Da zoeira bacana e da zoeira vacilo – Ep #1

Uma coisa muito complicada no trato com os seus amigos, parceiros, bróderes e congêneres é a questão do limite entre a brincadeira saudável, o chiste sadio, o humor que agrega, muito comumente conhecido como “zoeira bacana” e a brincadeira sem graça, o chiste maldoso, o humor que gera inimizades, várias vezes chamado de “zoeira vacilo”. Isso porque, ainda que mulheres quase sempre discordem e aleguem que homens são insensíveis, frios e só conseguem expressar 4 sentimentos, sendo que dois deles são referentes a estar ou não com fome, nós também temos pontos fracos, inseguranças e somos capazes de sofrer e de nos sentir magoados, seja por parceiras, familiares ou amigos. Uma frase errada, uma declaração mal-colocada, uma brincadeira além do limite podem fazer com que um cara fique chateado, triste, nervoso ou até mesmo violento. Mas não, nada de chorar. Chorar é meio coisa de veado.

Um exemplo clássico do quão tênue é o limite entre a “zoeira bacana” e a “zoeira vacilo” é a diferença de reação entre “a piada de mãe” e “a piada de namorada”. A piada de mãe, recurso clássico entre amigos de longa data, quase sempre envolve alguma insinuação de cunho negativo em relação a mãe do amigo, que pode ir desde a forma física e os atributos estéticos dela (“sua mãe é tão gorda que pra colocar cinto usa um bumerangue”) até uma possível liberalidade sexual da mãe alheia, que já teria praticado o intercurso sexual com várias pessoas do círculo próximo (“você é um veado” – “não foi o que a sua mãe falou ontem”) e quase sempre é seguida por uma réplica e uma tréplica, instituindo uma escalada de provocações que perdura enquanto a criatividade dos envolvidos permitir ou até que alguma outra mãe seja envolvida na discussão.

Ainda que soe absurdamente pejorativa, a piada de mãe é quase sempre inócua, não levando a nenhum grau de hostilidade, agressão ou violência, a não ser, é claro, quando algum dos fatos trazidos à tona realmente tem comprovação teórica e se descobre que dormiram mesmo com a mãe de alguém. Mas aí claramente não é mais “zoeira vacilo”, é apenas “vacilo” e entramos em um outro campo, onde abandonamos a zoeira e caímos na sacanagem ou numa reprise de American Pie.

Já a piada de namorada, ainda que quase sempre usada com mais sutileza e parcimônia, costuma ter resultados bem mais negativos e funestos, mesmo entre homens com grande grau de intimidade e convivência. Afirmações que quando associadas a uma mãe não gerariam grandes problemas (“avisa pra ela que o dinheiro tá em cima da geladeira”, “manda ela pegar a enxada e ir capinar uma moita de cacetes”), quando associadas a uma namorada são tomadas de forma bem mais grave, assim como insinuações de promiscuidade ou de troca de fluidos entre ela e membros do grupo não são visto como humor e sim como ofensa pessoal.

Mas por quê? É o homem mais apegado a sua namorada do que a sua mãe? Não exatamente. A mãe, por ser algo instituído, duradouro e que acompanha o homem durante toda a sua vida, pode se tornar um objeto de piada pela simples certeza de que as piadas não possuem teor de verdade. Empiricamente qualquer um de nós sabe que não apenas sua genitora não atua no ramo do entretenimento adulto como não dorme com nossos amigos e consegue facilmente usar seus cintos, isso porque a conhecemos desde criança, sabemos que depois das 20:00 ela só fica vendo novela e nunca topamos com nenhum bumerangue em casa.

Já no caso da piada de namorada, ainda que a mesma lógica pudesse ser aplicada (sua namorada nunca se despiu profissionalmente, na maioria dos casos) o elemento de insegurança masculino vem à tona muito mais facilmente, já que um certo lado seu sempre vai desconfiar que pode ter algo que você não saiba acontecendo e alguém tá te passando a perna, além de existir na idéia da sua namorada com outro cara um componente de traição maior do que quando o mesmo conceito se refere a sua mãe, já que bem, no caso da sua mãe o problema é mais do seu pai e tal. Somando isso ao protecionismo mais exacerbado gerado pelo relacionamento romântico (que você não nutre pela sua mãe, se tudo der certo), fica claro porque certos comentários são muito mais ofensivos quando relacionados a sua namorada.

Ou seja: piada de mãe, zoeira bacana. Piada de namorada, zoeira vacilo. Na próxima semana discutiremos porque tapa na bunda é zoeira vacilo e tapa no pênis é não apena zoeira vacilo como bem gay também. Fora que dói.

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16 Comentários

Arquivado em é como as coisas são, Desocupações, homens trabalhando, referências, situações limite, teorias, Vida Pessoal

16 Respostas para “Da zoeira bacana e da zoeira vacilo – Ep #1

  1. Tenho um amigo que considera muita zoeira vacilo apertarem o peito dele. E olha que ele nem tem ginecomastia.

  2. JuninhO

    Eu nunca tinha escutado esse conceito de zoeira bacana e zoeira vacilo, mas é verdadeiro.
    Você colocou algumas palavras ae que não costumam estar presentes nos seus textos, andou lendo o dicionário, cada dia uma nova palavra?
    E quanto a esse conceito de zueira, isso varia de pessoa pra pessoa mas dormir com a mão do cara é um vacilo fudido mesmo. Sem zueira!

    • joão baldi jr.

      Pô, nem foi Juninho. É que meu plano é depois tentar transformar isso em um trabalho acadêmico, usar num mestrado e poder colocar no meu currículo: “Mestre em zoeira pela UFRJ”. Apenas imagine, apenas imagine.

  3. Lorran W.

    Eu tinha (ênfase no ‘tinha’) um colega que certa vez enquanto estava lavando a garagem de casa, ele fez um comentário do tipo “cara, sua namorada estava muito gostosa hoje eim, eu vi ela no colégio e…” Lembrando que eu estava com uma vassoura no momento do comentário.

    • joão baldi jr.

      Tem amigo que não tem limites na zoeira vacilo. Tipo quando você terminar com uma garota, recebe uma ligação do amigo, acha que é pra te dar um apoio mas é pra pedir o telefone da sua ex-namorada. Been there, done that.

  4. Texto impecável, aguardo a continuação como uma mãe aguarda o bumerangue com o cinto voltar.

    Não somente me identifiquei como estou imprimindo e distribuindo a todos que alegam ter comido alguma ex namorada minha (supondo que “ex namoradas” está incluso no tema “namoradas”).

    • joão baldi jr.

      Considero que se até o Fábio Jr. tem regras sobre mulher de amigo, todos nós deveríamos ter – http://diversao.terra.com.br/gente/noticias/0,,OI5214615-EI13419,00-Em+suruba+nao+pego+mulher+de+amigo+surpreende+Fabio+Jr.html

      (e o status de não-zoável que uma garota atinge quando namora um cara é eterno a não ser que ele declare o contrário, na visão dos juristas)

  5. Pengo

    hahahaha… Mto bom!! Ficamos na torcida agora para que Bruno leia o texto e pare com suas zoeiras vacilo. E claro, que fique um pouco menos agressivo quando está tomado pelo álcool…

  6. JuninhO

    Por que meu comentário não foi???

  7. ThiagoFC

    Tá, mas ainda não entendi por que da foto do Carlos Alberto de Nóbrega com o Toni Garrido…

    • joão baldi jr.

      Apenas porque a foto do Ary Toledo rindo no funeral do Costinha era muito pequena (sério, eu tinha achado no google imagens)

  8. Cara, que puta tratado bem escrito. Muito bom, definições perfeitas.

    E manda um abraço pra sua mãe. Fala que ela tá sumida.

  9. bom, meu namorado tem problemas com minhas minissaias, então deve ser +/- isso aí, né. e, considerando o teor do texto e dos comentários, duas participações femininas já devem ser suficientes.

  10. entendi. essa de zoar a mãe eu já sabia e já presenciei meus amigos falando algo como “dona fulana vai fazer uma sobremesa carnal…” seguido de muitas risadas. zoar namorada eu imaginava que era mais tenso, mesmo.

  11. HAHAHAHA fantástico. Texto impecável, de fato, como o Sr. Erik Gustavo mencionou anteriormente.

    BTW, genial a imagem do Carlos Alberto de Nobrega ilustrando o texto.

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