All the best cowboys have (grand)daddy issues


Um dia desses eu estava conversando com os caras sobre filhos. Sim, quando você chega na casa dos 26 as conversas sobre garotas rapidamente se tornam conversas sobre relacionamentos, que desembocam em conversas sobre namoros, que descambam para conversas sobre casamentos e subitamente, quando você menos nota, as pessoas estão falando de crianças, bebês, filhos e você fica ali com aquela sensação de que o tempo passou rápido demais, o futuro já acabou e em breve não vai ter mais ninguém pra jogar kinect contigo no meio da semana. Mas não, o texto não é sobre isso, é sobre um problema maior.

Diante do assunto de filhos, começamos a pensar em como seríamos como pais, quais seriam nossas preocupações, dúvidas, anseios. Uns tinham medo de criar filhos babacas, outros tinham receio de ter filhas comunicativas demais, alguns se preocupavam com os efeitos do Rio de Janeiro nas crianças e eu, como sempre, mantinha a minha desconfiança de que se eu não aprender a me tornar mais firme com as pessoas terei filhos que poderão abrir uma boca de fumo na sala de jantar sem sofrer nenhuma repreensão além de um “mas e essa fumaça, Tati?”. Mas no meio de todo esse assunto bacana e divertido que comprova que realmente levamos a sério essa questão de crescer e multiplicar, acabei me lembrando de algo ainda mais crítico do que como será o desempenho da nossa geração como pais: como será o desempenho da nossa geração como avôs. Sim, avôs.

Afinal, tente pensar nos seus avôs ou nos avôs dos seus amigos, colegas, namoradas, etc. Senhores idosos, de andar austero, quase sempre com alguma história de grande mudança geográfica, profundo esforço profissional, grande dedicação a família e sacrifício pessoal. Homens que vieram do campo, que lutaram nas cidades, que construíram empresas sozinhos, que educaram de forma às vezes dura mas carinhosa seus filhos (nossos pais) para que eles encarassem o mundo como cidadãos de bem. Homens de boina, homens que jogam xadrez, homens que ficam na praça, homens que assediam empregadas, homens que nos davam notas de dez reais pra que comprássemos bala e jogássemos fliperama.

E agora pense em nós. Sim, em nós. Eu, você, seus amigos, seus colegas de pelada, a galera do bar. Tente apenas imaginar. No lugar de avôs clássicos, tradicionais, old school, vários velhinhos metrossexuais (sim, imagine um avô que não apenas não tem pêlos nas orelhas, mas não tem pêlos no corpo, amigo), idosos nerds (um avô viciado em WoW), anciões que gostam de Metallica e por aí vai. No lugar das histórias rurais de superação, contos sobre as brigas com os amigos no play do prédio; onde deveriam estar as profundas lições sobre as dificuldades financeiras da juventude, fotos na Disney; e no lugar de sórdidas histórias sobre como ele viu a primeira mulher nua da vida dele na zona de uma pequena cidade em Minas, a história de como você viu a sua primeira mulher nua num site chamado sandrinha.com num pequeno quarto do apartamento dos seus pais em Minas. Gente que não vai ter moedas pra dar pras crianças porque só usa visa electron. Sim, é exatamente o que parece, a ruína de uma geração.

Diante disso, tudo que eu posso é pedir que cada um de nós faça um sacrifício pela geração que virá depois da geração que virá depois da nossa: quando chegar a hora, tente ser o mais parecido possível com o seu avô. Sim, fume cachimbo mesmo caso seja alérgico, reclame da tecnologia mesmo que você seja um programador, de tempos em tempos finja que está jogando damas mesmo que não goste do jogo, e ao menos uma vez por mês se engrace com a empregada mesmo que você considere isso uma manifestação machista de desrespeito com a mulher sobre a qual você até mesmo escreveu um paper na faculdade. E a vocês hipsters, um pedido especial: não parem de usar boinas, coletes e óculos enormes logo quando isso vai ajudar em alguma coisa e fazer algum sentido. Não vamos deixar que os nossos netos cresçam sem a presença grave, respeitável e viciada em jogos de cartas que apenas um avô de verdade pode oferecer.

Sério, vamos fazer isso pelas crianças.

Anúncios

17 Comentários

Arquivado em Crônicas, crise de meia meia idade, Mundo (Su)Real

17 Respostas para “All the best cowboys have (grand)daddy issues

  1. Giovanna

    você esqueceu de mencionar os tão relevantes suspensórios. os hipsters vão salvar os idosos do futuro.

    • Bruno

      Cara, finalmente você escreveu sobre isso. Não podemos deixar morrer a chama da boa e velha influência que os avós exercem, muito por conta de sua vasta experiência com fatos da vida REAL, e não daquela passada dentro de um quarto com um computador. Que os insuportáveis e infinitos cliques na tela de um i(smart) phone não prevaleçam perto das boas histórias que nascem em uma pelada, em um samba ou em uma mesa de bar.

      (É absurdo como já me sinto nostálgico, mesmo tendo só 25 anos)

      E claro, farei minha parte para a manutenção do “padrão avô”: boina, suspensórios, cachimbo e bengala serão parte do meu cotidiano, com certeza.

  2. Nossa geração não terá problemas em reclamar da tecnologia. Só mudaram os parâmetros. Nossos avós contam histórias sobre famílias reunidas na sala para escutar radionovelas; nossos pais chamam a Globo de “doze” (ou “quatro” no RJ) e o SBT de “TVS”; nós baixamos emuladores de Atari e Master System para rodar num Pentium DualCore5 com milhares de GHz de capacidade de processamento…

  3. Pingback: Tweets that mention All the best cowboys have (grand)daddy issues -- Topsy.com

  4. É sandrinha.com.BR , seu justiceiro de meia tigela

  5. ri demais. bom, viciada em jogos de cartas eu já sou, mas isso é um vício de avôs e não de avós. socorro!

  6. Gostei da reflexão. Mas gostei mesmo foi da menção à importância da jogatina na cultura familiar: Truco!! P.S.: fica tranquilo. Você tem um Kinect e isso torna te o melhor pai/avô/namorido-da-mãe do continente.

  7. Bom, ainda dá tempo da gente fazer coisas grandiosas para contar aos netos. Podemos achar motivos pra começar uma guerra, ou uma migração em massa para alguma região inexplorada ( tipo, sei lá, a Albânia) … Só preciso fechar o Age of Mythology e vamos lá!

    • Albânia…porque não o Acre? Poderiamos dizer “era um local longe de tudo e de todos, o mundo não tinha olhos para o Acre, até que então nós fomos para lá” e Age of Mythology é foda! ( tu jogou o 2? rs )

  8. Ainda existe o Sandrinha?

    • joão baldi jr.

      Eu acho que o comentário do Melo responde a sua pergunta, cara.

      (sandrinha tinha muito pop-up e muito vírus, nunca frequentei muito. mas pelo nome se tornou referência pra galera)

  9. Por um instante achei que você ia xingar os hipster. “Tira esse suspensório que você é moleque!”

  10. Poutz, super bem pensado Jão.
    Mas bem, eu vou comprar um avô tradicional pro meu filho no amazon.com então no worries. :)

  11. JuninhO

    Isso tudo é saudade do vovô???

    Eu espero ser um Avô cheio de ginga e por dentro de tudo. Daí vou ser visto como um velho babão e metido a garotão!

  12. Elisa França

    Acho que não precisamos ir tão longe quanto a nossa geração.

    Meu pai não fuma charutos ou usa boinas e passa creme nas mãos. Minha mãe lê livros no ipad. Os dois vão ser avós esse mês.

    Os tempos mudam…

  13. Pô cara, isso foi muito bom!

  14. leofurmiga

    FODA! Faciarei! ;)

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s