Novas aventuras em lo-fi #9

Uma coisa que acontece com freqüência quando a gente é garoto, não sabe falar inglês direito ou apenas ouve as músicas de relance é não sacar muito bem qual que era o exato conceito da canção e acabar vivendo a vida tranqüilo, de boa, mas com uma visão distorcida do que está rolando naquela faixa 4. Pensamos que “Santeria” era uma música romântica sobre Miami e não sobre como queremos matar um cara chamado Sancho; confundimos hinos de solteironas com canções sobre tempo virando; pensamos que o Billy Idol queria mesmo ajudar o peixe e ficamos horas nos perguntando porque nas festas do Cláudio Zoli rolava intercâmbio de biquínis. E uma dessas canções que eu conhecia desde moleque mas cujo sentido eu realmente nunca tinha alcançado até um dado momento no metrô carioca – coração batendo forte sentido zona norte – é “Quase um Segundo”, dos Paralamas do Sucesso.

Não, não que eu não soubesse que a música é triste. Claro que eu sabia. Afinal, o refrão diz “serão que você…ainda pensa em mim?” e até uma criança de 7 anos sabe que uma pessoa feliz não pergunta coisas assim, mas a verdade é que eu nunca tinha parado pra analisar, pra refletir, pra pensar friamente no quão absurda e obscenamente triste, degradante, deprimente e passível de tentar se enforcar com uma gravata na sua própria banheira sem sucesso para depois voltar ao mundo dos vivos falando através de um fantoche castor com sotaque britânico essa canção é. Analisem comigo.

A canção começa com “eu queria ver no escuro do mundo, onde está tudo o que você quer, pra me transformar no que te agrada, no que me faça ver, quais são as cores e as coisas, pra te prender”. Ou seja, começa complicada. Começa complicada porque já parte da casa da incompreensão (pra mim é poesia, pra você é poesia, pra uma ex-namorada que ouve isso sendo balbuciado num telefone no meio da madrugada é insanidade, reunião com advogados e ordem de restrição judicial) e caminha em passos largos pra casa do assustador. Afinal, você não usa, num pedido pra voltar, expressões como “te prender”. Claro que não. Nesse tipo de papo as palavras chave são “maturidade”, “crescimento”, “perdão”, “aumento da performance” e “não vou mais virar e dormir”. Palavras como “prender”, “chicote”, “desespero” e “mamãe” nunca devem ser usadas. Bola fora, Herbert.

Mas ele não está satisfeito e aí, pra contextualizar, solta um “eu tive um sonho ruim e acordei chorando, por isso eu te liguei”. E bem, o que a gente pode dizer? É um cara adulto dizendo pra antiga namorada – que terminou com ele – que teve um pesadelo, acordou chorando e daí telefonou pra ela, provavelmente de madrugada, provavelmente no meio da semana, provavelmente de um telefone público, porque o celular e o fixo dele ela já tinha bloqueado. Sério, amigos, é triste. É muito triste.

Aí vem o refrão no qual ele abre o coração, expõe a intimidade, gera provas contra si mesmo e pergunta, entre desesperado e com voz de bêbado se ela ainda pensa nele. A resposta, meio implícita, é claramente um “estava tentando não pensar, mas aí você me ligou, Herbert, seu babaca”, mas o vocalista dos Paralamas, que estava on fire, ainda tem tempo, antes que as autoridades cheguem a sua casa, de dizer que às vezes a “odeia por quase um segundo”, que é tempo mais do que necessário para um tiro e é possivelmente a frase que a advogada mais vai ter trabalho pra explicar nas audiências.

Quando ele completa com “depois te amo mais” e segue mencionando “os pêlos, o gosto, o rosto e tudo” que não o deixam em paz, dando sinais de uma obsessão nada sadia, ela já desligou o telefone, foi pra casa dos pais e atualizou o facebook com o status “cuidado com meu ex-namorado stalker”. É, Herbert, realmente não foi dessa vez. Vamos tentar pegar mais leve na próxima, amigão.

No próximo episódio analisaremos Leoni e a canção “Por que não eu?” para descobrir porque a auto-estima de quase todos os compositores do rock nacional ficou perdida na década de 80, e tal qual o garoto Carlinhos, nunca mais foi encontrada.

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20 Comentários

Arquivado em é como as coisas são, crise de meia meia idade, Músicas e derivados, Music Review, Song-Book, teorias

20 Respostas para “Novas aventuras em lo-fi #9

  1. Esse “trocando de biquini sem parar” me assombrou durante anos também. Nas festas que eu vou não acontece esse tipo de coisa.

    Hoje eu ouvi, por coincidência, não só Quase um Segundo como Casi un Segundo, a versão em espanhol (praticamente um dogma da música brasileira nos anos 90), que também é degradante, deprimente e passível de tentar se enforcar com uma gravata na sua própria banheira, e isso sem nem precisar saber a letra.

  2. Juliana de Assis Fernandes

    Hahaha, trocando de biquini é clássica!
    Aqui em casa, a música “somos quem podemos ser” é que causou confusão por um tempo. Minha mãe cismava que a letra era “o porteiro pintou os lábios de batom”, quando na verdade é “o poder e o pudor, os lábios e o batom”. E ela ainda explicava que o cara responsável por organizar a bagunça toda, o porteiro, tb tava metido nela, hahahaha
    Ahhh, ouça a versão com Cazuza de “quase um segundo”, acho que consegue ser ainda mais triste ):

    • joão baldi jr.

      “O porteiro pintou os lábios de batom” seria possivelmente a mais corajosa e brilhante referência a crossdressing que a música brasileira poderia ter feito. Sério, respeito demais a sua mãe (e a versão do Cazuza realmente ganha toda aquela emoção porque bem, ele cantava melhor do que o Herbert e sempre dá pra imaginar que ele tá cantando pro Ney Matogrosso, adicionando dramaticidade)

  3. Hoje em dia eu nem me importo em entender errado a letra. Eu me entrego à versão e canto sem medo de ser feliz.

    E essa letra aí do Herbert só dá mais motivos pra moça em questão não voltar pra ele.

  4. ThiagoFC

    A musa que inspirou essa daí (que eu não conhecia. Ou não consigo me lembrar de jeito nenhum) será a mesma que inspirou “Uns dias”?
    (“Eu nem te falei/Que eu te procurei/Pra me confessar/Eu chorava de amor/E não porque sofria//Mas você chegou já era dia/E não estava sozinha/Eu tive fora uns dias/Eu te odiei uns dias/Eu quis te matar”)

  5. Andou ouvindo aquela coletânea de baladas dos Paralamas que tá circulando pela web? (vide http://fubap.org/baile/2011/05/22/paraladas/ , @fredleal é o culpado)

  6. Fernando

    Falando do rock dos anos 80:
    Temos ‘segredos de liquidificador’, engenheiros, finis africae e hojeriza. (só pra parar por aqui)

  7. Eu também SEMPRE achei que se tratava de um intercâmbio de biquíni.

  8. rene

    sempre sublime,músicas legais e letras estranhas

  9. “trocando de biquini sem parar”: todo mundo entendia isso, mesmo, né. hahahaha. sempre me surpreendo com o verdadeiro sentido das músicas antigas.

  10. Cara, adoro essa música, mas acho que não enxergarei ela da mesma forma durante algum tempo. No mais aguardo ansiosamente novas análises, principalmente de medalhões como Amado Batista.

    P.S: Leoni é aquela coisa que você ouve quando já tá um pouco além do fundo do poço.

    • joão baldi jr.

      Leoni tá pra música como a Fossa das Marianas está pro relevo da Terra, não sei. Ele vive no pré-sal do sentimento humano.

  11. “Eu perco as chaves de casa
    Eu perco o freio
    Estou em milhares de cacos
    Eu estou ao meio
    Onde será
    Que você está agora?”

    “Metade” tem um efeito parecido desse que vc descreveu em mim…

  12. JuninhO

    “Alagados, sem sal, favela da maré!”

    Essa também é um clássico da confusão.

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