“Your order has shipped” é o novo “eu te amo”

Desde moleque eu nunca gostei muito de comprar coisas. Eu tinha receio de lojas, medo de feiras, terror de shoppings e num dado momento da minha vida desconfio que termos como “saldão” e “queima de estoque” tenham me inspirado o mesmo grau de terror que “vamos incendiar sua casa e bater em você e nos seus entes queridos, na sua frente, usando uma imensa bisnaga de pão dormido”. Não, não que eu seja destituído do espírito consumista ocidental, não que eu seja desde pequeno obcecado por economia, não que eu tenha passado de garotinho de vida árcade para adulto pastoril hippie que não liga pra essas coisas e pode ser feliz com muito pouco, nada disso. É que eu realmente não sei lidar com vendedores.

Sejam eles os vendedores estilosos que me irritam, as vendedoras gostosas que me intimidam ou essa nova leva de vendedoras idosas que me fazem imaginar que se eu comprar o que elas querem vou ganhar bolo de chuva e suco de goiaba, eu apenas não sou uma pessoa talhada pra lidar com a pressão de, durante um processo de compra, ter alguém me olhando fixo, me fazendo perguntas e tentando me convencer de algo. Fora que a minha absoluta dificuldade pra dizer não, contra-argumentar ou apenas ir embora e deixar a pessoa falando sozinha quase sempre me leva a comprar coisas de que não preciso, chegar pensando em uma coisa e levar outra ou sair da loja me sentindo culpado porque não comprei aquele aparelho de depilação nasal que o cara tava me garantindo que era perfeito pra mim.

Daí a minha clara simpatia pelo conceito de compra pela internet: limpa, rápida, prática e o mais importante, sem a pressão decorrente da interação com outros seres humanos. Apenas eu, meu computador, aquelas horas livres no trabalho e um mundo de produtos e informações que eu posso acessar no meu ritmo sem que ninguém fique falando com a mão no meu ombro ou me obrigando a explicar que eu “tô só olhando, obrigado”. Pela internet eu posso comprar desde eletrodomésticos (sem discutir meus hábitos de lavagem de roupas com ninguém) até camisetas (que ok, às vezes vem mesmo no tamanho errado, mas e daí?), de forma totalmente desumanizada, sem em nenhum instante fazer contato direto com outro ser vivo e potencialmente imaginando que foi tudo feito por robôs engraçadinhos com cabeças gigantes. É perfeito e possivelmente eu gostaria que diversos outros setores da minha vida fossem assim, não vou negar.

E foram as compras pela internet que me apresentaram a essa que é atualmente uma das minhas grandes paixões na vida: rastrear coisas. Sim, rastrear coisas. Seja acessando a página dos correios com aquele código de postagem que vem na confirmação de compra, seja acompanhando pelo site onde eu comprei ou pelo da empresa de entrega, esse pequeno e singelo ritual de acompanhar as caixas e os pacotes em sua longa jornada desde seu fornecedor até minha casa tem me trazido graus muito bacanas de paz, relaxamento e satisfação durante momentos de stress pessoal, drama profissional, ou apenas quando eu não tenho nada melhor pra fazer.

A sensação de saber que existe algo de bom aí fora pra mim (e sério, existe, eu paguei, eu sei), que longas distâncias podem sim ser superadas com vontade, coragem e aviões (certa vez acompanhei uma encomenda vindo, cidade a cidade, desde os EUA até o Brasil e admito que quando o pacote chegou eu quase chorei) e que eu posso acompanhar uma história com final feliz desde o começo realmente me conforta e, não vou negar, enche meu coração com uma sensação de esperança e alegria que apenas essas pequenas coisas boas da vida conseguem. Juro, é lindo, todos vocês deveriam tentar.

E sim, agora eu estou relendo o texto e noto que ele realmente faz parecer que minha vida é meio vazia.  Mas não é assim, sério, eu apenas gosto de acompanhar entregas mesmo. De boa, de verdade, galera.

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16 Comentários

Arquivado em crise de meia meia idade, Declaração de princípios, Internet, teorias, Vida Pessoal

16 Respostas para ““Your order has shipped” é o novo “eu te amo”

  1. o chato é quando acontece alguma coisa no meio do trajeto até você. aí é só desespero, mesmo. fora isso, compra pela internet é tudo isso aí.

  2. Tales Miranda

    Eu também gosto de acompanhar entregas, mas é chato quando elas vem de fora e simplesmente empacam quando chegam aqui.
    Eu sei bem o que é esse desconforto de lidar com os vendedores, sei lá sinto como se dissesse não ele vão se esconder no porão da loja e tentar cortar os pulsos ou algo assim. É difícil conviver com esse peso na consciência.

  3. Ah, compras pela internet entram fácil na lista de melhores coisas do período moderno. Senti uma coisa meio “acompanhando uma gestação” da sua parte, mas eu entendo bem. Sem contar que é lindo quando você chega em casa e aquela caixinha está ali te esperando. (Pensando bem a metáfora da gestação não é tão boa, deve ser meio assustador chegar e encontrar um bebê numa cestinha)

  4. Experimenta comprar um filho pela internet e acompanhar a entrega. A sensação de sublime deve ser dobrada.

  5. Tudo bem, cara. Tá tudo bem.

    Eu sou tipo o Scott Pilgrim apertando OK no Amazon.ca e correndo pra porta, sentado, esperando a encomenda chegar.

  6. seu post me fez lembrar que comprei umas coisinhas na sack’s há algum tempo e ainda não chegaram.
    não, eu não acompanho meus pedidos. Após fornecer meu número do cartão, eu simplesmente deixo o universo me surpreender…

    • Monique

      É mal de Moniques, acredite!
      Pois eu, além de deixar o universo me surpreender, às vezes até esqueço de quantas vezes dei o número do cartão, aquele lindo!
      rs

  7. Sim, João, durante o texto eu fiquei mto preocupada com a sua pessoa. E a tag “vida vazia é uma música de bruno e marrone” só serviu pra acender todos os alertas de perigo! Pagode e sertanejo é demais hein!

    Ps: putz…. também tive que confirmar que vida vazia é uma música de bruno e marrone. Você é mau por me fazer ouvir essas coisas!

  8. Naiara

    Só devo dizer uma coisa: cuidado quando você tiver sua primeira desilusão amorosa… sério, comigo foi muito dificil de suportar. Esperei dois meses, o pacote estagnou nos correios, tive que ir lá diversas vezes tentar retirar e até mesmo ameaçar pessoas, mas no fim eles admitiram que meu pedido tinha sido extraviado, e o pior: que alguém dos Correios provavelmente havia roubado meu produto.

    Foi horrível, chorei a semana toda… olhava o site do rastreamento religiosamente três vezes por dia esperando uma surpresa qualquer, ate que a única solução que encontrei foi fazer outra compra e me envolver emocionalmente com outro código de rastreamento.

    Nem com essa vida moderna temos garantia de final feliz :~

  9. Cara, eu viajo na idéia de que num futuro próximo a compra presencial será extinta!! Todos compraram tudo via internet. Se você notar, hoje as pessoas pesquisam na net antes de ir à loja, quando vão à loja.

    ————————————————————–

    Compro, na maioria das vezes, camisetas e não rola de ter tamanhos errados por que como eu faço sempre nas mesmas “lojas”, já sei de cor o corte utilizado, e o meu tamanho, anyway…os sites costumam ter a medida de cada parte da camisa, então…no big deal!

  10. Strakowski

    Voce devia trabalhar com logística, se nao fosse tao bom como escritor.

  11. Leo

    Sem querer ser chato, mas já sendo, não seria “Your order has been shipped”?

    Eu sofro do mesmo problema, do instante de clicar em “comprar” até o drama de nao conseguir dormir pois o cara do sedex pode tocar a campainha e eu não ouvir, cada segundo é uma agonia e meu F5 já está gasto com tanta espera…

  12. “…eu apenas não sou uma pessoa talhada pra lidar com a pressão de, durante um processo de compra, ter alguém me olhando fixo, me fazendo perguntas e tentando me convencer de algo.”

    EU TAMBÉM NÃO. Mas, olha amigo, aconselho-te: não tenha cartão de crédito. Porque eu, que dou da mesma laia que você, se tivesse, já teria gastado toda a fortuna que não tenho comprando pechinchas!

    Para tanto, desenvolvi uma técnica muito boa: arranjei um namorado que compra no cartão pra mim e que depois não me cobra. Mas como a compra tem que passar por ele, ele tornou-se o filtro do consumismo. Logo, virtualmente compro horrores (boto no carrinho, tiro do carrinho, pesquiso o custo do envio…), mas na hora de mandar pro filtro (meu filtrinho), seleciono para ele não pensar que sou uma louca desenfrada carente consumista esquizofrênica e aproveitadora.

    Duro.

    PS: Para todas as outras coisas também, em caso de emergência, existe a C&A, a Renner, a Marisa, a Riachuelo e a deusa das deusas: a ZARA.

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