pensam demais. E isso influi diretamente na forma como nós agimos com garotas, várias vezes de forma confusa, indecisa, imatura, sem saber exatamente o que queremos ou o quanto queremos.

Mas por detrás desse cinturão de hesitação, desse freio emocional de músicas erradas e filmes hipsters que deveríamos ter trocado por produções do Tinto Brass, ainda existem, é claro, os nossos instintos, as nossas vontades, aquilo que nos faz homens e nos impele a gostar de garotas e cerveja ao invés de caras chamados “Cesare” e drinks coloridinhos com guarda-chuvinha. E foi um pouco disso que eu me lembrei durante um certo momento do meu réveillon em Copacabana, principalmente depois das 03:00, quando as famílias já haviam se retirado, o policiamento havia se reduzido, as luzes estavam se apagando e as normas de convivência social já estavam em seus quartos de hotel se preparando pra pegar o vôo de volta pra São Paulo na tarde seguinte.

Sim, porque enquanto eu vi caras abordando garotas como frases como “hello gringa, know boca na boca?”, “vem cá branquela” e “ei, é réveillon, vamos transar no ônibus?” ou mesmo partindo para o confronto físico e usando jogadas de rúgbi como táticas de conquista (juro que vi seis caras tentando um tackle numa garota sozinha, por exemplo) eu notei que eles, ainda que de forma totalmente errada, grosseira e possivelmente ilegal, estavam apenas fazendo um pouco algo que todos nós deveríamos fazer: seguindo seus corações, seus sentimentos, sendo sinceros consigo mesmos.

E essa virou talvez uma das minhas orientações pessoais pra 2011. Não atacar desconhecidas na rua, não misturar inglês e espanhol em frases de duplo sentido, não contar os resultados das minhas noites em drop goals, mas ser mais espontâneo, sincero e convicto com as coisas que eu sinto e com as coisas que eu quero. Menos diplomático, menos enrolado, menos contido, menos controlado. Não pela ogritude, não pela barbárie inerente, não porque eu achei engraçado isso de “hello gringa”, mas pelo que a gente deve a si mesmo, como homens, em termos de sinceridade pessoal. Não que eu vá deixar de lado o meu bom senso, mas acho que posso tentar abandonar um pouco a hesitação. Vamos ver no que isso vai dar. Um bom ano de sinceridade, espontaneidade e tackle pra todos nós.

Anúncios

22 Comentários

Arquivado em Declaração de princípios, Gente bizarra, Rio, romantismo desperdiçado, Vida Pessoal

22 Respostas para “Sobre reveillon, praia, abordagens, hipsters e rúgbi misto por equipes

  1. Thiago

    Com medo de estar um pouco aquém da linha que separa a família restart dos homens, XORAY com esse texto

  2. Paulo

    Gosto muito do seu blog, acho suas opiniões super divertidas e pertinentes, mas fiquei incomodado com um trecho:
    “aquilo que nos faz homens e nos impele a gostar de garotas e cerveja ao invés de caras chamados “Cesare” e drinks coloridinhos com guarda-chuvinha.”

    Longe de querer ser um daqueles chatos que vê problema em tudo, mas essa frase me incomodou muito, é como se você dissesse que todos os gays são afetados e coverdes, como se isso fosse algo errado ou que pessoas assim não são homens. Enfim, conheço vários gays muito mais “machos”, corajosos e sem frescura que a maioria dos héteros que convivo.
    Você é um cara inteligente e crítico, ver coisas assim me deixa um pouco triste.

    No mais parabéns pelo blog, me identifico muito com ele.

    • joão baldi jr.

      Ah, cara, não tenha dúvidas, “frescura” ou “coragem” não tem nada a ver com ser hetero ou não, concordo contigo e definitivamente não era esse o ponto, saiba. Apenas quis fazer uma piada sobre drinks com guarda-chuvinha, eu não resisto a isso.

      • Paulo

        Reli o texto depois e vi que talvez eu tenha exagerado um pouco.
        Sobre a piada dos drinks com guarda-chuvinhas, continue fazendo! =)

  3. Cara, bom texto! passei o reveillon no litoral de SP e sim, eu estava entre as familias que se retiraram logo após a queima de fogos. Não por sono, não por estar em familia, não por ter bebido naquele dia desde as 9:00h da manha mas sim pelo medo da frota de barquinhos de Iemanjá que retornava à praia. Não rolou isso em Copacabana não?
    Abraços!

  4. Olha, te confesso que a abordagem troglodita não foi exclusividade de Copacabana, com a diferença que em Paraty tocava Bonde do Forró e os gringos eram franceses – de drinques de guarda-chuvinha. Ainda assim, os nativos praticavam o rugby naquele chão irregular do Centro Histórico, provando que é realmente árdua a tarefa do acasalamento nessa época do ano.

    Medo.

    • joão baldi jr.

      É o romance passando da barbárie a decadência sem nenhum estágio intermediário de civilização e ainda por cima se escalavrando todo no processo.

  5. “Hello gringa” vai entrar pro hall de grandes expressões que conheci neste blog.

    • joão baldi jr.

      Acho muito bacanas essas expressões bilíngues meio sem sentindo do tipo “tu speak espanhol, gatinha?”, porque elas estão baseadas naquela crença de que ao invés do esperanto é a “língua da sedução” que une todos nós.

      Não faz sentido nenhum, mas é um conceito bonito.

      • Só fazer uma cara sedutora e dizer uma palavra solta em outra língua. As pessoas deviam tentar isso mais vezes. Mas a parte de abordagem física também é bacana, pra que falar se você pode ganhar a gata passando uma rasteira?

  6. essas lições que a gente aprende com as situações mais improváveis são mesmo as melhores.

  7. A essa tática de conquista do rugbi eu dei o apelido mais carinho de abraço do urso.

    A massa muscular de um cara é inversamente proporcional a quantidade de palavras que ele quer/poderia usar pra chegar em você; e para zero palavras temos o abraço do urso!

    Não que eu esteja reclamando – uma das minhas resoluções de Ano Novo é ser menos rabugenta e hoje ainda é dia 04! – mas nem vem dizer que na nossa geração os caras são inseguros e bla bla bla; pq é muito mais fácil achar praticantes de rugbi por aí do que caras que saibam conversar. Com as devidas diferenças, dizem que isso também acontece com mulheres…Mas aíh já não é o meu departamento!

  8. Réveillon bem “How you doin’?” (TRIBIANI, Josheph) esse seu, hein?

    Como alguém que se identifica com a tribo dos “caras que pensam demais” (e com o adendo: “e que têm grande tendência a serem influenciados após ver/ler o filme/livro Alta Fidelidade”), eu digo que a solução chama-se: estabilidade. No meu caso, foi o casamento, mas um namoro feliz e duradouro já serve.

    E acho que o clube que já integra gagos e nascidos em Cataguases está prestes a ganhar mais sócios, desde que as piadinhas de drinks com guarda-chuvas não sejam mal compreendidas.

    Por fim: o seu tumblr é um milhão de vezes mais engraçado que o tal de jesusmanero.

  9. émille

    É isso, João. É só ir contra todos os seus instintos. (como se eu te conhecesse, né? foi mal aê minha pretensão… sou gente boa, tá? ;-))

    Ah! Lendo teu texto e… “Meu deus, o que será tackle?!”. Sim, eu já esperava pura sutileza… Lá vou eu no google imagens. Fotos óóótimas, com exceção de uma meio nojentinha (será que é montagem?).

    Em tempo: tu sabe que meio que traçou um perfil de homem, né?

  10. Flávia Costa

    Acho que já vi você planejando ser mais espontâneo em algum outro post, hauahuahuaha. Boa sorte dessa vez!

  11. por essas e outras que é o segunda virada de ano que eu passo trancada no quarto tentando acalmar o coitado do meu cachorro que quase morre com os fogos .

  12. Ana Spoladore

    Sempre penso muito nisso.

  13. atrasei mas, li!
    hello gringo! hahahahaha

    ótimo como sempre o texto jão!

    bjo

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s