Problemas práticos do romantismo teórico – XVII

Como qualquer pessoa pode notar, existem várias pequenas características que tornam um envolvimento romântico diferente de qualquer outro tipo de relacionamento que você vá ter na vida, seja um relacionamento profissional, um relacionamento familiar ou aquele tórrido, malicioso e sensual programa de relacionamento da sua companhia aérea. Isso porque afinal, por mais que você goste do seu trabalho, você não sonha com ele duas noites seguidas, por mais que você goste da sua avó, você não fica ansioso, nervoso e provando camisas diferentes quando vai sair com ela, e por mais que você ache bem bacana quando a Gol faz aquelas promoções e te deixa visitar seus tios em Floripa por metade do preço, não é por causa dela que você tem nutrido essa alegria boba e essa simpatia meio constrangedora por certas músicas da carreira-solo do Frejat sobre as quais você não quer falar muito agora porque essas coisas te deixam meio sem graça. E no meio de todas essas pequenas particularidades, existe uma que se torna realmente gritante quando um envolvimento amoroso é comparado com algum outro tipo de relacionamento: a necessidade de reciprocidade.

Não que um certo grau de recompensa e mutualismo não seja uma exigência em qualquer tipo de relação, seja ela comercial ou pessoal, já que todas consistem de trocas, sejam elas físicas ou simbólicas. Uma compra numa loja envolve uma troca, o seu amor pela sua mãe é baseado num certo nível de reciprocidade e até o seu convívio com um peixe de estimação envolve proposta e contraproposta (ainda que a contraproposta dele em troca de alimentação, cuidados e bons tratos seja apenas se manter respirando e nem isso ele cumpra por muito tempo, mas não quero ser autobiográfico demais aqui). Mas em nenhum desses tipos de relacionamento a necessidade do mútuo, do recíproco, é tão forte, clara e complicada de obter e entender.

Primeiro porque ao contrário dos outros tipos de acordo, num romance a necessidade é de que essa troca seja igual e intensa. Se você telefona, você não quer apenas que a pessoa atenda, você quer que ela atenda com o mesmo grau de alegria e empolgação, incluindo o “desliga você, não, desliga você”; se você faz um convite, você não quer que ele seja apenas aceito, você quer que ele seja aceito com a mesma felicidade que você fez e se possível com uma cara de “meu deus, ver a troca de faixa de capoeira do primo dele é tudo que queria pra qualquer sábado da minha vida”; e se você manda um carro de som tocar Jorge Vercilo na porta da casa dela você quer um carro de som tocando Djavan na porta da sua, e não aquele término seguido de ordem de restrição judicial que acabou rolando e você não entendeu direito até hoje.

Depois porque a mensuração e análise dessa reciprocidade são muito mais complicadas do que em qualquer outro tipo de relação. Não apenas pela dificuldade de analisar friamente uma reação visando definir seus componentes emocionais (“ela está sorrindo porque ficou feliz em me ver ou porque estou usando meu cinto do Batman?”) ou compreender as causas de uma atitude ou outra (“ela não respondeu meu email porque não quis ou por causa daquele queda de energia em todo o estado da qual o pessoal está falando há dias?”) como também pela impossibilidade de analisar friamente qualquer coisa quando você está envolvido com alguém de forma romântica e ao olhar no espelho o Harrison Ford pisca de volta pra você.

E ainda que como sempre acontece quando se fala de relacionamentos, alguém vá querer dizer que “essa é a graça da coisa” e o bacana em gostar de alguém é exatamente a incerteza dos processos, a confusão dos conceitos, a cara de bobo e essa maldita música ambiente do Hall and Oates que não para de tocar na sua cabeça, não tem como negar que todo o processo envolvendo a análise da reciprocidade é uma grandes fontes de preocupação, insegurança, leve neurose e sessões domiciliares de 500 dias com ela. A não ser, é claro, que você seja uma pessoa segura, tranqüila e madura, que não fica realmente preocupada com esse tipo de coisa. E nesse caso tudo que eu posso te perguntar, de coração mesmo, é se você não achou estranho ela ter respondido aquele seu sms de 5 linhas, envolvendo uma citação da música tema de vocês e dois emoticons com apenas um “tá bom”. Só por curiosidade mesmo, sabe como é.

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14 Comentários

Arquivado em Crônicas, crise de meia meia idade, romantismo desperdiçado, teorias

14 Respostas para “Problemas práticos do romantismo teórico – XVII

  1. E alguém lá consegue ser seguro, tranquilo e maduro numa hora dessas?

  2. Henrique

    Só pra saber, qual seria a música do Hall & Oates? Eu apostaria em Kiss on my list.

    Outra coisa que pode ter um resultado desagradável é o tempo que seu par demora pra devolver o “Eu te amo”. De 0,1 a 0,3 seg é rápido demais, você começa a desconfiar da falta de profundidade em algo tão automático. E a partir de 1 seg é mais preocupante ainda. O que ela (ele) ficou pensando nesse meio tempo?

    • joão baldi jr.

      Bem, eu queria ressaltar que as referências feitas nos textos não refletem necessariamente o meu momento emocional na época da postagem e que vários artigos não são exatamente relacionados a mim ou a experiências pessoais, fazendo referência a momentos passados, situações hipotéticas ou eventos ocorridos com amigos.

      Dito isso…bem, a música é essa aqui : http://tinysong.com/xJRY

  3. Naiara Costa

    Eu que sou a rainha da neurose e paranoia, do tipo que consegue inventar um filme inteiro na cabeça envolvendo mentiras, traições, planos maquiavélicos e explosões para um simples gaguejar ao me responder onde ele estava na noite passada, entendo perfeitamente o feeling desse texto… Esse negócio de recírpocidade que leva um relacionamento pra frente e tbm pode acabar com ele em segundos, coisa arriscada. tsc tsc

  4. o Zé encontrou uma boa saída: um peixe virtual.

    o problema é a necessidade, não a reciprocidade. mas, somos imaturos demais pra entender isso, mesmo.

  5. Acho que o problema todo é que fica muito complicado ser racional se você se envolve demais. Em tempo, carro de som tocando Jorge Vercilo na porta da casa é justificativa até pra crime, sério.

  6. O problema nem é tanto a reciprocidade, mas sim o desgramado passar o dia fora bebendo e nem se lembrar de te mandar uma sms perguntando como você está.

  7. É, assistir 500 days of Summer é uma merda. Sempre me deixa com vontade de me apaixonar perdidamente por amor, mesmo que eu quebre a cara enormemente e volte a me apaixonar no outono.

    Um abraço e meus parabéns, os textos são sempre muito agradáveis de ler!

  8. É, assistir (500) Days of Summer é sempre uma merda.
    Me deixa com vontade de me apaixonar perdidamente, mesmo que vá quebrar a cara sem tamanho e encontrar alguém no outono…

    Parabéns pelos textos, sempre retuito pra galera no twitter, grande abraço!

  9. Assistir 500 dias com ela é sempre uma delícia. é um tapa na cara de quem acha que o amor é tipo de fantasia. Não é! Vamos viver a realidade gente!

  10. Pingback: Diálogo de Seriado Adolescente da Década de 90 |

  11. Rosana

    Li agora seu texto e bom, maravilhosa leitura mas não, amor não faz parte da minha filosofia de vida, descobri que não tenho nenhum jeito para isso.

  12. Miguel Castro

    Coisas reciprocas voce procura desde o primeiro amor nos 13 anos e segue com isso por um longo tempo. Até que nós crescemos e assim percebemos (ou não) que as vezes uma demora pra responder uma resposta ou coisas do tipo nem significa uma coisa tão séria assim. O preocupante seria se essas coisas acontecessem com muita frequência.Mas daí só depende de cada um perceber isso. Aliás, ótimo texto.

  13. esse filme eu sei qual é rs, tenho um ano de posts pra me atualizar -só percebi agora (ò_ó)!

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