Mais 4 razões pra respeitar o pagode da década de 90

Os nomes: Todo mundo sabe como é complicado achar um bom nome pra uma banda, ainda mais nos dias de hoje, quando boa parte dos nomes bacanas já tem dono e as pessoas são forçadas a usar coisas como palavras sem sentido, fusão de apelidos dos integrantes ou o nome da barraquinha de cachorro quente na qual o carro deles bateu naquele dia em Santos.

Exatamente por isso devemos respeitar a sempre impressionante criatividade dos grupos de pagode da década de 90, que gerou nomes que foram desde as mais absurdas variações em torno da palavra “samba” (Exaltasamba, Abolisamba, Badallasamba, Descontrasamba, Dedicasamba e etc) até coisas totalmente nonsense e beirando o absurdo como “Só Preto sem Preconceito”, “Bala, Bombom e Chocolate”, “Chocolate sensual” e, meu favorito, o “Grupo Sónabusanfa”. Porque pagode e modalidades sexuais não reprodutivas, ao que parecem, caminham juntos.

A geração de emprego: Mais do que um movimento musical o pagode noventista foi também, além de um projeto estético, um movimento social, que gerou empregos e inclusão em várias classes da população. Isso porque ao invés de serem artistas solo, power trios ou mesmo bandas (com 4 a 6 integrantes) os grupos incluíam uma quantidade infinita de membros, vários dos quais nem tinham alguma função definida e estavam lá apenas pra acrescentar volume ou empregar algum parente (“você toca cavaco, você cuíca, você bumbo e vocês 8…bem…vocês sabem algum passinho?”)

Ou seja, mais do que mudando a história da música, tocando nossos corações ou conhecendo grandes líderes mundiais e indo pro Jô comentar como eles são fofinhos, o que caras como Alexandre Pires e Waguinho estava fazendo era justiça social, amigos. E por sinal, sim, o seu Arcade Fire e todos aqueles cabeludos não iriam existir se alguém não tivesse levado 18 caras com camisas coloridas pra um palco e cantado “Depois do Prazer”.

O sentimento: Ainda que existam inúmeros gêneros musicais e diversas formas de trabalhar com cada um desses gêneros, existem certos temas que são comuns em todos eles, mesmo que apresentados com diferentes roupagens características. Amor, relacionamentos, paixões não correspondidas, esses assuntos percorrem o rock, o blues, o jazz, o funk, o samba, o forró e praticamente todo e qualquer ritmo do mundo, mas em nenhum deles ele é representado de forma tão absurdamente literal quanto no pagode.

Bizarre Love Triangle fala de triângulos amorosos? Ok, mas Eu e Ela, do Grupo Raça também, e sem margem pra dúvidas. Alanis Morissette trata de relacionamentos? O Grupo Molejo também. Morrissey aborda solidão e abandono? Tá aí o Alexandre Pires se perguntando o que fazer com essa tal liberdade. Ainda que eu realmente admita que, sendo fã de Weezer, é sempre foda descobrir que a melhor descrição pro seu relacionamento mais longo você achou numa música do Sorriso Maroto.

O grupo Divina Inspiração: Imagine um grupo de pagode. Agora imagine um grupo de pagode gospel. Agora imagine um grupo de pagode gospel com o Marcelinho Carioca. Agora inclua o Amaral. Agora leia essa letra, com ênfase na parte do homem carnal que vive o que vê e no homem espiritual que crê no que não vê. E pra finalizar ouça essa canção. Sério, diga você o quiser, valeu a pena. Valeu muito a pena. Um forte abraço a todos os envolvidos.

 

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24 Comentários

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24 Respostas para “Mais 4 razões pra respeitar o pagode da década de 90

  1. João, estou tapando a boca aqui no estágio pra não cair na gargalhada. No mais dois pontos importantes: Que outro gênero musical também traria uma banda chamada Katinguelê? (Achei Chocolate Sensual um nome bastante cativante, e Sónabusanfa também cairia bem numa banda de forró. E meu deus, por anda o Salgadinho? Marca registrada, óculos na cabeça).
    Segundo ponto, realmente o pagode teve uma função social revolucionária. Era muito importante ter um cara destinado a fazer coraçãozinho com a mão enquanto dava seus passinhos.

  2. Impossível contra-argumentar. O pagode dos anos 90 tem, agora, meu respeito. Já tinha um pouco, mas agora meu respeito é embasado em argumentos válidos.

  3. Julio Pandelot

    Porque pagode e modalidades sexuais não reprodutivas, ao que parecem, caminham juntos.

    Eu parei de ler aqui… não conseguia mais de tanto dar risada hahahaha boooa J

  4. Steph

    Taí, boa categoria para sair do marasmo de “Cidade, Estado ou País” na hora brincar de Adedanha (também conhecida em outras Unidades Federativas como “stop”): nomes de bandas de pagode!

  5. ThiagoFC

    João, justificando o injustificável.

  6. Naiara Costa

    Isso sempre me faz pensar que eu dei o meu primeiro beijo ao som de katinguele tocando Inaraí… (um pouco traumatizante, ainda mais qndo lembro que o garoto dizia que Inara rimava com Naiara, numa declaração fortemente romântica)
    Mas eu me pergunto: o que seria da minha vida hoje se isso não tivesse acontecido?
    eis a questão.

    • joão baldi jr.

      Compartilhando uma experiência parecida: minha primeira namorada, nos tempos de colégio, se declarou pra mim com um bilhetinho que tinha um trecho de uma música do Exaltasamba. Depois ela terminou comigo no aniversário de um ano de namoro e no mesmo dia ficou com um amigo meu na minha frente? Sim, mas isso não mata a magia da citação.

      Ainda que, como dizia Alexandre Pires, tenha dado pra ver nessa hora que o amor só se mede depois do prazer.

  7. eu sempre gostei desse pagode e nada combina mais com churrasco na laje! com intervalos do roupa nova e emilio santiago, logico! hahaha

    e o magic pagode ainda vai conquistar o mundo!

  8. Vida longa à música de origem popular.

    Principalmente nos churrascos.

  9. O problema da falta de nomes é tão grave, que hoje mesmo vi cartazes promocionais de apresentações de grupos cujos nomes parecem ser escolhidos a partir de palavras aleatórias em escritas alternativas, como “Muleke”, “D’jeito Novo”, “Pyração”.

  10. Grande João. Sempre em defesa das pessoas com gosto musical duvidoso! Valeu cara!

  11. A sua escrotidão não tem limites.
    =pp

  12. Fernanda

    Bom… vim ler seu blog pq um amigo meu postou um dia do seu blog na pagina do facebook dele..bem.. realmente vc tem um jeito meio ácido e ao mesmo tempo divertido.
    esse post do pagode acabando em paGOD, realmente não me contive e resolvi escrever que seu blog faz da minha volta do almoço no trabalho um momento bem mais divertido.

  13. hahahaha, melhor post que eu li no meu google reader superlotado nessa semana!

  14. JuninhO

    O homem carnal é foda!

  15. bruno

    pagode é foda e é muito bom, depende do estado de espirito do dia, até funk é muito foda, inclusive quando é o cara dos avassaladores que canta o funk “sou foda” ao som de brasileirinho no you tube rsrsrsrsrsrs bem foda

  16. Você escreve muito bem. Já leu Neil Strauss? Por um acaso tbm é amigo do Mystery?

  17. Só te digo uma coisa: só você, eu e marcelinho carioca são os seres que sabem cantar a música do HOMEM CARNAL: “Antes eu pensavaaaaa, que felicidade… Era ter um carro bom, era ter muito dinheiro, era ter muitos amigos no mundooo!”.

    Sou Marcelinho desde criancinha. Fui vizinha dele por muito tempo, eu o conheço, ele não me conhece, no ano passado ele me paquerou no aeroporto e na semana passada encontrei ele na padaria. Relação CARNAL, sabe assim?

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