The maid, the bad and the ugly

Como vários de vocês sabem, eu divido apartamento com um cara. E isso, como toda e qualquer coisa na vida, tem seus pontos positivos e seus pontos negativos, claro. Como pontos positivos posso ressaltar aspectos como a redução de custos, a divisão de responsabilidades, não ter tido que pagar por aquela TV gigante da sala e poder roubar queijo quando chego no meio da noite com muita fome. Como pontos negativos menciono todas aquelas noites em que chego em casa, tem um homem sem camisa no meu sofá e eu tenho que dar boa noite pra ele ao invés de ligar pra polícia, e o fato de ouvir algumas das piores piadas sobre relacionamentos homoafetivos já criadas pelo homem. É mais ou menos por aí.

E como em toda relação de companheirismo e divisão de apartamento heterossexual, desprovida de contato físico e sem absolutamente nenhum componente de conotação afetiva que não fraternal, existe uma clara e definida divisão das tarefas, visando o funcionamento saudável da casa e um convívio tranqüilo entre os que nela residem. No caso do apartamento em que resido com Tarcísio*, a divisão funciona mais ou menos assim: ele é o responsável por organizar as contas, comprar os suprimentos de limpeza, lidar com as questões do aluguel, descer o lixo, descongelar a geladeira e consertar as coisas que quebram, além de ter comprado grande parte dos móveis de uso comum e ter a assinatura da Net no nome dele. Eu, em compensação, levei pra casa um PS2 (hoje um Xbox) e ensinei ele a jogar Marvel x Capcom. Sim, eu sei, parece injusto. Mas é que eu tenho esse coração grande e ele é um cara realmente bacana, então eu acabo sendo generosão assim mesmo.

Dentre todas essas atribuições que o amigo Tarcísio tem, uma delas é a de lidar com os nossos prestadores de serviços, como por exemplo, a nossa diarista, que uma vez por semana (quase sempre às quartas) comparece em nossa residência para limpar o ambiente, passar roupas, tirar coisas do varal, jogar fora as latinhas de cerveja e possivelmente chorar baixinho e praguejar sempre que abre a porta do meu quarto. Mas como há alguns dias Tarcísio viajou de volta para Minas visando se curar de uma hepatite do tipo a misteriosamente contraída semana passada, ficou sob minha responsabilidade lidar com a faxineira nesta quarta-feira. E digo: foi esquisito.

E isso porque assim que eu acordei ontem e, trajando apenas uma cueca, saí pra sala, logo depois de tomar um susto achando que aquela velhinha com uma vassoura poderia estar tentando assaltar a minha casa – susto esse que teria sido facilmente evitado se eu tivesse tido mais atenção às tags “velhinha” e “vassoura” – eu notei que não sabia o nome da diarista. Sim, depois de cerca de três meses com aquela pequena senhora dedicando um dia de sua semana, todas as semanas, para manter minha casa limpa e cheirosa para que eu possa receber meus amigos e familiares num ambiente digno e adequado e manter minhas roupas macias e alinhadas para que eu possa galgar posições no meu trabalho e impressionar gatinhas numa sexta à noite, eu nem mesmo sabia seu nome de batismo. E sério, cara, meu coração partiu nessa hora.

Então durante todo o percurso da conversa, enquanto ela perguntava pelo Tarcísio, comentava sobre os produtos de limpeza, falava sobre a sala e listava o tanto de coisas insólitas que já tinha achado debaixo da minha cama, eu mantive os meus olhos no chão, envergonhado, chateado, me sentindo um covarde insensível, tentando buscar na minha memória qual seria o verdadeiro nome daquela simpática mulher que dedicada 1/7 da vida dela a permitir que eu parecesse para o mundo um homem limpo, asseado e organizado e não o bárbaro visigodo que eu seria sem seus corajosos serviços.

E as coisas foram assim, numa espiral de auto-recriminação e vergonha, numa escalada de culpa e desespero, até que ela simplesmente terminou uma frase com “mas e quando que a gente vai acertar as despesas, seu Humberto?”. Aí eu perguntei “o que?”, e ela me chamou de Humberto de novo. Então eu apenas disse “ah, eu tô sem dinheiro aqui, mas na quinta depois do carnaval a gente acerta tudo, Cida”. E, bem, agora tá tudo bem.

Na próxima semana estou pensando em chamar a diarista de Mafalda ou Firmina, algo assim.  Talvez Giselda. Vamos ver o que sai na hora.

*sim, eu tenho plena consciência de que moro com um cara que tem nome de namorado gay de alguém, não pensem que eu não tenho…

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14 Comentários

Arquivado em Crônicas, crise de meia meia idade, homens trabalhando, Mundo (Su)Real, Rio, Sem Categoria, Vida Pessoal

14 Respostas para “The maid, the bad and the ugly

  1. Diego Antônio

    Uma vez fiquei com uma menina, durante mais ou menos uma semana, indo à casa dela e só a chamava de Mari, porque não sei se seu nome era Mariana ou Mariane.

    • joão baldi jr.

      Duas histórias:

      a) uma vez um amigo meu ficou com uma garota a noite toda e quando chegou na porta da casa dela, ouviu um “só deixo você subir se me disser qual é o meu nome”. Ele voltou pra casa sozinho, depois de 3 tentativas. Sim, 3 tentativas.

      b) uma vez eu fiquei com uma garota e ela passou a noite toda me chamando de joão pedro. a noite toda. a. noite. toda. mas eu tinha 16, pouca auto-estima e ela era muito bonita, então deixei passar.

  2. ThiagoFC

    Pô, João… MEU PAI se chama Tarciso!

    [Onde que eu assino minha ficha de filiação à Associação de Gagos de Cataguases?]

    • joão baldi jr.

      Haters gonna hate, é o que eu sempre digo.

      (mas sério, tenta imaginar o quão esquisito soa dizer em casa “pai, tô morando com o tarcísio”)

    • Monique

      Tarcísio Meira.
      Tarcísio Filho.

      Tarcísio é nome de galã-de-novela-conquistador-professor-do-Zé-mayer.

  3. ah, eu sou ótima pra guardar nomes. por isso, de quando em vez, eu finjo que esqueço. HA-HA-HA!

  4. Leofurmiga

    A maioria das pessoas que conviveram comigo desde a escola me conhecem como Furmiga, isso gera alguns constrangimentos nas listas para festas, boates e restaurantes. =/

  5. Stella

    Li o texto inteiro achando que o asterisco seria para explicar que você usou um nome fictício para proteger a identidade do seu colega…

    • joão baldi jr.

      Não, não, meu plano é muito mais divulgar a identidade do Tarcísio e arrumar uma namorada pra ele. Que jogue videogame, se possível.

  6. JuninhO

    Juro que eu achei que a diarista ia te chamar de João Pedro…

    • joão baldi jr.

      Todo e qualquer nome que envolve “João” eu já considero acerto, não vou me tornar um cara chato com isso agora, sabe?

      Na verdade até José ou Juliano eu já tô começando a considerar aceitável.

  7. cara, você é mesmo MUITO generoso! to impressionada! parabéns!

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