Problemas práticos do romantismo teórico – XXII

Eu nunca gostei muito de conviver com ex-namorados de atuais namoradas. Não, não que eu seja do tipo ciumento que nem gosta de ouvir uma garota falar de um ex ou se sente inseguro e passivo-agressivo sempre que assuntos do passado vem à tona – eu posso falar dos meus tempos de colégio militar durante horas mas isso não quer dizer que eu vá sair correndo pra comprar uma boina, por exemplo – e também não é o caso de eu ter qualquer problema com a idéia de uma namorada conviver ou ter uma amizade com um ex-namorado, desde que termos como “colorida”, “recaída”, “eu tinha bebido” ou “com esse cabelo novo ele tava parecendo você” não apareçam subitamente na discussão. Been there, done that, sei que não é bacana.

Na verdade o grande problema com os ex-namorados da sua namorada, e que gira num campo totalmente conceitual e quase nada pessoal, é o de que eles te lembram de um fato desagradável, nada animador e no qual você definitivamente não quer pensar quando está com alguém: o de que você provavelmente também vai ser um ex-namorado, mais cedo ou mais tarde.

Vamos começar pelo conceito de romance ocidental como nós o conhecemos e como os filmes nos fazem pensar que ele acontece, por mais que tias solteiras, amigos galinhas e boates de swing queiram nos fazer pensar diferente:  duas pessoas se encontram de forma quase sempre randômica e , por razões que apenas o destino pode precisar, desenvolvem algo entre elas que as motiva a ficar juntas, a ter um envolvimento emocional, a criar o que a gente chama de relacionamento.

Ou seja, o romance é, acima de tudo, baseado na idéia do “especial”. O conceito de que você, “garota a” é diferente da “garota b”, da “garota c”, da “garota d”, e que é em você (e não também na “garota e”, ou na “garota f”, que é até bem gostosinha) que eu consigo achar o que eu procuro, que posso ter acesso aos níveis de felicidade que eu acho que preciso, aos atributos que eu acho que me agradam. Ou, sendo mais poético, só em você, “garota a” que eu posso ter achado as tardes que sempre me passaram como miragens como ilusão (e sim, eu sei que eu citei Samuel Rosa, mas foi pra enfatizar o argumento. só isso. sério.continuem lendo)

Da mesma forma toda tentativa de romance é única em si e busca a não-repetição, porque todo relacionamento tem a ambição de ser “aquele relacionamento que vai dispensar os outros relacionamentos”. Você não começa um namoro esperando terminar, você não se casa pensando em separar. Quando você segura na mão daquela garota e diz que quer ficar com ela você está, ainda que implicitamente – porque você não sabe disso e também porque se você disser isso explicitamente os dois vão ficar assustados e nunca mais se falar – admitindo que espera que as coisas possivelmente dêem tão certo que nenhum de vocês vai necessariamente precisar tentar isso de novo. Ou seja, todo o conceito de romance é baseado no fato de que você é único, ela é única e isso que vocês tem é único. Especial, como eu disse.

Daí provavelmente a cisma que as pessoas tem com ex. Não tanto pelo ciúme, não tanto pela idéia de que ali tá uma pessoa que já transou com o seu amado/amada em posições que sua coluna não te deixa tentar, não tanto por ter medo de comparações, mas porque cada ex te lembra que o que é especial em algum momento deixou de ser, que o que é único já aconteceu antes. O ex, a idéia do passado, desafia a crença romântica de que o amor é específico em absoluto e lembra que ele acontece, que ele é parte da vida. O ex é uma espécie de fim ambulante quando você ainda está empolgado com começos e sonhando com meios. Uma certeza de que o positivismo está errado, o tempo é cíclico e começos e fins acontecem o tempo todo. Ou seja, é um lance meio foda.

Porque ainda que racionalmente a gente saiba que relacionamentos são especiais por si só, que todas as pessoas tem um passado e que quem constrói a história de cada relacionamento somos nós, de vez em quando, olhando para aquele cara altão de camisa pólo, possivelmente mais bonito do que você e que saía com a sua namorada, um lado seu, um lado bobo, um lado infantil, um lado  provavelmente inseguro ainda imagina que está ouvindo ele dizer algo do tipo  “ei cara, eu sou você amanhã”.

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30 Comentários

Arquivado em romantismo desperdiçado, situações limite, teorias

30 Respostas para “Problemas práticos do romantismo teórico – XXII

  1. Naiara Costa

    Isso me lembrou o Louis C K falando que relacionamentos sempre terminam mal e te fazem mal. Quer dizer, mesmo que vc encontre alguem perfeito, que te ame, não te traia, te entenda, case com vc e envelheça junto, no fim um dos dois vai morrer antes e o outro vai ficar sozinho deprimido e vai ser uma merda.

    • Pode ser que ambos morram juntos, tipo acidente de avião. Ou hecatombe nuclear. Tá continua meio triste e bastante mórbido, mas é uma possibilidade.

  2. Naiara Costa

    Mas enfim… o importante é continuar sonhando.

  3. Malditos filmes americanos, que fazem essa ideia de romance ocidental baseada no especial ficar intrínseca nos corações e mentes da juventude… Como você sabiamente resumiu: é um lance meio foda.
    Isso pode causar um estrago psicológico tremendo, principalmente quando a gente pensa que a vida pode ser maravilhosa e se depara com um comentário tipo o (primeiro) da Naiara Costa. Ou seja: é um lance meio foda.

    • Naiara Costa

      Puxa, eu nem quis destruir as ilusões de ninguem, hehehe. A vida ainda pode ser maravilhosa, por mais que os finais de relacionamentos sejam sempre uma merda traumatizante. É como em Brilho de uma mente sem lembranças… terminar pode ser horrivel, mas muito pior é não ter vivido e não ter lembranças felizes com alguem quefoi especial.

      É mesmo um lance meio foda.

  4. [E o Howard só conheceu um ex da Bernadeth. Pior é o Leonard, que já apanhou de ex da Penny, e depois que eles terminaram ainda teve que dar “dicas” ao Stuart, e descobrir que a Penny dormiu com o Raj. Porra, o Raj ?!?!?!]

  5. GENIAL cara, teu blog é muito bom!

    PS: Já pensou em incrementar comentários direto com a conta do facebook? Tenta aí, o nome do ‘plugin’ é ‘disqus’.

    • joão baldi jr.

      Cara, aqui eu uso um template padrão do conglomerado interbarney, então novas facilidades só surgem quando desenvolvidas pelo nosso garboso time da ti, mas sendo eles à frente de seu tempo como sempre foram esse tipo de sistemática não deve tardar a ser implementada. Aguardem

  6. Você já tentou sr psicólogo?!?! Se não, que desperdício!!!
    Todo mundo já tentou definir o tal do amor e essa história de relacionamento a seu modo, mas o seu parece o mais sensato: ESPECIAL. O relacionamento é a única história que ninguém quer saber o fim..Explicou muito bem isso a minha prima (adoptei já!!!) Naiara Costa.

    • joão baldi jr.

      Obrigado, mas o campo da psicologia não é pra mim (exemplo: quando garotinho eu ia numa psicóloga infantil e depois de abandonar meu caso ela virou vendedora numa loja de móveis. true story)

  7. Rosana Alves

    Vc tá com medo do ex da sua atual?

  8. Rainer

    Pensar nisso tudo,só estando sozinho mermo,pq falar/conversar isso com a namorada é praticamente um convite pra ela sair correndo de repente sem avisar nada e aparecer duas semanas depois com um cara novo,que,aliás,não pensa nessas coisas.E surfa.

  9. Concordo com tudo.

    Mas ainda prefiro conhecer direitinho todas as ex – paracficar de olho em quem pode me dar trabalho no futuro! (deve ser uma coisa neuroticamente feminina, não?)

  10. Miguel Castro

    Até envelhecer tem muito tempo pra passar com a pessoa que ama. Tudo na vida é mutável, e tenho quase certeza que depois dos 60 a gente se acostuma plenamente com isso (obviamente que não deixa de ser difícil, mas digamos que seja um pouco mais aceitável). O melhor a fazer é aproveitar cada minuto com aquele(a) que ama, isso vai fazer toda a diferença.

  11. putz, é que é tão simples e fácil que perde a graça: é a coisa do ex bom, é ex morto. não tem papo. ex gente boa? dá medo. ex psicopata? dá medo. ex que não se fala? dá medo. ex que se fala de mais? …
    ex é aquela coisa: fica apitando um aviso de “warning: você não pode ser igual”, mas, ao mesmo tempo, você quer ter sempre algo parecido pra apresentar. dai não dá, não.

  12. vivian

    Não aparecia no blog há tempão!
    (E me deparo com essa excelente descrição dos relacionamentos ocidentais pós modernos.)
    Adorei =)

    Espero que um dia nós consigamos aceitar a morte sem sofrer.
    E também entender que os amores tem fim.

    Beijos!

  13. Thiago de Castro

    A questão é que mesmo é que as pessoas tem essaa visão de que o fim é ruim pois invalida todo o resto. Isso se liga a idéia de amor romântico judaico-cristão ocidental.

    Essa coisa de até que a morte nos separe não deixa as pessoas perceberem que um relacionamento de, vamos supor, 9 anos com vários bons momentos, planos realizados conjuntamente, intimidade, parceria,cumplicidade, viagens, conversas, (casamento e filhos. Ou não), não pode ser visto como algo que não deu certo; e sim deve ser visto como algo que deu certo por um tempo e que chegou ao fim como tudo mais um dia vai chegar.

  14. Concordo muito com o texto! É o que sinto, às vezes, mas não consigo explicar. E foi muito bem explicado, por sinal.

    Foda!

  15. “O ex é uma espécie de fim ambulante quando você ainda está empolgado com começos e sonhando com meios.”
    Parabéns, você escreveu uma frase genial.

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