Pornô

E Sasha Grey se aposentou. Sim, essa espécie de Juscelino Kubitscheck da indústria do cinema adulto, que em apenas 5 anos de pornografia fez coisas que nós esperamos que nossas mães, tias e avós não tenham feito em 50 anos de vida, resolveu abandonar a careira no auge e seguir em direção a outras áreas mais tradicionais do entretenimento, deixando para trás as lembranças, os sites de streaming e os filmes com títulos envolvendo trocadilhos que ficaríamos constrangidos se tentássemos traduzir para o português. E é exatamente nesse momento de perda e de luto, de olhares compungidos e picos na busca do Google que nos deparamos novamente com um dos mais lastimáveis tipos de homem que o nosso século produziu: o cara que finge que não gosta de pornografia.

Não que não seja compreensível, claro. Afinal, todos nós sabemos que a sociedade ocidental é repressiva, que a sexualidade ainda é tabu, que as namoradas não curtem topar com arquivos chamados “russianorgy.mpg” e que é muito, mas realmente muito tênue a linha, já citada por um sábio amigo no twitter, que separa o consumo saudável e recreativo de pornografia da visão obcecada de quem tem 18 hds externos de um tera repletos de pornô, como se estivesse estocando material para um possível apocalipse zumbi. Mas o grande problema quando você finge que não consome pornografia, que não sabe quem é Sasha Grey, que conhece apenas um Rocco e ele é filho da Madonna ou que não sabe quem foi que colocou o redtube nos favoritos do notebook (“mas só pode ter sido meu irmão, aquele danadinho”) é que você não apenas mente para os outros e para você mesmo como também joga fora anos, décadas e porque não, séculos de conquista social e tecnológica. Sim, amigos, é isso mesmo.

Lembre-se da sua adolescência. É, aquele período obscuro em que o corpo feminino era um mistério e não, a resposta não era “coronel mostarda, na cozinha, com o castiçal”. Pense em como era complicado conseguir aquele vhs da Silvia Saint que o seu amigo tinha roubado do tio, lembre como era torturante a espera pelo loading completo daquele ensaio com colegiais japonesas em que cada foto media 250 kb, recorde como era dramático e possivelmente constrangedor entrar naquela banca e pedir aquela revista sueca sem titubear, como se você fizesse aquilo todo dia (e sim, houve uma época em que você fazia isso quase todo dia mesmo, era complicado). Lembre-se de cada momento, de cada pequena vitória ou derrota, de cada vez em que você saia da sessão erótica da locadora e topava com a mãe da sua vizinha gatinha, perdia a manhã de domingo porque tinha visto cine privê ou estava tentando desbloquear o sexhot e sua avó entrava na sala.

E agora reflita sobre o mundo de hoje. Um mundo sem barreiras, um mundo sem limites, um mundo sem distâncias, um mundo em que vídeos eróticos com garotas vestidas como personagens de Naruto estão a apenas um clique de distância de qualquer um e o potencial pornográfico da internet comprova claramente a verdade imortal da regra 34 de que se algo existe então existe pornografia sobre isso, como qualquer busca sobre “meu pequeno pônei” no 4chan pode atestar. Não, amigo, esse mundo não é fruto apenas da sorte, não é fruto apenas da tecnologia, não é fruto apenas do poder da internet para transformar tudo que existe numa fonte mais ou menos óbvia de conteúdo pornográfico, como atestado pela lei de chatroulette. Não, meu caro, nada disso. Esse mundo foi construído, esse mundo foi conquistado, esse mundo foi criado, byte a byte, bit a bit, fantasia de enfermeira a fantasia de enfermeira por caras como eu e você, por garotas como Sasha e April, por homens como Rocco e John.

Então, em nome dessa dívida moral que cada um de nós tem com a indústria do entretenimento adulto que nos educou, nos preparou, nos surpreendeu e nos mostrou que é sempre importante manter a porta do quarto trancada quando nossas mães estão em casa, o mínimo que o senhor, homem de bem, deve fazer quando questionado sobre seu conhecimento do trabalho da Srta Grey é, ao invés de covardemente negar, fingir que não, desviar o olhar ou coisa do tipo, respirar fundo, olhar para o infinito, sorrir de canto de boca e orgulhoso, falar um claro e direto “é…tô sabendo…”.

Porque, claro, se você falar mais do que isso vai passar uma imagem muito esquisita de tarado.

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22 Comentários

Arquivado em Crônicas, crise de meia meia idade, Declaração de princípios, homens trabalhando, Mundo (Su)Real, teorias

22 Respostas para “Pornô

  1. E agora vendo as saias das moças é que eu entendi a imagem do post.

    • joão baldi jr.

      É de um ep de it crowd, um dos melhores seriados do mundo hoje (sendo hoje terça-feira). Recomendo muito a todos.

  2. Será que o meu chefe vai entender que eu estava apenas lendo um blog, cujo post tinha o título “Pornô” e que logo depois eu procurei por “Sasha Grey” no google para tentar achar informações sobre a aposentadoria da moça?
    Espero que esse Deus da internet realmente não exista…

    E como assim ela se aposentou?! Triste, muito triste…

  3. Annia

    Uma lágrima solitária escorreu pelo meu rosto.

    Sempre teremos Fashionistas 2…

  4. Naiara Costa

    É como eu sempre digo: sem pornografia não existiria a internet como conhecemos. Ou as pessoas acham que banda larga, compras online, imagens em alta resolução,download, streaming e tudo que de alguma forma é parte do nosso imaginário virtual surgiu simplesmente pq alguém quis ser legal? Claro que não, tudo surgiu pra facilitar a pornografia.

    God bless Sasha Grey…hahaha

  5. Pengo

    Grande Bigode,

    Mais um belo texto, brother. Parabéns!
    A propósito, deixei com seu porteiro aquele DVD que vc me emprestou, o “Seduzida por um pôney”. Obrigado, realmente é muito bacana!

    Forte abraço, mlk!

  6. Poxa.. essa sasha grey tem a maior carinha de menininha inocente. Preciso rever meus conceitos; ou ver uns filmes né!

  7. peter north

    sensacional!

  8. JuninhO

    Nada a ver com o contexto mas o que você, como escritor, acha da homenagem da Academia Brasileira de Letras ao super culto, consagrado nas áreas literárias e que não deve nunca ter lido nem duas frases, o gênio das letras Ronaldinho Gaucho?

    • joão baldi jr.

      Eu acho que todo mundo, imortal ou não, curte uma camisa grátis. É a natureza humana, saca? (vi isso num episódio de Pinky e Cérebro)

  9. Pingback: Bobalinks

  10. Pois é…fiquei sabendo e fiquei muito triste..até postei um vídeo dela no site http://www.pirocada.com.br para lamentar este dia trágico =/ Ela, Abella Anderson e Tori Black, quando sairem todas estas do pornô, me declaro morto.

  11. Leo

    Grande texto, minha primeira vez por aqui. Sei que as gurias não são todas iguais, e é pena que apenas uma minoria entenda realmente o que significa o que é um pornô. Que não se sintam substituídas por eles, que entendam que é pra elas também.

  12. Decapattack

    Ela ganhou mais grana q vou ganhar na vida inteira fazendo algo q eu não vou co9nseguir na vida inteira.

    E DIZEM e deus é justo… :-(

  13. Fabio Duarte

    Meu, não sei que graça tem essa Sasha, ela é branquela, sem peito, nem bunda, a Monica Mattos da de 10 nela.

  14. Fabio Duarte

    E outra, daqui a pouco ela volta a fazer filme ou ser uma espécie de Belladonna que soube administrar uma carreira como diretora e tem seu estudio.

  15. Acho que eu sou o único cara que nunca gastou um centavo com pornografia. Graças à revolução na oferta de entrenimento adulto via web.

    Aliás, participar de vaquinha conta? Então não existe quem não gastou…

  16. Pingback: 4busca » Bobalinks

  17. ThiagoFC

    Rapaz, agora que você colocou as coisas em perspectiva histórica, cheguei à conclusão que consumir pornografia há 20 anos é algo similar a ouvir futebol no rádio, antes do advento da TV.
    E eu me lembro dessa tuitada sobre “estocar pornografia para o apocalipse” (não que eu tenha me identificado, de forma alguma).

  18. Leonardo Saldanha

    Muito bom cara!
    Além de bem escrito e atual.

    Haa e Sobre a Sasha, “é…tô sabendo…”.

  19. rene

    eu não pode procurar saber quem é Sasha Grey pois estou no meu trabalho, mais logo quando chegar em casa irei procurar champz

  20. YCK

    “X + para baixo + enter” só não é o comando para pornografia aqui em casa por causa do xkcd.

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