3 problemas que eu tive com o filme do Lanterna Verde (e 2 coisas bacanas também)

A indefinição do tom: mais ou menos como uma senhora idosa participando do programa “Tentação” com Sílvio Santos, Lanterna Verde nunca sabe exatamente pra que lado ir. Se em alguns momentos ele procura a ficção científica, em outros ele avança na direção da comédia e em vários parte para o romance, sem em nenhum deles conseguir efetivamente funcionar. Não que outros filmes baseados em quadrinhos como Thor e Homem de Ferro não tenham nos mostrado que é possível sim transitar entre esses diversos gêneros, mas em Lanterna Verde isso sempre acontece de forma truncada e confusa, nunca parecendo realmente “orgânico”, como se algumas cenas tivessem sido enxertadas, montadas fora de ordem ou apenas filmadas porque o diretor de segunda unidade disse que seria “muita zuera” se fizessem. Exemplificando melhor o nível de sutileza e lógica nas transições temáticas, é mais ou menos como se com 30 min de “Aliens” Ridley Scott inserisse uma cena de jantar romântico e depois, lá perto do final, um alien aparecesse em cena e falasse pra Sigourney Weaver “puxa meu dedo”.

O roteiro: vítima do clássico problema de todo filme de origem, que é a necessidade de apresentar todos os personagens e elementos de uma futura franquia enquanto cria uma trama que se sustente isoladamente, podemos dizer sem medo que o roteiro de LV conseguiu não apenas ser confuso, cheio de buracos e incapaz de aproveitar algumas das melhores oportunidades narrativas da trama como também, num feito a ser valorizado, fazer com que Hal Jordan pareça um dos piores super-heróis (e possivelmente seres humanos) já vistos nas telas do cinema. Trechos da história parecem truncados e desconexos, personagens agem sem motivação lógica e o nosso nível de engajamento emocional – principalmente na cena final – é o mesmo que teríamos vendo uma briga de comida entre dois figurantes de Malhação. O momento mais sintomático dessa confusão toda é uma cena de luta na qual o Lanterna Verde não apenas fica parado e olhando com cara de trouxa enquanto uma pessoa é assassinada como depois vai embora pra casa dormir e não faz nada para prender o assassino. Sério, até o The Tick era um herói melhor.

Os diálogos: possivelmente na tentativa de buscar um filme mais leve e divertidão, LV abusou do humor e das piadinhas, o que até faz sentido quando você nota que não é a história de um órfão sequelado que se veste de morcego e sim de um piloto (órfão) lelesk que ganha um anel pra fazer luvas de boxe gigantes com o poder da mente. O grande problema é que – como boa parte das coisas no filme – essa escolha não funciona muito bem e as piadas ao invés de servirem como alívio cômico acabam constrangendo a platéia e te dando a estranha sensação de estar assistindo uma versão mais mais cara de “Feira da Fruta”. E eu falo sério, teve um momento em que o Hal foi fazer uma pergunta pros guardiões e eu achei que eles iam responder “não, não, são o sinestro e o kilowog vestidos pro baile dos enxutos, seu veadinho”.

Mas nem tudo está perdido: ainda que não tenha sido o melhor começo de franquia da história e seus lucros não dêem pra comprar um pacote de pipoca na Bolívia, não se pode dizer que o personagem não consiga ser salvo. Uma continuação com um roteiro melhor e um foco mais espacial, com destaque para Sinestro e a Tropa – os conceitos que funcionaram melhor no primeiro filme – pode conseguir conquistar o público e deixar claro que o personagem tem mais a oferecer do que lutas com nuvens que tem cara de velha e informações sobre ser impossível olhar pra suas próprias costas.

E outro ponto positivo: minha namorada viu o filme comigo e não mudou o status dela no facebook para “solteira” ou “é complicado”. Fiquei bem aliviado com isso.

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10 Comentários

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10 Respostas para “3 problemas que eu tive com o filme do Lanterna Verde (e 2 coisas bacanas também)

  1. Olha eu vi o filme ontem e talvez por esperar um cagalhão tão grande, eu não achei assim tãaao ruim, dá pra ver quando você não tem nada melhor pra assistir. E sinceramente, assim de coração mesmo, o Ryan Reynolds até que se saiu bem. Agora outra coisa que o pessoal precisa rever são os efeitos, já que algumas partes parecem CGS de PS2. (o engraçado é que eu não estava confiante e meu namorado dcnete foi quem dormiu em diversas partes do filme)

    • joão baldi jr.

      Eu acho que o elenco se saiu muito bem com o que teve pra trabalhar (destaque pro cara que faz o Tom, que teve que aguentar todas as piadinhas escritas pra ele), e que realmente os efeitos deixaram a desejar em diversoso momentos, aquele uniforme “vivo” não pegou bem, não sei explicar porque. Outro problema foi a idéia de que o Abin Sur não usava nada por baixo do uniforme, daí quando morreu ficou pelado, que vai totalmente contra o espírito da Tropa.

      (minha namorada considerou que o filme não foi tão ruim assim, apesar de ter sido ruim. é mais ou menos o que um cara diria depois de ser obrigado pela namorada a ver sex and the city 2, eu acho)

  2. Ah cara, nada que se pareça com Feira da Fruta pode ser de todo ruim. Aguardo a presença da tia do Lanterna na eventual sequência.

  3. Rainer

    Cara,todo mundo já achava pelos trailers que o filme seria uma merda.Maaaaaaaass,ao contrário de X-men First Class,que surpreendeu a todos por contrariar o universo inteiro e ser um filme legal,LV conseguiu nos surpreender mais ainda,ao mostrar que,realmente,o filme é uma merda como a gente esperava.

  4. tou com a maior preguiça de ver esse filme, a começar pelo protagonista. acho o ryan reynolds muito fraco.

  5. Tales

    Poxa, tava curioso para ver esse filme, mas passou agora. Na minha infância só lia turma da mônica (e vez ou outra algo da disney) e na adolescência só vi um ou outro mangá, então por isso conheço pouco do Lanterna Verde, só uma ou outra coisa que vi em algum desenho e comentário de amigos, mas sempre me pareceu um herói legal e por isso queria conhecer mais sobre.

    Não tenho problema em ler hqs, mas a organização dos volumes da DC (não que a Marvel seja diferente) me dá um certo medo de tão complicado que parece ser pra começar a acompanhar, são universos paralelos e reedições demais para meu pobre cérebro entender. Por isso seria legal conhecer através de um file, pena que o filme não tá a altura, né?

    • joão baldi jr.

      Cara, o filme realmente não é o melhor cartão de visitas do personagem, vou admitir. Mas se você ainda quiser encarar os quadrinhos uma boa forma de começar (ao menos com o Lanterna Verde) é um encadernado chamado “Origem Secreta”, que mostra a origem mais atual do personagem, contada por um bom roteirista e um bom desenhista. Ou então você pode esperar o reboot que tá vindo aí e vai recomeçar tudo do 0, visando exatamente descomplicar ar coisas. Mas se eu for te explicar o reboot vai ser complicado. Ou seja, no final você tem razão.

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  7. e eu que achava que o lanterna era negro (porque eu só assistia a Liga da Justiça no SBT todo dia, nunca li HQs como vocês), daí já achei estranho logo com a divulgação do primeiro poster e não quis assistir. mas, meu namorado (que lia) quer ver e, coitado, ele está muito empolgado [meus motivos desmerecem meu comentário, mas ok, que seja].

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