4 razões pelas quais eu não gosto de telefones

Rafinhapop

O falso senso de urgência inerente: Poucas pessoas notam, mas existe algo de claramente opressivo num telefone tocando. Primeiro pela idéia de urgência e dever que ele traz (você não pode deixar o telefone esperando, você não pode favoritar o telefonema pra ler depois, você não pode colocar na pasta “não-atendidos” e depois atender em casa, enquanto toma uma cerveja), depois pela postura claramente invasiva de qualquer tipo de ligação (é alguém fazendo contato sem aviso, sem hora marcada, sem combinar previamente o assunto, e quase sempre quando você está tomando um chocolate quente na máquina do corredor e sua chefe está do lado da sua mesa). Ou seja, o telefone, assim como um pedido de casamento, um interrogatório da polícia ou um cara de capa de chuva que aparece na frente do seu carro do nada em um suspense adolescente da década de 90 envolvendo a Jennifer Love Hewitt, é algo que exige de você uma resposta imediata. Ainda que sem o lance da mão de gancho, que era a parte legal do filme.

A necessidade de concentração integral: Além de tentar controlar a sua vida e o seu senso de prioridades, o telefone também abusa no que tange a necessidade de concentração, exigindo um grau de atenção ininterrupta que absolutamente nenhuma outra ferramenta de comunicação te pede. Não dá pra ouvir música ao telefone, não dá pra ver TV direito ao telefone, não dá pra jogar vídeo-game de forma razoável ao telefone, não dá pra conversar com outras pessoas enquanto você fala ao telefone e muito menos dá pra tomar banho falando ao telefone (o que torna apenas mais misterioso o fato dele só tocar enquanto você está no banheiro, e sim, eu já tentei o viva voz, mas tenho que ficar gritando e sempre acham que eu estou numa cachoeira) sem acabar perdendo alguma parte da conversa, gerando algum tipo de confusão ou concordando com alguma coisa sem perceber e depois recebendo durante vários dias edições do Globo na porta da sua casa sem entender nada.

Ter trabalhado como atendente de telemarketing: Como alguns de vocês sabem, num certo período da minha vida eu trabalhei com telemarketing, mais exatamente numa empresa de telefonia, mais exatamente na área de retenção. Esse trabalho, além de me proporcionar rendimentos luxuosos (400 reais por mês, líquido, sem impostos), experiências de vidas emocionantes (quem aqui já teve que negociar as contas telefônicas atrasadas do próprio pai dando deadline de pagamento e ameaçando mandar pro SPC?) e me fazer perder uns 500 pontos de karma num possível juízo final (sabe o cara que tentava te impedir de cancelar um telefone oferecendo bônus de 5 reais e um abraço? era eu), me fez gastar toda e qualquer cota de simpatia pela telefonia que eu pudesse ter. Afinal, foram 10 meses falando ao telefone durante cerca de 8 horas por dia, seis dias por semana, sem feriados. Não me culpem se eu gosto mais de usar sms e sempre atendo ligações perguntando em que posso ajudar.

A ausência de expressões faciais e outros sinais ou indicadores: Como quem me conhece sabe, todo dia é dia de ironia no meu coração. Daí eu ser meio incapaz de dar uma resposta direta, clara e séria pra quase qualquer tipo de pergunta que seja feita – o que sempre me atrapalha no trabalho, em relacionamentos e em questionários da alfândega – algo que durante um contato pessoal ficaria claro por toda aquela linguagem corporal marcadora de ironia, que vai desde o olhar malicioso até o sorriso maroto, passando por outras ações com nome de grupo de pagode, mas que num contato telefônico acabam ficando perdidos. Então o papo pelo telefone gera quase todos os mal-entendidos que um papo de msn gera, por exemplo, só que sem a possibilidade de que alguém use um emoticon do porco-aranha e fique tudo bem de novo.

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20 Comentários

Arquivado em crise de meia meia idade, Declaração de princípios, Desocupações, teorias, Vida Pessoal

20 Respostas para “4 razões pelas quais eu não gosto de telefones

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  2. Pouts! Como eu odeio telefone tbm… Sempre tocando quando vc está dirigindo perigosamente por uma estrada a mais de 100Km/h…
    E outra, as maravilhosas pessoas que tem celular para deixa-los em cima da mesa quando vão na máquina de café. E ai o telefone móvel-fixo fica lá tocando por minutos até o propietário aparecer correndo, não conseguir atender e ainda te perguntar com cara de filhodaputa “faz tempo que tá tocando?”
    MAs a ironia toda é que eu trabalho em uma operadora de celular e mais incrível ainda é que vou fazer pós-graduação em sistemas de telecomunicações… TEm algo muito errado nisso tudo…

  3. E se você simplesmente desliga o telefone por algumas horas as pessoas piram e começam a conjecturar as piores coisas possíveis sobre o seu paradeiro.

  4. um problema mais: o interlocutor ou fala rápido demais, ou não para de falar. voltando à questão dos mal-entendidos tão típicos. sms é sempre a melhor saída, mesmo.

  5. Bons motivos para odiar o telefone. Esse de urgência é o que mais me incomoda, como se algo MUITO urgente e terrível fosse acontecer se eu não o atendesse.

  6. Lorena Granja

    Juro que passei a vida tentando explicar toda a minha desconfiança de falar ao telefone e você conseguiu em quatro tópicos… Telefone tocando pra mim é a pior coisa do mundo, dá vontade de jogar na parede e virar uma ditadora só pra proibir o uso desses aparelhos aqui no Brasil. Sms tá aí pra isso gente. Diga não ao telefone, ou pelo menos, às ligações desnecessárias.

  7. Cara, telemarketing deve ter sido muito tenso.

    Trabalhar ao telefone deve ser, no mínimo, traumatizante.

  8. Ricardo

    Fala João,

    cara, sou muito fã do seu estilo de escrita, conteúdo e forma. Quero compartilhar com meus amigos praticamente todos os posts…por isso, deixo como sugestão que você adicione aqueles botões de “Share” com Facebook, Google Buzz, etc.

    Abraços!

    • joão baldi jr.

      Valeu, Ricardo, obrigado pelos elogios!

      Sobre as possibilidades de sharing, o template ainda não disponibiliza essas opções, mas nossa brava e valorosa equipe de ti está trabalhando incessantemente (parando apenas para o futebol, a cerveja e os episódios de breaking bad) para resolver essa questão.

      O que temos por enquanto é a página do Interbarney no facebook, na qual todos os posts de todos os blogs da família Interbarney são publicados, permitindo que você possa dar aquela curtida marota, e aquele share amigo. Apenas estamos suspendendo as possibilidades de cutucar, porque aqui não é bagunça.

      Forte abs

  9. Aprender a não atender o telefone quando ele toca = liberdade.

    Eu já me libertei, mas meus amigos não me entendem… normalmente eles me xingam. Mas eu sempre ligo depois, afinal, não quero perder os amigos né! Confesso que quando eu conheço algum rapaz cativante eu tento explicar isso de que eu não atender o telefone sempre; que isso não deve gerar interpretações precipitadas, mas ninguém nunca entendeu… é mais ou menos nessa fase que eles concluem que eu sou esquisita mesmo!

    Parabéns pelos 10 meses no telemarketing… você é um sobrevivente.

  10. Maíra Iabrudi

    Cara, faz um tempo que eu conheço o blog, não sei onde eu encontrei mas foi amor a primeira vista, sempre me identifico com vários outros artigos mas cara, esse sobre o telefone foi maravilhoso, eu sou travada pra falar no telefone, se puder ir no local eu prefiro do que ligar, e todos os outros argumentos são muito plausíveis.
    Mais um parabéns pra você !

  11. Telefone é invenção do capeta: toca nos momentos mais impróprios e NUNCA é assunto do seu interesse. Ou alguém já recebeu ligação de alguém que oferecesse dinheiro, cerveja, mulheres ou outras coisas de menor importância?

    • Acho que várias pessoas já receberam essas ligações, mas elas sempre envolvem enviar créditos telefônicos ou números de cartões de crédito para pessoas residentes em presídios e seus associados.

  12. acho que a única parte boa a respeito do telefone é o grau de emoção dos trotes. Embora já existam avanços consideráveis em relação aos trotes com sms ou por msn, nada ainda chegou aos pés do bom e velho ” Sua televisão está no ar?”

    Fora isso, telefone não serve pra mais nada.

  13. Gostei tanto do seu post que tô pensando em te ligar agora mesmo para elogiar! =)

  14. e meu telefone tocou enquanto eu escrevia o comentário abaixo, e eu soltei um “ai meu Deus” hahaha

  15. Cara, eu também odeio telefone. E tô no time dos que se liberaram… Celular eu só atendo quando tô afim… fora que eu SEMPRE deixo no vibracall. Aqueles toques frenéticos me deixam muito tensa.
    Então por vezes eu deliberadamente não atendo porque não estou no mood de me comunicar com outros seres humanos, e em tantas outras vezes – na maioria, acho – eu simplesmente não veja quando toca. Aí depois, calmamente, vejo quem tentou falar comigo e mando um sms, e-mail ou msg no facebook avisando que vi a ligação e perguntando o que a pessoa quer. Telefone é totalmente overrated!

  16. hahahaha, joão baldi fazendo a alegria da minha madrugada!!!

    eu também ODEIO telefone!

  17. Pingback: Odeio telefones |

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