Problemas práticos do romantismo teórico – XX

Dentre todas as grandes falhas da nossa geração enquanto homens, que vão desde a nossa incapacidade pra assumir compromissos, a lentidão para amadurecer e a dificuldade para abrir potes de palmito e azeitonas – que provavelmente vai nos levar a obsolescência funcional enquanto gênero – uma das mais notáveis e menos comentadas é a nossa dificuldade pra dizer não. Sim, da mesma forma que um personagem do Steven Seagal não consegue chorar, algumas pessoas não conseguem dizer “eu te amo” e um fanho não conseguiria pedir um tênis de presente sem que isso gerasse piadas, somos de uma geração de caras que cresceu e chegou a idade adulta sem a aparelhagem emocional e cultural necessária pra olhar nos olhos de uma garota, respirar fundo e dizer um sonoro “pô, desculpa, mas não rola”. Em suma, somos todos um bando de fáceis.

As explicações são variadas e vão desde as mais simples até as mais complexas, seja vendo isso como traço de canalhice inerente, um produto cultural de um período em que a iniciativa no romance não precisa mais ser necessariamente masculina mas uma iniciativa feminina ainda é vista como fora da curva ou um efeito de sermos a primeira geração na história da humanidade que foi criada vendo filmes da Meg Ryan e se sente realmente culpada quando é responsável por matar o romance. Mas a verdade é que muitos de nós realmente não sabem recusar o contato feminino, seja ele vindo de uma ex-namorada, uma amiga, uma colega de trabalho ou daquela garota que tava sentada no canto do pub e que realmente não parecia tão atraente quando a gente chegou aqui, umas 8 cervejas atrás.

E isso gera é claro, problemas. Ser incapaz de dizer “não” leva a constrangimentos (nem sempre a menina do pub era tão atraente, nem sempre a menina do pub era vagamente atraente e diabos, nem sempre a menina do pub era mesmo biologicamente uma menina); um caos crescente na sua vida pessoal, que se torna desorganizada e totalmente alheia ao seu controle (“você é a…luana? cristiana? luciana? ahhhh, oi, mãe, desculpa…”); te leva a posturas mais ou menos canalhas (quando você não sabe dizer não, várias vezes é obrigado a usar de subterfúgios para “escapar” de uma garota, que vão desde simular doenças e não atender telefonemas até sair de uma festa usando bigodes postiços e um sarongue), além, é claro, de gerar a dolorosa sensação de que você não está efetivamente buscando o romance e sim sendo coisificado em uma série de relacionamentos sexuais fugazes sem sentimento. Ok, brincadeira, essa parte da coisificação e do sexo fugaz é até bem divertida, não vamos mentir.

Mas no final aprender a dizer “não” é possivelmente parte crucial do processo de amadurecimento emocional de qualquer cara. Saber quando e como recusar propostas, sejam elas tentadoras ou não, em prol do que você sabe que quer e do que você planeja conseguir é um passo básico se você quer manter relacionamentos, construir alguma coisa mais sólida e talvez até mesmo se aprofundar em direção a uma vida pessoal menos moleque, menos marota mas mais recompensadora, estável, organizada e igualmente tórrida (se você achar a garota certa). A não ser, é claro, que você realmente curta inventar aquelas desculpas, acordar em camas desconhecidas na região de São Cristóvão no meio da semana e não consiga mesmo abrir mão do sarongue porque começou a curtir essa onda. Nesse caso, ok, eu realmente não posso te culpar. Sarongues, cara.

 

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13 Comentários

Arquivado em Crônicas, crise de meia meia idade, romantismo desperdiçado, teorias, Vida Pessoal

13 Respostas para “Problemas práticos do romantismo teórico – XX

  1. é cara, life is good, mas é hard

  2. Olha, só posso dizer que quem me dera na minha adolescência os caras tivessem esse problema em dizer não.

  3. a melhor saída é mesmo correr. porque, no final, o não acaba virando sim e, bom, aquela garota no pub nem era tão terrível assim.

  4. Daí você fala que existe outra pessoa e a menina pode reagir assim: http://tinyurl.com/443vfw5

    É tenso, mesmo. Mas também dá pra pedir pro Mayer Hawthorne mandar o recado pra ela.

    E eu não vejo os garotos tendo problema em dizer não. Talvez eles tenham dificuldade em dizer com palavras, mas o sumiço tá aí que não me deixa mentir. Fica aquela coisa tácita.

    • joão baldi jr.

      Se uma garota terminasse comigo usando “just ain’t gonna work out”eu pelo menos me consolaria com a idéia de que a música era legal. Não melhora em nada, mas é alguma coisa.

      • naiara Costa

        Glad it`s over do Wilco seria a unica maneira de um cara ser um total babaca terminando e ainda assim não me deixar puta.

        • joão baldi jr.

          Já terminaram comigo usando “Carona do amor”, do Exaltasamba, então Wilco ia realmente ser uma mudança brusca pros padrões praticados.

  5. ThiagoFC

    Parece até o Chandler Bing falando (mas antes daquela viagem para Londres, do casamento do Ross com a Emily e da consequente noite com a Monica, que foi mais longe do que muita gente podia prever na época).

    Sei como é. Acho que nem deveria contar o que vou contar, mas sei como é. Em toda minha vida, por duas vezes alguma garota me “roubou um beijo”. Uma vez até que foi legal, era uma menina que eu gostava e etc. Mas da primeira vez que aconteceu, foi terrível! Nada a ver, e a menina com a língua enfiada na minha goela, mas eu não enfrentei, deixei ela fazer o que estava fazendo. Horrível. Me senti como se estivesse sendo estuprado. Se eu tivesse dito NÃO e marcado posição, hoje eu teria um trauma a menos em minha vida.

  6. Vou mudar o rumo dos comentários só pra te dizer que às vezes a gente acaba não dizendo não por falta de coragem. Mas vale a pena. E o negócio rende.

    Podemos continuar pensando por esse lado pra continuarmos sendo caras sem atitude.

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