Problemas práticos do romantismo teórico – XXI

Uma coisa que eu ouço com bastante freqüência é que hoje em dia as pessoas terminam com muita facilidade. Ao que parece existe um consenso de que muita gente termina por qualquer motivo, que a galera não tem maturidade pra sobreviver aos solavancos de um relacionamento adulto e que grande parte de nós não passa de crianças mimadas que não conseguem aceitar a idéia de ser contrariadas e decidem que o melhor é cair fora. E ainda que eu realmente fique sempre impressionado com o ritmo frenético de início e término de relacionamento de várias pessoas e sempre me pergunte como alguém consegue, em apenas dois anos, ter três namoros, dois casamentos e quatro divórcios – ainda mais porque os números não batem, repare – eu sempre desconfiei que o “problema” não é que as pessoas sempre terminam por nada. É que elas algumas vezes começam por muito pouca coisa.

Claro que é óbvia a lógica entre começar mais e terminar mais, mas aprofundando o conceito você percebe que existe uma relação bem clara entre o nível de disposição e a forma como as pessoas começam um relacionamento e o fato de que esse mesmo relacionamento terminou por razões graves e realmente críticas como discordar quanto ao Pokémon favorito, não gostar do mesmo tipo de queijo ou um deles ter errado o começo da quarta estrofe de faroeste caboclo na noite de videokê na casa dos pais do outro (“ele queria sair pra ver o mar, ele queria sair pra ver o mar, todo mundo sabe!”)

Primeiro porque dá pra notar em várias pessoas um certo automatismo com relacionamentos e uma tendência a entrar neles mais por inércia e rotina do que por iniciativa própria. As pessoas saem, as pessoas ficam, as pessoas continuam ficando e num dado momento, quando elas menos percebem, estão namorando, o que torna compreensível que elas terminem logo no primeiro solavanco. Não que eu esteja exagerando no romantismo ou que eu tenha uma camisa escrito “quem ama espera” no armário, mas eu sinceramente acho que um relacionamento estável deveria começar baseado mais em tags como “paixão”, “atração incontrolável” e “vontade louca de ficar juntos” do que “ah, ela é bonitinha” ou “pô, ele já tava ali do lado”. Não sei, mas desconfio que o conceito de “só tem pepsi, pode ser?” pode até funcionar como propaganda, mas não é uma grande idéia em termos de vida pessoal.

Em segundo lugar as pessoas se sentem meio “obrigadas” a se relacionar. Como ex-solteiro eu posso relatar, em termos de experiência pessoal, que existe uma grande pressão pra que você transforme uma ficada em relacionamento, quase sempre mais por parte da sociedade do que da garota. “Ah, e quando vão namorar?”, “peraí, mas dois meses só ficando?”, “quando você vai parar de enrolar essa menina?” são frases ditas como se um relacionamento fosse uma progressão cronológica/sistemática com um fim óbvio e não um processo com regras próprias e quase sempre tão lógico quanto um episódio de “Padrinhos Mágicos” visto de trás pra frente com legendas em albanês.

E em terceiro lugar, bem…algumas pessoas são apenas carentes. Então quando não agüentam mais a barra de estar sozinho decidem que o melhor é achar alguém pra ficar, uma motivação que definitivamente tende a não levar as coisas muito longe – “eu te amo, sabia?” – “ah, e eu estou com você porque tenho medo de virar uma mulher idosa morando sozinha numa casa cheia de gatos. ah, e porque você é bacana, claro”. Então quando acontece algum problema elas realmente não tem nenhuma motivação pra continuar e preferem procurar outra pessoa que as mantenha afastadas do eterno pesadelo do saco de 50kg de whiskas.

Ou seja, não, não falo que o mínimo pra começar um namoro seja um vendaval de paixão, um temporal de sentimento, um tsunami de luxúria, um remake de “Mar em Fúria”, só que trocando o mar por amor, o George Clooney por você, a Diane Lane pela sua namorada e o Mark Wahlberg por aquele seu amigo que insiste em sair com vocês o tempo todo. Não precisa tanto. Mas se começar assim são bem menores as chances de que ela te largue porque você deixou queimar o omelete ou que você decida ir embora porque ela te interrompe quando você joga videogame.

A não ser, claro, que ela tenha te interrompido numa fase muito complicada ou quando tem um chefão na tela. Aí realmente é foda, nem falo nada.

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37 Comentários

Arquivado em Crônicas, romantismo desperdiçado, situações limite, teorias, Vida Pessoal

37 Respostas para “Problemas práticos do romantismo teórico – XXI

  1. Ormando Neto

    Genial, João!

  2. muito interessante, e bem escrito seu texto. congratslation

  3. Naiara Costa

    Faroeste Caboclo no Karaoke, putz. Consegui visualizar o fim do mundo mais doloroso possível.

  4. Naiara Costa

    Mas então, eu concordo com tudo que você escreveu, João.E eu acho muito triste por que muitas vezes isso acontece só pra uma das pessoas, o que implica que as vezes alguém ta lá todo envolvido na relação e a outra pessoa só ta fazendo aquilo por que é bem conveniente pra ela. Quer dizer, eu já reparei isso muitas vezes com amigos e até consegui prever finais desastrosos de relacionamentos, o que implica que talvez eu devesse trabalhar como consultoria amorosa, Hitch versão feminina ou algo do tipo…
    O texto ficou muito bom, vou mandar pra algumas pessoas que devemriam ler, hahaha.

    • Naiara Costa

      E eu escrevi muita coisa errada. Juro que não estou bêbada a esta hora da manhã…

    • joão baldi jr.

      Lembrando sempre que pra você ser uma Hitch feminina você vai precisar ensinar suas amigas a dançar daquele jeito bacana do filme (eu realmente gosto muito dessa cena, o que fazer?)

  5. Cris Pereira

    acho que esse foi o melhor texto que já li aqui… sério, parabéns!

  6. tenho uma amiga que troca de namorado na maior. aí eu pergunto: “e o fulano?” “ah, terminei faz muito tempo com ele!!” “sim, mas quanto tempo?” “ah, umas duas semanas, já…” “ué, mas vc tá bem?” “eu tô, ué. vou ficar chorando por causa disso? eu não. namorado é passageiro.”

    ela nem é tão minha amiga assim, na verdade. a gente não combina muito, não sei por quê.

  7. Thati

    Eu gosto de Padrinhos Mágicos…

    • joão baldi jr.

      Enfatizo que a minha menção a Wanda e Cosmo não foi, de forma alguma, pejorativa. Dos desenhos exibidos atualmente “Padrinhos Mágicos” é um dos meus favoritos e qualquer programa que coloque Adam West para dublar uma versão desenhada dele mesmo merece veneração.

  8. Ronaldinho (não o do Flamengo)

    Nobre diplomata, suas palavras são como sempre uma ode ao lirirsmo e ao niilismo tão pungentes em sua veia narrativa e a sociedade pós-moderna. Congratulo-o, entusiasmadamente! Agora, e esse lance de ex-solteiro? hehehehehe

    • joão baldi jr.

      É, amigo, finalmente aconteceu o inevitável: tava entrando num bar, uma garota tinha perdido uma aposta e tamos aí numa relação estável.

  9. Putz, interromper no videogame é digno de uma DR. Ainda mais quando, num momento “old-school”, você resolve jogar Mortal Kombat II e é interrompido quase matando o Shao Khan com o Baraka, no último continue. Malditos jogos de luta que não pausavam…

    • joão baldi jr.

      Jogos sem pausa definiram muito do caráter da nossa geração. Esses jovens de hoje são assim por excesso de pause e save game, é minha teoria

  10. É ISSO QUE SEMPRE DIGO!
    Hoje os relacionamentos começam pura e simplesmente porque as pessoas fazem o mesmo caminho para o trabalho ou frequentam a mesma padaria!

    • joão baldi jr.

      Eu noto em conhecidos e amigos uma tendência tão grande em termos de preguiça pra procurar um novo parceiro (ou entrar em relacionamentos de conveniência) que daqui a pouco algum bróder vai começar a namorar a própria mãe justificando que “ela já tava lá em casa, me acha bonito e ainda cozinha bem”.

  11. Isso me lembra claro aquele episódio de HIMYM em que o Ted quase volta com a namorada porque não consegue abrir um vidro ou coisa do tipo. E me lembra também que o cabelo esquisito de um cara já pesou na minha decisão de terminar com ele, mas não me entenda mal, o cabelo ficava num formato de cogumelo.

    • joão baldi jr.

      E agora, oficialmente, eu sempre vou imaginar que você é a ex-namorada do Toad.

      • Mas olha o Toad é tranquilo, complicado mesmo é quando seu primeiro namorado era assumidamente emo e pintava a unha de vez em quando, claro que depois disso eu vi que esse lance de namorar só porque pediram não dá muito certo.

  12. bom, tenho um amigo que quando eu perguntava se estava namorando, ele sempre respondia: “ah, num to fazendo nada”. acho que isso resume bem. isso e o seu texto, claro. [ex-solteiro! agora os títulos passam a ser problemas teóricos do romantismo prático? tá, essa foi terrível]

    • joão baldi jr.

      [olha, não vou negar que eu cogitei esse tipo de alteração, com esse título mesmo, então não se sinta mal, sério]

  13. Lorran

    Estávamos saindo eu, um amigo e duas meninas que eram amigas. Formamos o casal (dos convencionais, homem x mulher). Durante duas semanas ficando com essa garota esse meu amigo disse estar apaixonado. Passado uma semana ele muda o status do facebook pra namorando. Ansioso eu perguntei “cara, como você começou a namorar assim tão rápido com ela”. E ele disse que não era aquela garota, ela não queria namorar. Nisso conheceu uma outra menina e engatou no relaciona… fico grilado só de lembrar, deixa isso pra lá.

    • joão baldi jr.

      Episódio semelhante aconteceu com um amigo meu que saiu três vezes com uma garota, ela mudou o status pra “num relacionamento complicado” e ele ficou sem graça de telefonar pra ela perguntando se era com ele. Mas não, não era.

  14. Marina

    Eu passei 1 mês ficando com um cara e nada dele querer namorar… depois de 2 semanas que a gente “terminou”, ele ficou 3 vezes com uma menina e hoje já namora com ela há mais de 2 anos!

    • joão baldi jr.

      Bem, isso eu não posso exatamente criticar porque já fiz coisas parecidas…fora que, vamos lá, 1 mês é pouco tempo pra querer namorar, Marina, tem que pegar leve com esses jovens de hoje…

  15. pois é, então.
    todo mundo tem que namorar. ai de você se não namorar. MEU DEUS, QUE HORROR.
    as pessoas também insistem em ter relacionamentos sabe pra que? pra mostrar. e olha que hoje, com o nosso amigo tuínter e o instagram, isso fica muito fácil. tem muita gente que adora adicionar uma arrobinha ali do lado pra não parecer tão solitário.
    dai, na hora do término, é também mais fácil: é só trocar.

    • joão baldi jr.

      E acho que efetivamente chegamos no fundo do poço quando vemos pessoas namorando apenas pra poder falar disso no twitter e mostrar no instagram. É pior do que namorar só porque nos restaurantes do bairro eles não servem prato individual.

  16. Não conhecia, fiquei fã.
    Seus textos ajudaram muito no meu trabalho: as horas passaram bem mais rápido.

  17. Douglas Enry

    Muito bom!
    Eu fico impressionado quando conto a quantidade de homens e mulheres que pensam apenas em não desenvolver “carência”. As mulheres convivem com o eterno medo de ficarem sozinhas e os homens, ainda mais medrosos tremem com a possibilidade de ficar muito tempo sem dar um beijo na boca na saída com a galera e ganhar o posto de “Zero a Zero da turma”.
    Gosto de classificar e já coloco que: os bem resolvidos se curam por boa lábia ou por uns trocados sem ressentimento. As bem resolvidas se curam com 01 “telefonema amigo” ou com chocolate e compras. No final, sobram os medrosos que cedem por muito pouco e, certamente, por receio não arriscam, não jogam e nunca tornam suas vidas mais interessantes. Felizmente a vida é de quem sabe jogar na regra sem medo de perder e reiniciar outras partidas do mesmo jogo. O mundo é enorme e dá pra jogar muito. E quem disse que repetir não vale? Claro que vale. E algumas amizades, sem hipocrisia, não precisam se limitar a 2 beijinhos no rosto. A via é de mão dupla e no contexto, são 2 carentes bem resolvidos.

    Que minha namorada nunca leia isso. rsrsrsrs

  18. HAHA
    Excelente o parágrafo sobre a pressão que a sociedade faz pra você namorar. Não podia estar mais correto.

  19. Miguel

    É bom saber que existem pessoas que conseguem escrever sobre que passamos, e de uma forma tão clara que você se vê dentro do contexto. Parabéns, continue assim.

  20. Bia

    olha conheci um cara em agosto do ano passado, nos saimos varias vezes ficamos ate janeiro deste ano, mas nada de oficializar como namoro …so ficamos..
    em fevereiro brigamos, nunca mais conversamos, em junho no dia do aniversario dele mandei uma msg parabelizando, a partir dai voltamos a conversar, começamos a saire tals…e começamos a namorar, mas de verdade desta vez, no começo era um mar de rosas, dizia que me amava, que queria se casar comigo, queria ter filhos comigos…pois eh, faz uma semana que terminamos, ele diz que tem medo de se entregar de novo, e pra naum fazer mal a mim ele decidiu terminar…como ele sofreu no passado, esse “trauma” o impede de se entregar novamente. eu disse a ele que tem q superar isso se naum vai ficar sozinho pro resto da vida..nunca vai conseguir ser feliz.

  21. vivian

    Genial.
    Não somente porque eu sempre pensei da mesma maneira ˆˆ
    Mas também pois esse é o tipo de obviedade que a maior parte das pessoas sente um prazer infantil em ignorar.
    E quando em alguma conversa você solta algo sobre a vida ser assim mesmo, você não o ama está na cara que é só carência, você sente como se realmente estivesse tirando o doce da criança.
    Obviedades são para poucos.

    Beijos!

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