Delírios de jogar futebol

Acho que foi o filósofo Kevin Arnold quem disse que crescer é um pouco desistir de um monte de coisas que a gente poderia ser. No caminho pra maturidade nós deixamos de lado os sonhos sem sentido da primeira infância (“mãe, quer ser garçom”, “mãe, quero ser caminhoneiro”, “mãe, quero ganhar a vida comendo queijo”), as ambições desorientadas da adolescência (“não sei, cara, tô em dúvida entre astronomia, biologia, direito e o crime organizado, tá complicado me decidir”) e até mesmo os projetos bem-intencionados mas inviáveis do começo da vida adulta (“eu sinto que dá pra viver do que eu escrevo, sério, amor”), tudo isso até chegar naquele momento em que nós alinhamos, ao menos de uma forma rudimentar, o que nós queremos e o que nós podemos ser.

E um desses sonhos que vão ficando pelo caminho e que é comum a quase todos os caras que eu conheço é o do futebol. Pode ser uma questão de cultura, pode ser uma forma de pressão social, pode ser pelas possibilidades econômicas, pode ser porque aquele vídeo do Renato Gaúcho no dia dos namorados realmente impressionou a gente, mas a verdade é que pra grande parte dos homens jogar bola, ao menos durante a infância, foi ao mesmo tempo uma diversão e uma possibilidade de carreira, por menos habilidosos e ágeis, por mais descoordenados e desorientados que fôssemos. Não era um projeto claro, não era um ambição direta, mas era uma coisa que morava nas nossas mentes e que sempre vinha à tona quando conseguíamos acertar um chute de bicicleta, dar uma caneta desconcertante ou, no caso de alguns, apenas cobrar um lateral sem deslocar a clavícula: “quando eu crescer eu vou ser jogador de futebol”.

Por isso o meu choque quando, sentado na sala numa noite dessas, vendo um desses jogos sub alguma coisa que passam na televisão, nos quais descobrimos que garotos mexicanos de 16 ganham mais do que nós e adolescentes africanos de 13 já tem bigodes e filhos, me veio á mente a realidade de que eu nunca vou ser um jogador de futebol profissional. É, nunca. Simples assim.

Não que eu algum dia tenha efetivamente pensado no futebol como profissão ou seja um jogador frustrado, nada disso. Eu gosto de jornalismo e acho que, como atividade, foi a melhor escolha que eu poderia fazer, ao menos fora do universo DC, no qual arquitetos e designers recebem anéis energéticos e podem voar pelo espaço sideral. Mas a sensação de que existe uma possibilidade a menos, um recurso a menos, uma escolha a menos é sempre estranha e passa uma certa idéia de que…bem…o tempo está passando e cada dia mais a vida deixa de ser uma aventura cheia de possibilidades e reviravoltas pra entrar numa grande estrada onde as placas de retorno vão ficando mais e mais distantes entre si. Ou isso ou eu apenas estou realmente me deprimindo demais com esses torneios de futebol de base.

Mas a verdade é que no final é tudo feito de escolhas. As decisões que nós tomamos, os caminhos que nós escolhemos, as motivações que nos levaram a tentar a “coisa a” e não a “coisa b”, e a ser mais feliz com a “opção x” do que com a “escolha y”. Ok, eu realmente nunca vou ser jogador de futebol e todo meu contato com a bola vai se limitar a duas peladas por semana com caras que não são exatamente atletas (semana passada, por exemplo, um deles sofreu uma falta dentro da própria área e gritou “pênalti ao contrário”), mas acho que o que vale, no geral, são as opções que ficam e o fato delas serem melhores do que aquelas que você perdeu.

Fora que de uma certa forma, conforme essas antigas opções somem, outros projetos nascem, como comprar um barco, escrever um livro, ter seu próprio bar. Ou, é claro, ser abordado por um anão azul na saída de um pub e receber dele a arma mais poderosa do universo. É, eu sei, eu sou meio obcecado com isso, estou tentando melhorar.

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22 Comentários

Arquivado em é como as coisas são, crise de meia meia idade, Futebol, Vida Pessoal

22 Respostas para “Delírios de jogar futebol

  1. meu novo projeto: ter um time de futebol profissional (serio)

  2. Ana

    Estou indo ver o vído do Renato Gaucho no dia dos namorados, rs. Ótimo post! Pra meninas também.

  3. Ana

    Vídeo. A arte de escrever errado em poucos caracteres. Essa eu tenho!

  4. meu novo sonho: jogar no time do Seu Felipe.

  5. Thati

    Não querendo te desanimar, mas esse é um dos motivos que tornam o casamento relativamente sufocante: a impossibilidade de mudar de cidade em cidade trabalhando em “bicos” estúpidos mas que te sustentam o suficiente para não passar 10 horas num escritório usando gravata, enquanto você decide o que fazer da vida (ou algo assim). O ponto alarmante é quando você para de pensar em ser produtor musical, seguindo astros de rock nas turnês e faturando milhões e começa a ter inveja daquele seu tio que trabalha como representante comercial e é um coitado, mas pelo menos tem a chance de conhecer pessoas novas.

  6. Nathália

    Super Campeões o/

  7. ThiagoFC

    Parabéns por evitar citações àquela música do Skank (e, com ela, um baita dum clichê).

    • joão baldi jr.

      Pra mim existem duas grandes músicas com menções a futebol não-compostas por Jorge Ben e elas são essa e “chute pro gol de bico, lazarento”, de Cézar e Paulinho

  8. De quando em quando eu ainda me pego imaginando golaços monumentais que eu marcaria (tá um pouco tarde pra falar “marcarei”) em hipotéticas finais do Mundial entre Vasco e Barcelona. Sem brincadeira, desde o cruzamento até o corte no goleiro e, por fim, a comemoração enlouquecida…

    • joão baldi jr.

      Eu tinha um sonho recorrente (e isso é sério) no qual o Flamengo pegava o Real Madrid numa final de Mundial, eu era o camisa 5 do Flamengo e no último minuto (1×0 pra gente) o Robinho (jogando pelo Real) vinha com a bola dominada pra cima de mim, me dava uma pedalada e eu dava uma no meio dele. O juiz apenas olhava pro lado, não marcava nada, a pancadaria começava, a violência era generalizada, 5 eram expulsos de cada lado e o Flamengo era campeão. Sério, meus sonhos com futebol são todos assim.

  9. É triste perceber que não, você não tem grana pra fazer cinema no Brasil ou pra fazer gastronomia. E até eu já quis ser jogadora de futebol em algum momento da minha vida.

    • joão baldi jr.

      É, essa coisa de Brasil poda a gente também, admito. Quentin Tarantino, se morasse aqui, ainda seria balconista de locadora, daqueles que reclamam do que a gente aluga e escondem filmes.

  10. JuninhO

    Esse título me lembrou uma musica do Claudinho e Buchecha (eu acho) que tem essa frase.

    Essa parte do “eu nunca vou ser um jogador de futebol profissional” é a tristeza da minha vida. Eu prefiro continuar acreditando que vou ser descoberto por um olheiro na pelada do Sai da Maloca e ainda vou viver alguns bons momentos no nossa amado esporte.

    É, eu sei que é idiotice, sei que estou muito velho pra isso e talz, mas é ainda algo que me move. Ok, isso foi realmente estranho.

    • joão baldi jr.

      Mensagem positiva: você tem mais chances de ser descoberto do que o Charles Miller (aquele tio que jogava de touca e as vezes esquecia que aquilo era um jogo de futebol)

  11. se o time do Seu Felipe for mesmo real, tenho amigos que aceitariam uma proposta. btw, claudinho e buchecha eternos. o/

  12. A parte ruim de ser mulher é que você já nasce sem muita expectativa, tipo a minha geração não viu nenhuma Marta jogar bola e defender a seleção. Meu maximo de ousadia foi pensar em ser astronauta mas o caminho passava por ser aprovada no ITA e eu rapidamente exclui a opção.

    Ainda tenho fé João que a sua pelada ira revelar grandes craques, boas risadas e por favor videos para o bola murcha! hahaha

  13. Pingback: Delírios de jogar futebol ~ Just Wrapped | ZiiPe

  14. Rainer

    Infelizmente,fiquei mais concentrado nas partes que falam de “não-futebol” do que das partes que falam de futebol.Tá,eu já sonhei com futebol e tudo mais,eu fazendo gols para todo lado,sendo o atacante mais raçudo de todos que corria com cara de mal e dava um chute pro gol em que o goleiro desviava ao invés de segurar a bola com as mãos,tudo isso ao invés de sonhar com a fortuna,mulheres,fortuna,fama,mulheres,fama,mulheres,que isso traria.
    Mas acho que o potencial do assunto de que as oportunidades vão ficando pra trás me deixou mais intrigado,ou pelo menos,bem mais triste pensando que não vou poder ser mais boxeador,astrônomo,desenhista,super-heroi,cafetão,dono de uma empresa multi-nacional trilionária…

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