Novas aventuras em lo-fi #13

meredith

Existem canções que, mais do que divertir, mais do que entreter, mais do que mostrar seu valor como produto artístico, acabaram ganhando status de revolucionárias, seja por sua mensagem, por seu contexto ou por seu significado dentro de um plano maior do que a da música em si. “Imagine” foi o libelo de John Lennon para um mundo de paz, amor e pessoas cabeludas na cama; “Respect” foi o grito de Aretha Franklin que se tornou hino feminista na virada da década de 60; “Blowin’ in the Wind” afirmou Bob Dylan como o bardo de uma geração e “God Save the Queen” foi um marco do movimento punk, que ultrapassou o campo musical e se tornou um estilo de vida que você não quer que sua filha tenha. E hoje venho aqui para pedir que seja adicionada nessa lista de músicas que atingiram corações e mentes, mudando o mundo e a forma como nós o vemos, uma simpática canção chamada “Copo de Vinho”, do lendário funkeiro Robinho da Prata. Me deixem explicar por quê.

Primeiro pela total e completa subversão das regras do funk moderno. Sim, porque Robinho pega um ritmo famoso pelo machismo, pela exploração da mulher, pela dominação do macho num contexto sempre sexual e até mesmo violento e o usa para extravasar a tensão e a insegurança do homem contemporâneo diante da liberação feminina. Isso fica retratado na dificuldade do personagem principal em lidar com as atitudes de sua namorada, que, sem sua autorização ou mesmo sua opinião, sai dançando, fora de seu controle, exercendo de forma livre sua expressividade e sexualidade, numa verdadeira metáfora da inadequação das antigas regras patriarcais num mundo cada vez mais marcado pela igualdade entre os sexos. Ou algo assim.

Em segundo pela profundidade e ineditismo do tema. Afinal, em várias situações é abordada a dependência masculina diante do álcool e suas implicações danosas no tecido social, mas quase nunca se toca nesse tema complexo e polêmico que é o alcoolismo feminino. Afinal, quantas vezes aquela sua ficante, namorada ou noiva não bebeu mais do que devia, perdeu o controle de si mesma e colocou a você, seus amigos, seu carro e sua paciência em situações tensas e possivelmente dolorosas? Quantas vezes ela já não começou brigas, ofendeu desconhecidos, roubou coisas, tentou subir em mesas e cantar “Head over feet” mesmo não sendo o local uma boate de karaokê? Talvez nenhuma, mas ela poderia ter tentado fazer isso, quem disse que não, certo? Não dá pra descartar assim, amigos.

Aliando esses dois elementos com uma narrativa ágil, linguagem bem selecionada e rimas cirúrgicas envolvendo “vinho” e “agarradinho”, Robinho (que também rima, olha só *risos*) conseguiu não apenas criar um novo gênero musical – o funk romântico de quase corno com mensagem – como também servir de divisor de águas em termos de músicas socialmente conscientes, responsáveis e que tratam de problemas contemporâneos que afligem realmente nossas vidas, se unindo a Luiz Gonzaga e a questão da seca no nordeste, MV Bill e a violência nas favelas e Dado Dolabella e a dificuldade de não virar o diabo e ficar apaixonado sempre que se vê uma mulher. Ou seja, fica aqui a mensagem: “eu gosto de você, eu gosto de te amar, mas se ficar bebendo a gente vai terminar”. Pensem todos nisso.

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16 Comentários

Arquivado em Desocupações, Músicas e derivados, Music Review, teorias

16 Respostas para “Novas aventuras em lo-fi #13

  1. Henrique

    Funk vanguardista.

    • joão baldi jr.

      Esse comentário é tão versátil e serve pra tantas ocasiões na nossa vida adulta que eu nem sei o que dizer, cara.

  2. francine

    Gostei! Dá uma olhada nos funks cariocas dos anos 90, romantismo e crítica na veia.

  3. Renata

    Pior que agora esse verdadeiro hino estará para sempre ligado a Bruna Surfistinha…

  4. Um tema que certamente merece atenção, e desde Claudinho e Buchecha que o Brasil carece de um novo expoente no funk romântico.

  5. Mateus Campos

    Umas duas referências bibliográficas e isso já é o começo de um TCC em Comunicação Social.

  6. esse bors aí muito sem senso de humor, vamos combinar. e depois, realmente copo de vinho é um expoente do funk atual. e aquela do mc sapão que, realmente, fez de várias festas com as amigas muito mais divertidas. abraço! (ah, e o que o Mateus Campos falou de fato é verdade. lá na facool, por exemplo, uma vez li uma monografia estilo narrativa de uma aeromoça do conhecimento. tudo vale nessa tal comunicação. falei demais)

  7. Taís K.

    Haha, genial. Sempre tento não ser preconceituosa com o Funk, mas quando ouvi a música (que havia ouvido tocar várias vezes) pensei, “não, essa não é a música do post!”. Pois é, era sim! Gosto sempre de lembrar que o samba, “ontem”, era considerado como o Funk hoje.

    Gostei das reações que você fez, nunca tinha percebido quando tocava. Realmente, falar de mulher que bebe ainda é tabu. Falar que um homem ficou bêbado é totalmente da mulher que ficou bêbada. Para o homem, um status, para a mulher, bom, é dar a cara pra bater. Talvez isso esteja mudando, aos poucos, mas a gente ainda escuta cada coisa… Claro, o alcoolismo é um problema tanto para os homens quanto para as mulheres, mas muito mais aceito quando acontece com um homem. (não que a música trate disso, pra mim)

  8. Muito bom João! estava aflita a espera deste texto! hahahaha
    e vc abandonou o B-side?

    • joão baldi jr.

      Temporariamente sim, mas tô juntando um monte de textos não-aproveitados e eles vão acabar indo pra lá, mais cedo ou mais tarde (e lembro que a gente tinha conversado sobre esse texto mesmo, verdade)

  9. Já me diverti muito ao som desse clássico.

    E repare que, ao término do refrão, o eu-lírico não exige que a inspiradora largue o álcool imediatamente e dá um certo prazo a ela: “se ficar bebendo, nosso amor vai terminar”. Só faltou um “tô falando sério, hein?”.

  10. o dedo da menina na foto é um Mindfuck?

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