Breves fenômenos contemporâneos da dissociação cognitiva: “A síndrome das férias”

Primeiro estágio: contaminação – Tudo começa com a aproximação do período das férias. Aquele seu amigo, antes articulado, cheio de assuntos e capaz de numa mesma conversa abordar temas tão variados quanto o nono segredo de fátima, mineração em áreas de grande profundidade, bukkake e porque é impossível cancelar qualquer plano na blockbuster – ainda que você ache que essa parte da blockbuster tenha sido meio forçada e nada orgânica em termos de papo – subitamente se torna uma criatura total e absolutamente monotemática, conseguindo falar apenas sobre as próprias férias. Onde elas vão ser, o que ele vai fazer, como é o hotel, como é o avião, como ficou a foto no passaporte, quais bermudas ele comprou, qual gorrinho ele vai levar e como ele planeja voltar com 12 ipads, todos fora da mala, alegando que é pra uso pessoal. A sensação coletiva que, antes era de simpatia (“ah, que bom, cara, suas férias”), rapidamente se transforma em indiferença (“é, eu sei, cara, são suas férias”) e caminha em direção a antipatia (“mas porra, só fala dessas férias, cacete”) podendo em casos extremos chegar até mesmo ao ódio puro (“tomara que um puma leproso te lamba a cara e um tubarão te coma, fdp. e dane-se se suas férias são em quebec”).

Segundo estágio: desenvolvimento da doença – E finalmente chegam as férias. Sim, férias, aquele período de relaxamento e alheamento em que você deixa de lado sua casa, seu trabalho, suas responsabilidades e sua rotina para embarcar de cabeça numa nova terra, numa nova cultura, num novo ambiente, ou, mesmo se escolher continuar em casa, se isolar das tensões do mundo moderno buscando renovar suas forças e voltar preparado para a dura batalha do dia-a-dia (ou apenas para o trabalho, nem todos podem estar no circuito de boxe clandestino). Ou então, claro, aquele período em que você passa o dia todo atualizando o facebook, não sai do twitter por um minuto e diariamente envia pacotes de 100 fotos para todos os seus amigos, relatando em detalhes cada passo diário e registrando imagens de cada prato de comida ingerido, além de estar sempre online no msn com o subnick “férias [imagem de coqueirinho] curtindo muuuuitoooooo [imagem de coqueirinho]”.

Terceiro estágio: conseqüências e seqüelas – É nesse estágio que se separam os casos normais, graves e extremos da doença. Se num cenário normal a pessoa tem um período de aproximadamente duas semanas durante o qual realmente acredita que suas fotos, histórias e lembranças de viagem são interessantes para observadores externos (“peraí, me deixa contar de novo a história da stripper e do golfinho gay, o gerson ainda não ouviu”), em situações mais graves o paciente pode levar meses para abandonar o tema, convidando pessoas durante dias de semana para ver um ppt de 2,7 giga com fotos suas nos alpes ao som de Alejandro Sanz e relacionando todo e qualquer assunto a sua antiga viagem (“ah, vocês tão falando de água? então, em quebec tinha água também, e teve um dia em que eu…”). Nos casos mais extremos, também conhecidos como “Síndrome das Férias Eternas” a pessoa apenas não consegue mais deixar para trás os eventos daquele período, estando condenada a para sempre repetir, mencionar e relacionar sua vida com aqueles vinte dias em que esteve viajando, num fenômeno triste e comovente, principalmente se a pessoa tiver passado vinte dias na casa dos avós em Simão Pereira.

10 Comentários

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10 Respostas para “Breves fenômenos contemporâneos da dissociação cognitiva: “A síndrome das férias”

  1. Mariana

    Que saudade eu tava desses posts! Minha parte preferida “buscando renovar suas forças e voltar preparado para a dura batalha do dia-a-dia (ou apenas para o trabalho, nem todos podem estar no circuito de boxe clandestino)”

    Keep up the good work! Mal voltou de férias e já estão falando de trabalho…

  2. Mateus C.

    Lembrei daqueles episódios do Pateta de férias (esquiando, fazendo piquenique, etc) em que uma voz em off narra as maravilhas dos acontecimentos enquanto o amigo do Mickey subverte todos eles invariavelmente se fodendo. Curti.

  3. Triste quando suas últimas férias já tem uns 3 anos e mesmo assim vc ainda continua contando as histórias maravilhosas dela.

  4. SCOTTY DOESN’T KNOW!!! SCOTTY DOESN’T KNOW!!! SCOTTY DOESN’T KNOW!!!

  5. Lorran W.

    “peraí, me deixa contar de novo a história da stripper e do golfinho gay, o gerson ainda não ouviu” Cara, como pode isso?

    • joão baldi jr.

      Bem, eu voltei das minhas outras férias querendo contar pra todo mundo a “história da ovelha inflável naquele pub em que eu quase quebrei meu dente”, então acho que não chega a ser chocante, vamos lá.

  6. Da única vez em que tive férias profissionais, o máximo que eu fiz foi voltar a Viçosa para, sem qualquer treino, realizar mais um exame de direção.

    E, outra vez, não passei. Triste.

  7. O melhor das férias é esperar por elas. Mesmo sem estar trabalhando, já estou planejando minha viagem pra São Paulo, em novembro. Pensando bem, acho que estou um pouco monotemática, também. Mas só um pouquinho.

  8. Realmente há férias memoráveis..só que são nossas e não interessam (quase nunca) a ninguém!..mas é bom contar e comentar..porque parece que revivemos as histórias e porque dá para notar que as outras pessoas ficam com um pouquinho de inveja *maldade básica* ;)

  9. fica mais chato quando são férias em grupo e pessoas de fora tem que aturar piadas internas. aí é dose, companheiro.

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