Problemas práticos do romantismo teórico – XVI

O conhecimento popular e o senso comum nos dizem várias coisas sobre o relacionamento homem e mulher que muitas vezes não são necessariamente verdadeiras ou que, mesmo quando são, não devem ser levadas ao pé da letra. Idéias como “ela disse não mas quer dizer sim”, “você pode ganhar pela insistência” e “o naked man sempre funciona” podem ter em si algum fundo de verdade mas não são necessariamente dogmas nos quais você pode se apoiar pra levar a sua vida (ainda mais porque, como todos nós sabemos, o naked man só funciona em 2/3 dos casos). Mas uma verdade que parece se manter inabalável para qualquer homem é o fato de que ele se torna muito mais atraente para as mulheres quando está num relacionamento.

Ainda que seja um fato mais ou menos comprovado pela experiência de milhares de caras (até eu posso levantar a mão nessa) e já até mesmo cientificamente ratificado, é o tipo da questão pra qual existem muitas teorias (quase todas baseadas em generalizações vagamente sem noção) e poucas respostas. Mulheres fazem questão de referências e por isso procuram parceiros já aprovados por outras mulheres? Garotas são seres caoticamente competitivos e sentem prazer roubando o parceiro da outra?  O homem, quando está comprometido, se sente mais seguro e portanto acaba se tornando mais interessante? Mulheres preferem caras que não estão se esforçando? Nós homens somos todos uns canalhas e assim que achamos uma namorada decidimos que é hora de cair matando por aí? O universo é bizarro, maluco, porra-louca e caminha pra entropia levando os planetas, as galáxias e o seu namoro junto? Como eu disse, tudo que temos nesse sentido são teorias.

Claro, é uma situação injusta. Em vários casos quando você está solteiro, disponível, na pista, liberado pra negócio (e em alguns casos até levemente desesperado, vamos lá), tudo que se apresenta a sua frente é um deserto de afeto, um semi-árido de contato físico, um verdadeiro Atacama da ausência de pegação, sem nenhuma fonte visível de água num raio de 400 km . E aí, assim que você se compromete, começa a construir uma relação, encontra aquela garota que você toparia chamar de oásis e com quem você quer ficar por tempo indeterminado discutindo o que é um camelo e o que é dromedário – e prometo parar aqui com as metáforas sobre deserto – começam a surgir as mais variadas e bizarras opções, vindas dos lugares e situações mais inimagináveis, naquele grau “atendi um telefonema hoje no trabalho e era engano. mas na linha estava a scarlett johansson e ela disse que quer me conhecer”.

E esse é quase sempre o tipo de situação que testa seu relacionamento, seu princípios e sua maturidade. Qualquer um de nós sabe o quão complicado uma mulher pode fazer com que se torne a tarefa de dizer não pra ela, seja através do uso de táticas sutis como a argumentação, a linguagem corporal ou os olhares lascivos até técnicas menos elaboradas porém mais efetivas, como a batida na sua porta de madrugada e a simulação de sexo oral em garrafa de cerveja long neck (além, é claro, de toda uma gama de outras ações que podem fazer com que naquele momento dizer as letras “n-a-o” pareça mais complicado do que, no outro dia, inventar uma complexa história sobre como seu celular ficou sem bateria enquanto você era abduzido por uma estranha raça de alienígenas que tinham cheiro de amor amor e costumam deixar marcas de batom em colarinhos).

Mas a injustiça final vem do fato de que tudo acaba dependendo de você. Garotas podem dar em cima de quem elas quiserem, seja o cara comprometido ou não, usando o grau de intensidade que considerarem adequado, simulando níveis leves de felação no recipiente de bebida que acharem mais conveniente. E quem tem a responsabilidade – ou não – de segurar a barra – ou não –  e evitar que alguma coisa realmente aconteça – ou não – é o cara (da mesma forma que você espera que a sua namorada rejeite de forma veemente as investidas daquele modelo de cuecas italiano). Não, não é fácil. Não, não é divertido. Não, não é justo. Mas sim, você deve guardar aquela aliança de compromisso depois que vocês terminarem. Ninguém aqui quer lutar contra uma verdade científica.

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21 Comentários

Arquivado em Crônicas, crise de meia meia idade, romantismo desperdiçado, teorias

21 Respostas para “Problemas práticos do romantismo teórico – XVI

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  2. alice

    me afilio à corrente que acredita que o homem solteiro é mais babaca pq parece q está sempre na seca atrás de uma fêmea (não de companhia, de amor ou atenção, só sexo), daí ele começa a avaliar e a tratar todas as mulheres como se fossem mercadoria.

    como vc disse, o cara comprometido fica mais seguro e age de forma mais natural. em compensação, ele não faz a menor questão de ser lisonjeiro, pq não tá a fim de conquistar ninguém (então tudo bem ser rude ou antipático com as amigas da namorada, colegas de trabalho, etc)

    • joão baldi jr.

      Tem um texto do Gustavo Gitti que fala que o certo é, quando você está namorando, tratar sua namorada como se você estivesse solteiro (no sentido de não agir como se a partida estivesse ganha, não no sentido de galinhar) e quando está solteiro agir como se tivesse uma namorada (no sentido da postura segura, não no sentido de ter que voltar sempre mais cedo pra casa).

      Ou seja, mais ou menos isso que você falou, só que me deixando um pouco mais confuso.

      (um lado de namorar do qual eu não lembrava: poder ser antipático com as outras mulheres e ainda ganhar tapinhas no ombro da sua namorada)

    • JuninhO

      Só não se iluda, Alice. Homens comprometidos tem muito mais chances de querer só sexo do que solteiros…

  3. Nathália

    Acho que também é aquilo: a maioria das garotas (olá, generalização sem noção!) quer ou pensa que querer um namorado. Então, quando se deparam com um cara comprometido, logo pensam ” ah, esse gosta e está disposto a namorar”. A partir daí fica fácil entender o interesse. Mas confesso que geralmente não me atraio por caras comprometidos (e os galinhas). Não sei se é por uma questão éitca (?) ou outra coisa.

    E sobre os solteiros: sempre olho pra eles e penso ” esses devem ter pânico de namoro, não vão querer nada sério” (generalização sem noção! você de novo?)
    Ou seja: é complicado de qualquer jeito, rs.

    • joão baldi jr.

      Eeeesssa é uma teorização que eu considero genial, porque ela parte do princípio que o impulso de namorar é genérico (“quero namorar alguma coisa, seja o que for, me mantenham longe das bonecas infláveis”) e não específico (“quero namorar a garota x, se não for com ela não vou namorar”).

      E também parte da lógica sempre bacana do “ele pode ter traído essa garota pra ficar comigo mas nunca vai me trair pra ficar com outra”, que também não é lá a teoria do campo unificado em termos de relacionamentos.

  4. Bom, dá pra tirar uma lição valiosa de tudo isso: usar aliança pode potencializar os índices de pegação dos solteiros.

  5. JuninhO

    Só quero enfatizar que isso é um fato realmente comprovado empíricamente.

    E, na minha opinião, esse fato existe porque quando os homens estão namorando/casados a tendencia natural é conversar com mulheres de um jeito mais comum, sem o mesmo interesse que rolaria se fossem solteiros doidos pra pegar qualquer uma das mulheres.
    Isso faz com que as mulheres se sintam intrigadas por essa discplicência do homem em relação a elas e partam pra cima, mostrando a si mesmas que tem o poder da conquista.

    Ou isso, ou as namoradas estão certas e nós somos extremamente atraentes e não sabíamos…

  6. acho que a idéia da Marília, realmente, foi a melhor resposta para os solteiros nesse caso. ah, e essa de “ela disse não mas quis dizer sim” sempre me lembra as alegações dos réus em SVU [meio sinistro, mas pura verdade].

  7. Stella

    vc ja testou o naked man?

    • joão baldi jr.

      Não, nunca testei, juro
      (mas não vou negar que é algo que já me passou pela cabeça, ainda mais nessa época quente do ano)

  8. Angélica Queiroz

    Embora o texto seja bom como sempre, o melhor foi a foto do meu querido Ted Mosby.. que, no contexto, acaba tendo tudo a ver com o texto.

  9. Angélica Queiroz

    Embora o texto esteja bom como sempre, o que mais gostei foi a foto do Ted Mosby que, no contexto desse episódio, tem tudo a ver com esse texto.

  10. Juninho falou e disse. Se o cara já tem a segura, pra quê vai arriscar uma outra? A resposta supracitada.

  11. Ivi

    Juninho disse tudo! Provavelmente se eles ficam com alguém quando estão namorando, eles só vão querer sexo.

  12. Camila

    és um escritor muito bem humorado! hehehehe adorei esse texto cheio de metáforas de deserto!

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