You say potato, i say potato…

 

Vinte e tantos anos. Um período nebuloso, um período polêmico, um período de transição. Uma época da vida em que você se vê dividido entre os impulsos adolescentes e as responsabilidades adultas, um momento em que você tem mais dúvidas do que certezas, uma fase em que você começa a notar como o garoto que você era influenciou o homem que você está tentando se tornar. Mas não, não uma época em que sua voz engrossa, nascem pêlos no seu corpo e você desenvolve seus caracteres secundários. Porque sério, cara, era pra isso ter acontecido uns dez anos atrás e se ainda não rolou o melhor é procurar um médico, tem que ver isso aí.

E nesse ponto da sua vida em que a vontade de beber duela com a necessidade de estar no trabalho ás 8:00, o ímpeto de cantar garçonetes dizendo que se chama Bruce Wayne compete com a vontade de construir relacionamentos  significativos e você tenta jogar Fifa enquanto faz a sua declaração de imposto de renda pessoa física, nós começamos a procurar em nós aqueles marcadores, aqueles sinais, aqueles pequenos traços que confirmariam que ok, a infância acabou, a adolescência passou, viramos adultos e agora não é mais bacana entrar na piscina de bolinhas do Mcdonalds, mesmo porque dizem na internet que tem cobras dentro dessas coisas.

Muitas vezes não é fácil achar esse tipo de comprovação, é claro. Procuramos sinais no trabalho e descobrimos que lidamos com fusões corporativas da mesma forma que lidávamos com provas de geometria plana; procuramos nas relações familiares e notamos que ainda ficamos trancados no quarto jogando AoE com nossos irmãos e gritando “mãããe, o bolo de carne”, mesmo sabendo que ela não viu “Penetras bons de bico”; procuramos na vida pessoal e notamos que quando estamos apaixonados continuamos com a mesma cara de bobo, a mesma hesitação e a mesma necessidade de disfarçar momentos sentimentais com piadas envolvendo pokemóns. E foi exatamente em um desses momentos de busca pessoal que eu acabei encontrando, onde menos esperava, o primeiro sinal de que sim, talvez, quem sabe, eu possa estar realmente entrando de sola no mundo adulto. A saber: descobri que não gosto mais de batata frita.

Sim, no começo foi um baque. Como um cara que decide terminar com a Scarlett Johansson porque precisa de “novas emoções”, você descobre chocado que parou de notar a magia da consistência crocante, a delícia salgada dos carboidratos, o charme residual único daquele papel toalha encharcado de óleo. Tenta lutar, tenta negar, tenta resistir, mas se descobre seduzido por uma sauté, por uma rostie e, naquelas noites mais hardcore, até mesmo por uma rústica, se ninguém estiver por perto pra te recriminar. Mas a batata frita normal, aquela que durante sua infância e adolescência foi sua companheira, confidente e responsável por essa sua barriga ridícula, bem, com ela o sentimento apenas morreu. Não dá mais. O problema sou eu, não você.

Isso com certeza significa alguma coisa. Afinal, ainda que com pouca relevância em termos práticos (parei com as fritas mas continuo viciado em bolinhos ana maria, por exemplo), simbolicamente o abandono dos batatinhas é um claro sinal de mais um passo dado em direção a uma vida madura, adulta, em que posturas evoluirão junto com meu paladar para que eu me torne um homem sério, centrado, ponderado e todas essas coisas.

E claro, espero que até os 30 eu tenha parado de me encher de jujubas sempre que fico ansioso ou chateado com alguma coisa. Maturidade deve realmente estar em algum lugar por aí.

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15 Comentários

Arquivado em é como as coisas são, Crônicas, crise de meia meia idade, teorias, Vida Pessoal

15 Respostas para “You say potato, i say potato…

  1. Uma coisa que eu percebi é que eu dou risada de umas coisas que antes eu não achava engraçadas. Tipo quando meus pais e tios, quando eu era criança, riam de algo e eu achava o senso de humor deles bem duvidoso.

  2. Naiara Costa

    É… estranho mesmo isso. Eu só percebi que não gostava mais de batata frita qndo comecei a trocar elas por nuggets no McDonalds… se bem que isso não é muito uma evolução na vida adulta.

    Só posso dizer que depois desse texto eu entendi pq meus amigos ficaram me sacaneando muito qndo disse no twitter que ia almoçar Filé ao funghi com penne ao molho de limão siciliano e batatas bravas. A culpa era logicamente das batatas bravas…

  3. Rosana

    bom, o que falar então da minha mãe que pede no dia do aniversário um balde de batata frita (daquelas em rodelinha pq é mais gostosa) e de minha santa vó que tem, trancado à sete chaves, no armário um pote interminável de inúmeras jujubas. Agora fala sério, bolinho Ana Maria é blaster bom

  4. Eu também estou em choque, amigo, mas como compartilhamos da mesma idade (e de piadas envolvendo pokémons para evitar embaraços com a pessoa amada), entendo seu ponto de vista.

    Por exemplo, eu, que sempre fui a Lisa Simpson do engajamento cultural, não ligo mais para a existência de futebol (que antes eu abominava) e ainda acompanho algumas novelas para me distrair.

    Isso também é maturidade, certo?

  5. ThiagoFC

    Ah, a tênue linha que separa os meninos dos homens…
    Enquanto eu puder, hei de evitar cruzá-la (para desespero da minha mulher, que não compreende nem com auxílio das forças mais supremas do universo, como eu consigo gostar de Cavaleiros do Zodíaco).
    É aquela história do Pete Townhsend: “espero morrer antes de ficar velho”.

  6. Ah, e às vezes você pode considerar uma pessoa madura, ter a certeza de que sim, ela já passou para a fase adulta, quando o celular dela toca e invalida seus argumentos.
    Aqui esses casos são diários.

  7. JuninhO

    Essa travessia é realmente bastante complicada. A maioria de nós fica na duvida se quer ou não cruzar essa fronteira e deixar pra trás nossa “vida louca vida” da adolescencia/juventude.

    Eu mesmo com quase trinta e encaminhando para o casamento ainda fico empurrando essa mudança, me segurando no passado, as vezes esperando a volta de um tempo que não vai voltar…

    Mas parar de gostar de batata frita? Isso já é sacanagem demais, cara!

  8. Acho que todo mundo tem problemas com isso, e bom tem gente que passa a vida toda negando o mundo dos adultos, eu também posso tentar, certo? E sobre as batatas-fritas, pode ser uma fase, não? Em tempo, já provou as noisettes? Melhor petisco para se comer enquanto toma cerveja.

  9. Daniela

    gostei do texto ! só posso dizer uma coisa, passa tudo muito rápido…o meu grande choque foi fazer imposto de renda e ter que lidar com todo tipo de pessoa na empresa, que a faculdade não te ensina como lidar, só a vida mesmo !

  10. Mateus

    Eu percebi q tinha entrado na vida adulta quando, depois de formar e já trabalhando, ficava puto com o barulho das festas nas repúblicas viçosenses – que eram as minhas preferidas. A ficha caiu justamente quando eu discava pra polícia, por conta de uma dessas festas. É, o tempo transforma o estilingue em vidraça.

  11. Coei

    Só tu mesmo! hhaha! Show de Boleta!

  12. eu hoje gosto de beterraba. mas, acho que nunca vou deixar de comer passatempo, então… belo texto, João.

  13. Descobri um restarurante em Juiz de Fora que vende batatinhas fritas em formato de ziguezague. Desde então, sempre que posso, tenho almoçado lá. E olha que nunca fui muuuuito fã de batata, mas em ziguezague é diferente.

  14. Matheus Menezes

    Acho que ta na hora de procurar um médico.

  15. Fico pensando se a gente fica adulto no dia que pede ajuda pra usar a internet…

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