Crônicas da ex-adolescência #5 – Flauta andina

Nós vivemos em mundo cheio de mistérios. O mistério da vida. O mistério do amor. O mistério da fé. O mistério do Cinco Estrelas. O mistério da Libélula (com Kevin Costner). E claro, o mistério da flauta andina. Sim, ela, a flauta andina, aquele instrumento musical que representa tudo de pior que a cultura dos Andes tem a nos oferecer (“ponchos? maneiro! lhamas? cooool! futebol na altitude? eu topo, mas vou precisar de um tubo de oxigênio e liberação da Conmebol”) e quase sempre, quando é encontrado por qualquer um de nós tendo suas gravações vendidas por homens vestidos como o Steven Seagal numa praça do centro da cidade desperta a mesma velha questão: quem diabos compra uma coisa dessas? Esta é a história de como eu descobri isso.

Recém-admitido na faculdade, empolgado, desorientado e com poucas noções de interação com o mundo real, foi sem pensar duas vezes que aceitei o convite de um grupo de amigos para uma festa num sítio em uma pequena cidade próxima a minha. Claro que alguns detalhes do planejamento eram meio duvidosos (dados como quem era o proprietário do sítio, a razão do evento ser numa quarta-feira ou mesmo o porque de termos que entrar pulando a cerca ou com os faróis dos carros apagados foram omitidos, por exemplo), mas haviam me garantido os dois fatores motivacionais básicos da minha adolescência (garotas e bebidas*), então tudo bem.

Chegando lá eu vi que as coisas não eram exatamente como haviam me garantido. Claro, havia bebidas e havia garotas. Mas as bebidas eram aqueles clássicos destilados que a gente rouba do armário do pai e que sempre me fazem passar mal (sério, quem compra curaçau blue e licor de ameixa? sério, galera?) e a garota que teoricamente estava “separada” pra mim alegou que nada poderia acontecer entre a gente porque ela não queria magoar um amigo meu, com quem ela já tinha ficado naquela semana (amigo esse que também estava no sítio, mais exatamente praticando o desporto bretão recreativo com uma amiga dela, para o meu deleite e a alegria de todos que curtem um bom momento “orly?”).

Diante desse cenário desolador em que a noite deixava claro seu potencial para ser tão interessante quanto um jogo manager de handebol para Mega Drive, aconteceu uma sequência de eventos que tenho até uma certa dificuldade para descrever, ainda que  tenha certeza que nunca vou conseguir esquecer. Primeiro um amigo de um amigo colocou no som de um dos carros um cd de flauta andina, mas exatamente numa versão instrumental de “My heart will go on” e começou a dançar na caçamba do veículo. Daí ele correu para dentro da casa e voltou junto com mais algumas garotas e um amigo meu, que tirou a calça e começou a gritar “pique pega pelado, pique pega pelado”. E enquanto eu, ainda meio perdido, começava a tentar processar que merda estaria acontecendo ali, vieram uns urros do lado de fora da casa, um moleque saiu correndo de dentro do lago e uma voz começou a dizer “corre, João, corre João”.

Cheguei em casa vestindo um casaco que não era meu e segurando um troféu relacionado a um concurso de gado de leite. E sabendo exatamente o tipo de pessoa que compra CDs de flauta andina: gente que invade sítios, dança em caçamba de carro e brinca de pique-pega pelado.Pense nisso da próxima vez que passar por um daqueles bolivianos.

*Na verdade os meus dois fatores motivacionais básicos eram quadrinhos e videogame. Mas garotas e bebidas eram legais também.

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8 Comentários

Arquivado em contos, Crônicas, crise de meia meia idade, Mundo (Su)Real, Vida Pessoal

8 Respostas para “Crônicas da ex-adolescência #5 – Flauta andina

  1. vou dizer que ri demais disso e acho que já é suficiente.

  2. Eu, particularmente, acredito que motivo para a existencia da flauta andina é, conforme aquele episódio de “South Park”, nos salvar de “La Muerte Peluda!”.
    Mas o bom nisso tudo foi que finalmente conseguiste um troféu para colocar na tua estante e impressionar aquelas garotas que gostam do “tipo esportista”:

  3. ei, john

    fiquei um tempo sem aparecer
    mas a coisa aqui continua do caramba hein!

  4. Ana Spoladore

    Hahahahaha o que mais tocava dessas flautinhas na Rua XV, lá em Curitiba, eram as do Simon & Garfunkel. “Hello darkness, my old friend…” e el condor pasa. Sempre dessas.

  5. Há tempos eu não ria alto lendo alguma coisa.

    Mês passado dois bolivianos passaram perto da minha casa ,um com os CDs na mão e o outro empurrando uma caixa de som com rodinhas. Da próxima vez vou comprar.

  6. Só me resta dizer que meu pai tem dois CD’s desse pessoal da flauta andina (da filial goiana). Mas até onde eu sei ele nunca invadiu sítios. E nunca mais ouviu isso para meu contentamento.

  7. Senti que boa parte da história foi omitida entre um gatoto gritando e você chegar em casa.
    Mas tudo bem, ri muito com o acontecimento.

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