Duas pequenas fábulas ouvidas durante o workshop corporativo dessa semana

A fábula dos cegos e do elefante – Índia antiga. Terra de tradições, terra de magia, terra de interpretações questionáveis de Tony Ramos e Márcio Garcia. Um jovem rei, desrespeitando não apenas as regras de segurança do governo, mas também qualquer resquício de bom-senso no trato com pessoas portadores de necessidades especiais, convoca cinco cegos do reino, os coloca em torno de um elefante e pede que eles descrevam como é o animal. Todo mundo acha bacana.

O primeiro cego, que havia apalpado a barriga do animal, descreveu que ele parecia uma panela. O segundo, localizado perto da orelha, considerou que o animal parecia um leque. O terceiro, perto da tromba, alegou que a semelhança era com uma mangueira. O quarto, que apalpara a perna, disse que a criatura lembrava um poste e o último, que havia ficado perto do rabo, após mencionar que aquilo era uma das maiores babaquices já feitas e que o rei deveria se envergonhar, mencionou que o animal lembrava uma vassoura.

Após uma profunda discussão entre os cegos, que não chegavam a um acordo em relação ao aspecto do elefante, o rei os interrompeu dizendo que o animal era a soma de todas aquelas partes e apenas reunindo aquelas informações conseguiriam uma descrição razoável da criatura.

O que a empresa de consultoria afirmou: nessa fábula aprendemos o valor das opiniões alheias e a compreensão de que tudo é composto de várias facetas.

O que eu aprendi: a Índia é uma terra escrota onde as pessoas zoam cegos pra nada, não quero ir lá nunca.

A fábula do velho no meio do caminho – Um viajante vinha caminhando por uma longa estrada quando viu se aproximando uma cidade no horizonte. Cansado, notou sentado na beira da estrada um velho, ao lado de um garoto. Jogando ao chão sua mochila perguntou ao homem: “desculpe-me, senhor, mas como é aquela cidade logo em frente?”. O velho tirou seu cachimbo e lhe respondeu com uma pergunta (coisa que segundo Seu Madruga apenas os idiotas fazem). “Como era a cidade de onde você veio?”.

O homem respirou fundo, olhou para o horizonte e disse “era uma péssima cidade. tive problemas, as pessoas eram más, egoístas, cruéis, só queriam zoeira e faziam aquelas piadas do tipo ‘ou, ou, ou, ouviram do ipiranga as margens plácidas”. Ao que o velho respondeu “então, essa cidade aqui é exatamente assim”. Ouvindo isso o viajante pegou novamente sua mochila e voltou a caminhar, passando direto pela cidade.

Minutos depois, surge um novo viajante, no mesmo local. Notando o velho, o segundo viajante pergunta “desculpe-me, senhor, mas como é aquela cidade logo em frente?”. O velho larga seu cachimbo outra vez e retruca “como era a cidade de onde você veio?”. O homem sorri e diz animado para o velho “ah, era bacana. rapaziada era gente boa, muita curtição, vibe tranquila, tudo numa nice. só tô me mudando por causa de umas questões judiciais que não convém mencionar, se é que o amigo me compreende”. O velho então respondeu “pois essa cidade é exatamente assim”. Ouvindo isso o homem rumou para a cidade, pelo caminho mais curto.

Após ver o homem se afastando o aprendiz, curioso, interpelou o velho: “mestre, mas peraí…como assim os dois caras vêm, fazem a mesma pergunta sobre a mesma cidade e o senhor dá respostas tão diferentes?”. O velho então olhou para o garoto e, meio irritado de ter que tirar o cachimbo da boca o tempo todo, declarou “eu disse isso porque a cidade vai ser exatamente como eles esperam que seja e como as cidades anteriores foram. Eles deveriam se preocupar menos com como a cidade é e mais com como eles são”.

O que a empresa de consultoria afirmou: suas expectativas moldam suas conquistas e antes de culpar o ambiente pelos problemas você deve procurar compreender quais mudanças você mesmo pode gerar.

O que eu aprendi: ter sempre um guia 4 rodas na mochila; não acreditar em moçada que fica de bobeira na estrada; gente velha é foda.

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8 Comentários

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8 Respostas para “Duas pequenas fábulas ouvidas durante o workshop corporativo dessa semana

  1. JuninhO

    Rapaz, tive a mesma impressão sobre a Índia que você na primeira fábula. Puta sacanagem fazer isso com os cegos.

    Mas tem uma fábula do urubu e do pavão que é muito boa, você devia colocar aqui…

  2. Quem não adora essas dinâmicas empresariais, certo?

  3. o pior é que você recebe para escutar isso…
    Sempre tive um pé atrás com a india e a segunda nem é tão ruim assim…hahaha

  4. Um dos textos mais engraçados que li por aqui em tempos, principalmente pela redação estilo “zoeira bacana” (conceito que também aprendi nesete blog, e que se contrapõe ao estilo “zoeira vacilo”, conforme eu também aprendi por aqui).

    E se eu fosse um defensor do Raj, como visto em outro post bem recente, não falaria tão mal assim da terra do cara (dá pra pontuar isso como “zoeira vacilo”?)

  5. Ai ai, o mais legal é que tem gente que ganha dinheiro contando isso em palestras.
    salve joão! Sempre bom bisbilhotar seus escritos!

  6. eu já tinha ouvido as duas fábulas, anteriormente. e a lição delas me pareceu normal, como todas as outras fábulas do mundo. mas, a sua moral da história valeu demais. ri muito, João.

  7. Lorran W.

    cara, essa piada do “ou, ou, ou, ouviram do ipiranga…” …

  8. Uma vez o diretor da empresa mandou uma história idiota sobre ver o lado do outro etc. etc. etc., como se deve fazer tudo aquilo que ele não fazia e, na história, o pai falava para o filho que ele deixava a panela de alumínio brilhando (história ruim, mesmo).

    Eu aproveitei o e-mail pra dizer que faz mal à saúde ariar panelas de alumínio.

    Pouco depois me mandaram embora. Hoje penso que os eventos estão relacionados.

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