Carta aberta a um amigo (ou “Sobre Einstein, relativismos, lembranças e as vantagens do streaming de pornô”)

Como você provavelmente sabe, poucas coisas na vida são mais complicadas do que realmente conhecer uma pessoa. Não falo de conhecer superficialmente como a gente conhece colegas de trabalho, amigos de namoradas ou aquela vizinha da frente que tem o logo da Iniciativa Dharma na frente da porta e a gente tem medo de perguntar o porque, ainda mais quando ela sai pra colocar o lixo usando aquele capuz branco esquisito. Não, eu falo de realmente conhecer. Conhecer de verdade. Saber de onde a pessoa veio, entender aonde ela quer chegar, conhecer os anseios e os sonhos dela. Conhecer mesmo, entende? Isso, como eu disse, é muito complicado.

Complicado por uma variedade imensa de razões. Primeiro porque pessoas são complexas, cheias de nuances e realmente difíceis de conhecer. Muitas vezes você pode pensar que realmente conhece alguém, achar que entendeu essa pessoa, e ela do nada te mostrar uma face que você nunca imaginou. Pessoas aparentemente tranqüilas podem ser na verdade violentas, pessoas que você sempre achou confiáveis podem ser traiçoeiras e às vezes atrás de uma fachada de imensa confiança podem existir medos que você nunca esperaria. Porque afinal, pessoas tem camadas, pessoas tem detalhes e segredos, pessoas são, como eu já te disse, complexas.

E claro, nem sempre as pessoas querem que você as conheça. Nós temos mecanismos de defesa, sistemas de proteção, cercas e muros que escondem aquilo que nós não queremos mostrar, assim como temos placas e sinais para indicar aquilo que gostaríamos que todo mundo soubesse. Então muito do que nós realmente conhecemos sobre as pessoas vem não do que elas são, mas do que elas tentam mostrar e do que elas conseguem esconder. Mais uma razão pela qual é complicado conhecer de verdade as pessoas, não é?

Por isso muitas vezes o que acontece é que pensamos conhecer mais sobre elas do que realmente conhecemos. É natural, certo? Na incapacidade de compreender, de processar, de dedicar o tempo necessário para realmente entender o sistema intrincado e complexo que aquela pessoa representa, nós várias vezes preferimos preencher os espaços vazios, as lacunas de conhecimento, com as nossas próprias conclusões. Então pequenos pontos, pequenos fatos isolados, mínimas partículas de conhecimento acabam ganhando o poder de representar uma pessoa toda, já que levam as conclusões que vamos tirar e a visão que vamos ter de alguém. Uma palavra dita na hora certa, um gesto feito da forma errada, um tropeço num momento específico e dele vamos formar um conjunto de idéias sobre alguém que nem todas as provas contrárias do mundo vão conseguir apagar totalmente.

Einstein, por exemplo. Físico. Homem que desvendou a relatividade. Autor das teorias que possibilitaram o desenvolvimento da energia atômica. Um gênio, podemos dizer. E qual é a grande lembrança que as pessoas tem dele? Uma foto babaca com a língua pra fora. Claro, você se lembra que ele era um cientista, que ele foi importante, mas qual é a primeira coisa que vem na sua mente? A maldita foto babaca com a língua pra fora. Você nunca o conheceu, você não sabe como ele era, como ele foi. Mas a partir dessa foto você conclui sobre Einstein um monte de coisas que, me desculpa o trocadilho, relativizam tudo que for dito sobre ele pra você. Uma. Simples. Foto.

E é pensando nisso, no quanto é impossível realmente conhecer uma pessoa, no quanto um simples e pequeno fato pode definir a imagem que todos tem de alguém, no quanto nossa mente várias vezes trabalha, mesmo sem notar, com estereótipos e preconceitos, que eu te peço, como amigo: tire todo esse pornô da tela do seu desktop. Nenhum de nós quer que, por causa de uma bobagem como um mpg de 10 minutos, todo mundo lembre de você como o cara que tinha tesão em anãs usando roupas de látex. Você é mais do que isso, sério.

Um grande abraço do seu amigo,

João Luis

Anúncios

13 Comentários

Arquivado em Crônicas, Internet, situações limite, Vida Pessoal

13 Respostas para “Carta aberta a um amigo (ou “Sobre Einstein, relativismos, lembranças e as vantagens do streaming de pornô”)

  1. AHHAHAHAHAH
    É complicado, né? Pior é quando pessoas próximas de você fazem uma idéia completamente errada e até ofensiva de você.

  2. Não consigo ler “Uma. Simples. Foto.” sem imaginar que isso é legenda do Telecine para o Ben Stiller, ou similar, dizendo “One. Fucking. Picture.”

  3. Pingback: Tweets that mention Carta aberta a um amigo (ou “Sobre Einstein, relativismos, lembranças e as vantagens do streaming de pornô”) -- Topsy.com

  4. desktop é uma coisa muito, muito esclarecedora. hahahahahaha.

  5. Henrique

    João, mas alguém que salva pornô exótico, alternativo, no desktop 1) ou é muito descuidado (burro) 2) ou deixou ali por querer.

    Uma vez uma amiga minha baixou Transformers, quando ainda tava no cinema. Então, na verdade, ela queria ter baixado o Transformers, do cinema, mas baixou outro, era um pornô, maroto, com anões (não vi, não sei se tinha látex também). Acontece, né…

    De mais a mais, o título já oferece a solução: não salvar nada.

  6. Conhecer alguém de verdade é difícil.

    A não ser que se vasculhe o computador dele.

  7. Bárbara

    “Cada vida é um mundo. Cada mundo, um universo de possibilidades.”
    Ademais, fez bem em aconselhar seu amigo. Eu, por ex, esquisitinha declarada, fico grata quando algum amigo me faz enxergar a normalidade…. hahahaha

  8. Elisa

    ANÕES!!??!!? Eu AMO anões!

    AAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAHHHH!!!!!!

  9. TG

    Tem gente que curte um “corpão violão”. Outros preferem o cavaquinho, oras…

  10. Streaming? Você subestima a capacidade de lentidão das conexões de internet por aí…

  11. Meio Cleber Machado esse post. haha
    Eu tinha um amigo que nos tempos que entre os adolescentes a moda era ter MP4, o dele era cheio de pornos que incluiam varetas de 45cm e chicotes de coro.

  12. Pingback: desCrentes.com.br - Um grupo de cristãos cansados das velhas formas, na busca por uma vivência mais sincera e descomplicada dos ensinamentos de Jesus.

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s