Aquele sobre cabelo, salão masculino e a pastinha modeladora

Como qualquer um de nós pode notar, a alvorada do novo milênio trouxe uma série de mudanças no papel do homem como gênero. Antes criados para basicamente prover alimentação, proteção, cantadas pedreiras, comentários sobre futebol e reafirmar a idéia de que não, não precisa pedir informação, a gente sabe pra onde tá indo, nós machos nos vemos hoje diante de um novo contexto, em que os papéis e posições de identidade são muito mais flexíveis e no qual vemos surgir essa criatura ainda em formação e cheia de características contraditórias chamada “homem moderno”.

Sim, o homem moderno, esse que ao mesmo tempo em que não pode mais fazer várias coisas que antes eram consideradas “normais” se vê diante de diversas possibilidades que antes a sociedade lhe negava, no que meu pai chama carinhosamente de o paradoxo do “chamar de gostosa não pode, mas depilar o peito pode”. Uma dessas grandes revoluções fica clara no campo da estética masculina, antes uma área tão valorizada quanto a arquitetura cigana e o cursinho de latim para viajantes, mas hoje tão rentável quando os shows do Luan Santana e a venda de armas no Oriente Médio, e que para muitos de nós ainda é um território são assustador e misterioso quanto a discografia da Gloria Gaynor ou os livros da série Bianca. E poucas questões exemplificam tão claramente isso quanto a do cabelo e dos salões masculinos.

Afinal, grande parte de nós, com raras exceções, foi criado no ambiente de barbearia. Sim, aquele lugar onde éramos levados por nossos pais ou mães e onde bravos senhores, que pareciam realizar aquele serviço desde tempos imemoriais, cortavam cabelos e faziam barbas de forma rápida e despreocupada, enquanto falavam sobre futebol e pescaria, xingando políticos e reclamando de suas vidas pessoais. Era tradicional, era clássico, era meio sujo, era cheio de cabelo, era até meio temerária a forma como eles usavam aquelas navalhas sem olhar, mas era o jeito que a coisa funcionou com o seu pai, com o pai dele e com o pai do pai dele antes dele. A barbearia era o epítome da visão estética do homem, que era a de que bem, isso de estética não é coisa de homem e se não vai ler o jornal dos sports passa logo pro outro cliente, na boa, sem veadagem.

Com o tempo, porém as barbearias clássicas foram perdendo seu espaço. Seja por uma tendência contemporânea, seja porque agora existe concorrência, seja apenas porque os antigos barbeiros começaram a…humm…morrer, elas começaram a ser trocadas pelos chamados “salões masculinos”, num fenômeno que envolveu não apenas os metrossexuais de praxe como também caras que realmente não davam muita importância pra essa coisa de cabelo e foram seduzidos apenas pela promessa de ter o momento da tosquia acompanhado por cerveja, amendoim e algumas partidas de Fifa 11 no Xbox.

E eu digo, como cara que aos 26 anos nunca usou gel, que tem o mesmo corte desde 2002 e que não penteia o cabelo desde o final do ensino médio que bem, estamos perdendo muito com isso, como homens, como filhos, como futuros pais, como seres humanos. Porque o salão é confortável? Sim, é. O local é mais amigável e mais limpo? Não posso questionar isso. O cara que corta o cabelo parece realmente enxergar a minha cabeça e as mãos dele não tremem assustadoramente com as do barbeiro anterior? Ok, não posso negar. Mas o ambiente, amigos, o ambiente realmente define tudo.

Ter o seu cabelo cortando por um cara que usa piercings, conhece Aphex Twin, te recomenda um creminho esfoliante e tenta te vender uma pastinha modeladora, enquanto ao fundo toca Scissor Sisters é o tipo de situação que dispara todos os seus alarmes pessoais, que te faz pensar no que o seu avô diria, que deixa o seu cromossomo y desconfortável como ele só ficou naquela vez em que a sua mãe alugou “O Segredo de Brokeback Mountain” e você percebeu que tinha curtido o filme. Sério, amigos, tudo soa muito, muito, mas muito errado.

E estou avisando isso pra vocês porque pra mim…bem…pra mim é meio tarde demais. Afinal, eles serviam mesmo cerveja, o cabelo realmente ficou bom e ok, ainda que eu talvez tenha exagerado ao comprar a pastinha modeladora, enquanto eu não topar a proposta de mexer na sobrancelha eu sei que está tudo bem. Acho. Quer dizer, espero.

Ok, eu deveria voltar a freqüentar a barbearia.

 

Anúncios

21 Comentários

Arquivado em crise de meia meia idade, homens trabalhando, situações limite, Vida Pessoal

21 Respostas para “Aquele sobre cabelo, salão masculino e a pastinha modeladora

  1. Ana

    Engraçado isso, né. Meu irmão mais velho frequenta uma barbearia até hoje, inclusive fui com ele um dia lá. É um lugar bem pequeno, com posters de time de futebol nas paredes. Segundo meu irmão, o dono limpa o lugar apenas uma vez por ano. Eu achei o máximo!

  2. Enquanto os velhinhos das barbearias de bairro estiverem vivos, com seus aventais azuis, oculos na ponta do nariz e um pente marrom no bolso o mundo será um lugar bom para se viver!!

  3. Barbearia sempre me remete especificamente àquela do Um princípe em Nova York. E tenho a impressão de que seu pai é um frasista e tanto.

  4. Meu namorado frequenta a mesma barbearia há uns 15 anos. Que, inclusive, passou de pai pra filho. E tem playboy e VIP na sala de espera. Acho roots.

  5. barbeiros são mesmo uma espécie em extinção. e eu nunca tinha ouvido falar em salões masculinos.

  6. Naiara

    Sua mãe alugou “O Segredo de Brokeback Mountain”? Aham, senta la claudia.

    • joão baldi jr.

      Aham. E comprou aquele filme no qual o Wesley Snipes se veste de mulher. Mamãe é só coração e diversidade, cara.

  7. Tales

    Engraçado, eu sempre cortei em barbearia, mas faz uns 6 meses que venho cortando em um salão e o resultado fica de fato melhor. Mas como lá não servem cerveja, voltarei para a barbearia. E por causa do preço também..

  8. Émille

    tudo bem você ter comprado a pastinha modeladora. se não me engano você tem dificuldades em dizer não, né? mas, por favor, aguenta firme quando sugerirem mexer na sua sobrancelha, tá? aguenta firme.

  9. Será que os barbeiros de verdade não têm filhos e podem passar a eles o legado?

    Ou, pior, será que os filhos deles abriram salões masculinos?

  10. André Rocha

    Muito bom o post. Agora, fiquei curioso (não que eu queira ir, claro) : qual o nome deste salão? Onde fica?

  11. Acho que é uma questão de tempo até as barbearias voltarem a ter um certo apelo da “masculinidade perdida”…
    Enfim, sobre Scott Pilgrim (e praticando o hábito estranho de responder comentários em outros comentários) também é deprimente quando você percebe que ter 22 anos e querer viver do cool não tá funcionando. (mas você não me parece menos legal ou bacana)

  12. Esses dias fui à barbearia aparar a barba (olá redundância) e fui atentido por um jovem, novo funcionário com mexas loiras e piercing na sobrancelha. Aquela figura destoava muito dos respeitáveis senhores-com-camisa-de-abotoar que trabalham lá. Passei a temer pelo futuro da mui nobre profissão.

  13. ThiagoFC

    Eu já tava achando tudo isso uma grande frescuragem, até que algo chamou minha atenção. Cerveja, amendoim e Fiffa 11???? Isso é sério?
    Cara, eu estou quase revendo meus conceitos. Quase.

  14. Meu ex-patrão cortava o cabelo numa barbearia na esquina da Av. Rio Branco com Teófilo Otoni (aqui no Rio) e a gente zoava dizendo que ele ia no pela porco e sentava na caixa de maçã Rio Negro!!
    Não trabalho mais no Centro, mas acho que a barbearia ainda existe, embora o dono não sei não… isso já tem mais de 20 anos e a barbearia já era antiga!!
    Meu filho começou cortando numa barbearia também muito antiga (embora o dono fosse novo) no Flamengo, depois passou para minha cabeleireira e agora vai por conta própria no barbeiro mais barato perto de casa (ele passa máquina).
    Acho essa coisa do barbeiro bem legal, mas não precisa ser molambo pra ser masculino né? Quequitem um perfuminho, um cabelo penteado…
    Em tempo, eu não sabia o que é Aphex Twin!! hehehehe!!
    Li seu artigo na PdH e vim conferir o blog, adorei!!
    Beijos!!

  15. JuninhO

    Cara eu nem imaginava o que era Scissor Sisters ou Aphex Twin, de onde você tirou isso?
    E sobre salões masculinos, por incrível que parece, eu não conheço nenhum por aqui, fico mais pelos barbeiros mesmo.
    Se bem que em Porto eu fui em um salão e ficou bem legal o corte.
    Ah, e viva o gel e a pasta modeladora!

  16. De novo. Você escreve muito bem. As descrições do cotidiano e das sensações são incríveis. Congrats, man. Vou voltar aqui mais vezes

  17. rene

    voce me deu uma idéia de abrir um barbearia,e quem está na fila joga winning eleven.

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s