Mini-conto #7: “Era primavera, numa noite de lua cheia, e você vestia azul”

woody

Começou como uma brincadeira. Estavam na festa de aniversário dos avós dela e depois da sétima ou oitava vez que perguntaram como tinham se conhecido ele viu que não queria mais contar a história de como tinha atropelado o pug dela no parque. E pro primo dela disse que tinham se conhecido num show, ela estava caindo da grade, ia ser pisoteada pela multidão insana, e ele esticou a mão pra ajudar. Pra uma tia falou que tinham se encontrado na saída de uma livraria, ele carregava uns livros, ela segurou a porta, tomaram um café. Pra avó falou que era um segredo, nem a Lu sabia, mas eles tinham estudado no mesmo colégio, ele duas turmas acima, e sempre tinha sido apaixonado por ela, mas só agora tinha se declarado. Pra empregada falou que tinha sido pela internet, pro cara do churrasco disse que tinha sido uma amiga em comum. Pro tio Rubem falou que ela tinha ganho ele da ex-namorada, numa partida de pôquer, mas ele não se sentia objetificado porque era um homem moderno.

Achou que fosse ter algum problema quando ela topou com ele explicando pra priminha dela que tinham se conhecido quando ele trabalhava como mercenário junto com um homem-urso e foi contratado pra levar um velho e um moleque pra um lugar chamado Alderaan, mas ela simplesmente não conseguiu ficar nervosa, ainda mais quando ele tentou ensinar a garotinha a imitar o R2-D2.

Com o tempo ela entrou na brincadeira e em menos de dois anos eles já tinham se conhecido em bares, viagens, batizados, circuncisões, filas de banco, acidentes de trânsito e boates de strip-tease (numa delas ele se apresentava com o nome de Billy Blanco). Dependendo do quão desconhecida fosse a pessoa ou o quão longe de casa eles estivessem, ela acabava se tornando até mais ousada do que ele, como nas férias no Nordeste em que ele era um guarda-costas robô enviado do futuro, o final de semana na casa dos tios dela em que ela era na verdade um clone da verdadeira Luciana, que estava em poder do projeto Cadmus e até mesmo naquela viagem de natal, quando ela descobriu que alguns policiais não acharam realmente engraçada a idéia de que eles não se conheciam e ele na verdade era um terrorista que tinha seqüestrado os pais dela.

E virou a brincadeira interna deles, a mais interna de todas. Mais do que o fato de que ele não sabia piscar, mais do que ela comer primeiro o recheio do biscoito, mais do que a vez em que eles entraram na festa de casamento errada, além de ser um passatempo para aquelas tardes vazias de sábado, em que um completava a frase do outro, deixando a origem do namoro mais e mais complicada – “a gente se conheceu em…” – “Varsóvia,1989”– “era primavera, numa noite de lua cheia, e você vestia azul” – “89…então era uma fralda azul, certo?”.

Então quando o porteiro do prédio dela perguntou como eles se conheceram a primeira idéia dele foi inventar uma história. Falar que ele tinha um bar na África e ela tinha ajudado na resistência durante uma guerra, contar que ela era uma agente secreta de Israel, mencionar que tinham se conhecido numa escola pra superdotados comandada por um careca numa cadeira de rodas. Mas depois da briga, depois do que ela tinha dito, do que eles tinham gritado, dela ter falado que daquela vez era pra nunca mais, talvez a brincadeira tivesse perdido a graça.

“Então, seu alberto, eu tava no parque e atropelei o pug dela. o maurício, aquele pretinho que ela tinha, sabe?” – “ahh…o que latia engraçado, sei, sei…e foi só isso?”

Mas antes que ele conseguisse responder o “é…só isso…” que estava se preparando pra dizer, uma voz atrás dele completou a história. “Não, claro que não foi só isso. na verdade ele matou o mau-mau, sabe? mas depois a gente subiu com ele até aqui e usando os fios da torradeira e um pedaço do ferro de passar fizemos um desfibrilador e trouxemos ele de volta do mundo dos mortos. daí ele latir fino e tudo mais. foi o choque de chegar no céu dos pugs, sabe? muda um cãozinho”.

Ela estava ainda de short e camiseta, parada na escada, abrindo um sorriso mas ainda esfregando os olhos pelo que tinha chorado antes. Esticou a mão de um jeito meio tímido e ele se levantou na direção dela. Sorriu e perguntou, fazendo a cara mais séria que conseguia “eu devo ir com você se eu quiser viver?” e ela deu um soco no ombro dele seguido de um “porra, adolfo, não força o momento, sério”. Ele sorriu e subiu, apertando firme a mão dela enquanto iam pela escada. Talvez as coisas não fossem tão ruins. Aquilo não ia ter acabado enquanto eles ainda quisessem se conhecer de novo.

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23 Comentários

Arquivado em contos, Ficção, romantismo desperdiçado

23 Respostas para “Mini-conto #7: “Era primavera, numa noite de lua cheia, e você vestia azul”

  1. Eu vou soar meio brega e tal, mas não consigo evitar comentário de que essa é daquelas histórias que funcionam como uma bebida quente que te esquenta por dentro (favor ninguém botar duplo sentido nisso). Ainda que tenha me deixado meio melancólica, sei lá por quê.

    • Naiara Costa

      Concordo com o lance da melancolia… acho que foi por isso que gostei tanto da historia.

      • joão baldi jr.

        Naiara e Marília, obrigado mesmo (ainda que eu sinceramente espere não ter começado a deprimir as pessoas logo quando tô tentando pegar o conceito de escrever histórias com finais felizes)

        • cara, é que final feliz é uma coisa complicada. Todo mundo quer, quase ninguém tem. Aí, quando vemos na ficção, acabamos tristes por não ser com a gente, entende? Se bem que textos tristes também nos deixam tristes e não é por querer que tivesse acontecido algo assim com a gente… Ou seja, meu comentário tá meio sem rumo

          • Mas acho que você captou bem o espírito da coisa João Octávio. E João (meu deus quanto João!) realmente foi uma surpresa o final, eu esperava alguma reviravolta maluca meio Seinfeld meio Woody Allen, como é de costume.

  2. Naiara Costa

    Lindo texto João… serio mesmo, que bom que vc voltou a atualizar o blog :)

  3. Renata A.

    Fiquei na dúvida se me despertou melancolia ou uma nostalgia por algo que não vivi…
    Se bem que parando pra pensar, acho que toda nostalgia é meio melancólica.

  4. João, se algum dia você, por acaso, ou por acidente, trocar de sexo, meu telefone é…

  5. Henrique

    Cara, li o texto todo com um meio sorriso no canto da boca (na verdade é 1/4 de sorriso) sabendo o que esperar do final e você manda uma dessas. De qualquer forma, muito bom, interessantíssimo. Daria um filme bom se o porteiro fosse o Danny Devito.

    E porra, o comentário do Ormando foi constrangedor. Ousado, mas constrangedor.

  6. Tales

    Também fiquei melancólico, mas acho é porque o final, apesar de feliz, é incerto. É apenas mais uma tentativa, um novo recomeço, vai saber o acontecerá? Tipo dá um certo aperto por lembrar que é assim que são todos os relacionamentos: Incertos.

    Ou eu que ando melancólico demais. Vai saber…

  7. Rosana Alves

    O Gran Finale foram os comentários…

  8. ana tereza

    João que lindo! e final feliz! Muito bom! Agora a sua escolhe de nomes ainda me intriga… pug com nome de mauricio!? hahaha
    Não deixa de atualizar, por favor! Bjo

  9. Achei bom o texto, e nada melancólico.

    Texto leve, com final feliz… Acho que a estranheza do seu público fiel é pela unusualidade desse tipo de texto por aqui. Mas dizem que não há nada com que as pessoas não se acostumem (Embora o Dado Dolabela vá dizer que tu traiu o movimento, véio).

  10. Poooorra, tá romântico, hein, lek?
    Mas ficou maneiro o texto. :)

  11. O melhor desse conto é o fim, porque fica uma coisa no ar, tipo ninguém sabe o que vai acontecer. É bem interessante a questão de que cada casal tem um “segredo super secreto” e o deles era uma loucura sem limites. Gostei muito.

    P.S: é impressão minha ou esse texto desperta um lado “meio Emo” das pessoas?!?!

  12. JuninhO

    “Hoje o amor está no ar! Vai conquistar seu coração!”

    Mas o texto foi muito bom cara e nos faz lembrar de algum momento que parecia que tinha acabado e voltou assim mesmo, como nesse final…

  13. vocês do mundo blog escrevem bem e fácil.
    dá até vontade de escrever também

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