Problemas práticos do romantismo teórico XVIII

E aí você conheceu uma garota. E ela é inteligente, e ela é divertida, e ela é bonita e ela tem uma boca que você poderia beijar até ser incitado judicialmente a parar e uns olhos que você poderia olhar até que ficar olhando pros olhos dela deixasse de ser fofo e começasse a entrar no campo do levemente assustador porque é isso que a gente sempre pensa de pessoas que olham fixo pras coisas durante tempo demais, não vamos negar.

Perto dela você sentiu um clic que você espera que não seja aquele problema no joelho voltando e teve contato com sensações do tipo “o mundo parece mais divertido”, “as pessoas parecem mais legais”, “as árvores parecem mais bonitas”, “o esquema tático do flamengo continua indefinido, mas tudo bem” e você poderia facilmente dizer que está sob efeito de uma substância com o nome dela se as pessoas não tivessem começado a se portar de uma forma meio hostil diante das suas citações do Charlie Sheen.

Mas junto com todos esses sentimentos legais, bonitos e simpáticos, você notou duas tendências, duas propensões, um tanto quanto estranhas e que, se você se lembra bem daquela distante era chamada “mês retrasado”, não estavam lá. Elas são: a tendência a se preocupar e a tendência a planejar.

Não que antes você não se preocupasse, claro. Você sempre foi um cara preocupado e tinha toda uma gama de preocupações preocupantes que te davam a oportunidade de, até com uma freqüência preocupante, se preocupar de forma bem preocupada. Mas agora são preocupações… diferentes. São coisas como o receio de que algum dia ela acorde e note que você perdeu a graça, o medo de que ela conheça alguém mais legal, o leve pânico de que ela vá embora porque você ronca, entre várias outras pequenas questões de racionalidade meio questionável.

E nota que além disso tudo você sutilmente passou a se preocupar mais e mais com ela e a anexar as preocupações dela junto as suas, porque ela estar bem, feliz e satisfeita subitamente galgou várias posições na sua pirâmide de necessidades, deixando pra trás coisas que sempre foram muito importantes como “ganhar a copa do mundo no modo mais complicado do fifa com Portugal”, “beber 8 canecas de 1 litro de chopp sem perder a consciência”, ou “se manter em dia com as edições americanas de amazing spiderman”.

E claro, você planeja. É, você que antes tentava seguir a risca aquele pensamento rickblaineano de não se lembrar do que fez ontem e não planejar o que vai fazer amanhã, se pega elucubrando e projetando eventos de um futuro tão distante quanto o mês que vem e planejando coisas para datas longínquas como maio, o que pra você não é muito diferente de botar um bigodinho de Stálin e começar a fazer planos quinquenais e mandar gente pra Sibéria, emocionalmente falando. Você se nota pensando em como os eventos vão se projetar no futuro e isso não soa aterrorizante e sim natural. O que, é claro, não é nada natural e totalmente aterrorizante se você for pensar bem.

Mas de tudo de assustador que esse processo tem, a parte mais assustadora de todas, sem dúvidas, é o fato de que você está gostando disso. A coisa toda de planejar parece divertida, como um garoto esperando um presente de natal, e mesmo as preocupações tem o lado bom de servirem pra te lembrar que se você tem esses receios é porque se trata de uma coisa boa que você não está realmente na pilha de perder. Sim, o horror, o horror. Você olhou para o abismo e, como diria Nietzche, de lá de dentro o Alexandre Pato, fazendo um coraçãozinho com as mãos, olhou pra você.

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13 Comentários

Arquivado em crise de meia meia idade, romantismo desperdiçado, situações limite, teorias, Vida Pessoal

13 Respostas para “Problemas práticos do romantismo teórico XVIII

  1. Citações a Rick Blaine e Stalin em um mesmo texto sobre romantismo, tá cada dia melhor nas metáforas. Parabéns, cara.

    • joão baldi jr.

      Eu ainda acho que nunca vou superar aquela da…manteiga do amor derretendo na chapa do romance, algo assim. Aquele foi meu ponto alto como criador de metáforas, sério.

  2. dnaw

    Sempre João baldi.

  3. “Você olhou para o abismo e, como diria Nietzche, de lá de dentro o Alexandre Pato, fazendo um coraçãozinho com as mãos, olhou pra você.” HAHAHAHA. muito (500) Days of Summer. gostei.

  4. Gosto especialmente da menção a Apocallypse Now, o que, claro, é muito pertinente se entendermos que planejar e preocupar-se mais ou menos equivale penetrar numa floresta sombria pra resolver uma questãozinha com um cara como o coronel Kurtz.

  5. enfim um texto com um final caminhando para felicidade! hauahuahauha
    e faltou uma menção ao alexandre pires mas eu te perdoo.

  6. Camila

    é muito legal o jeito que tu falas de amor e romances sem ser poeticamente sofredor e sim humorístico!

  7. Essas preocupações são deliciosas mesmo!!! mas o friozinho na barriga da possibilidade da perda ajuda a se manter criativo!!!!

  8. Lissandra

    Muito bom!!!=D

  9. É assustador o quanto é possível se identificar com essas situações. Assustador pensar que toda a humanidade está passível de viver isso…
    Espero que meu dentista não entre nessa vibe, ele pode ficar um tanto distraído quando estiver me dando anestesia….

    E de onde você tira essas metáforas? Stalinismo amoroso é o novo comunismo egoísta dos relacionamentos!

  10. Que bonito. Bom lembrar dessas fases pra adoçar o coração. Terminei o texto com um “ounn que bonitinho né”?! Quero isso pra mim de novo!

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