Novas aventuras em lo-fi #7

Como eu já mencionei em oportunidades anteriores (mas negarei sem problemas se algum dia minha vida depender disso) eu realmente não me dou bem com hip-hop, tenho certas restrições ao r&b e sou um pouco implicante com rap, provavelmente por ser gago e ficar deprimido quando penso que algumas pessoas falam 30 palavras por minuto enquanto eu teria que mandar um sms pros bombeiros se meu apartamento pegasse fogo. Ainda assim, eu nunca me cansei de admitir que os clipes desses gêneros estão quase sempre entre os melhores já feitos pela humanidade em termos de conceito, roteiro, execução, atuação, figurino e tudo mais. E mesmo diante da competição pesada que existe numa vertente que já nos ofereceu desde “Because i got high” até a já citada aqui “Sexy Bitch”, um clipe que entrou facilmente na minha lista de favoritos foi o da já clássica Buzzin’ do querido e simpático Shwayze.

Não que eu ache que você realmente conhece o Shwayze – ou que ele seja querido por mim. ou seja realmente simpático, sei lá – mas Buzzin’ é o tipo de clipe que quando assistido ganha rapidamente a tag “clássico” por duas razões chave: a) seu respeito quase fanático por todos os cânones do hip-hop coxinha; b) sua letra, que possivelmente representa o mais longe que a leskzueragem já foi em terras americanas desde aquela tarde em que Lincoln e Franklin saíram, bermuda caindo e boné pra trás pra jogar counter strike numa lan em Washington e tentar pagar no cartão da mãe.

Primeiro o checklist básico. Temos o rapper negro, temos o amigo branco, temos as referências a si mesmo na terceira pessoa, temos os dançarinos de break, temos a alegria contagiante da galera, temos a festa na piscina com aquela densidade demográfica do Paraguai pós-guerra (15 mulheres pra cada homem) e cuja população é composta apenas por garotas lindas e cantores de hip-hop – mais ou menos como se o mundo fosse acabar e só desse pra salvar dois escritórios da Ford Models e a casa do Snoop Dogg. Mas isso, ainda que crie o ambiente e deixe claro as premissas da nossa jornada, ainda não é o principal. O principal, o que realmente torna “Buzzin” um sucesso imediato em nossos corações é, claro, a letra.

Narrando em tom autobiográfico a história de um rapaz que é assediado por uma garota durante uma festa [denúncia] , a canção nos oferece algumas das mais belas frases de efeito malandronas da história da música contemporânea, mais ou menos como se Shwayze tivesse, por alguns momentos, incorporado a presença de Alexandre Pires e tentado levar o hip-hop para um nível de sedução que ele não tinha conseguido alcançar desde que Shaggy, gravou “It wasn’t me” com aquele carinha de voz fina. Declarações contudentes como “tenho que conhecer o mundo uma garota de cada vez”, “eu tenho uma garota em cada cidade daqui até o Peru” ou até mesmo a simpática “eu vou de cidade em cidade caçando vadias”, dão pra nós a exata noção do quanto Lulu Santos e as aulas de literatura estavam erradas e o romantismo claramente não morreu, ainda mais quando Shwayze chega ao extremo de dizer “two days on the road and you’re still on my mind”, já que afinal, se depois de dois dias você ainda lembra da garota é porque o sentimento é real, o amor é verdadeiro e dá pra começar a pesquisar as cores certas pras daminhas de honra.

Mas mais do que todo o contexto e execução mágicos de diversos momentos da letra – “i saw my name on your left boob, now go get that tattoed” – o que realmente torna Buzzin’ uma canção sem paralelos em nossa era e possivelmente um dos meus raps favoritos em todos os tempos é apenas uma frase, dita lá pelo final da música, na qual ele manda “She said, ‘boy you crazy. ‘nah, i’m shwayze” e o fato de que eu aguardo sinceramente que numa versão em português, possivelmente gravada pelo Latino, isso se transforme em algo como “garoto, você é maluco. nem, meu nome é Nabuco”. Realmente os bons ainda são a maioria, Coca-Cola.

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6 Comentários

Arquivado em Desocupações, Músicas e derivados, Music Review

6 Respostas para “Novas aventuras em lo-fi #7

  1. Eu vou cruzar meus dedos pra que o Latino não esteja fazendo buscas na internet nesse momento. E no mais, poxa finalmente. Estava ficando preocupada que você começasse a ficar tão frequente quanto eu no meu blog. (E agora que trabalho no regime CLT admiro muito que vc tenha conseguido manter a constância todo esse tempo, sério mesmo.)

  2. já tinha dado saudade e toda vez que eu via atualização na tag em que seu blog está no meu reader, eu abria só pra ver se tinha post novo no JW. sabia que o Latino queria virar cantor gospel sem se tornar cristão? pois é… de qlq forma, acho que ele já contribuiu o suficiente com o acervo de inutilidades sonoras do mundo, sério.

    • joão baldi jr.

      Olha, eu já galera pagar de gangsta pra cantar hip-hop mas se o Latino pagar de cristão pra cantar muica gospel ele realmente vai superar qualquer nível de oportunismo já visto na música mundial. Mas bem, é um cara que regrava música pop romena, o que dizer?

  3. joão baldi jr.

    Sim, estamos de volta. É meio complicado manter uma carreira literária, uma vida pessoal, um emprego, os seriados, os filmes, os quadrinhos e o futebol duas vezes por semana, mas como fui informado que não dá pra abrir mão do emprego (minha primeira e segunda opção na hora de descartar algo), tô aí buscando o caminho da conciliação e abandonei todos os títulos dos x-men e do hulk em busca de uma vida melhor.

    • Cara, eu realmente gostava dos x-men, comprei quase tudo da abril, mas a fase publicada pela panini (com exceção das histórios de grant morrison e de joss whedon) são lixo. Vendi as que tinha e me recuso a comprar edições mensais deles agora.

      Atualmente, colecionando apenas títulos vertigo, a revista que publicar demolidor e grandes clássicos encadernados.

  4. RI ALTO o post inteiro!!! Saudades dos seus textos meu filho!
    PS: Nem pense em usar trechos dessa música durante seu discurso no casório, hein?!?! Sei lá… Avisar mão custa nada! ;-)
    Bjs!

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