4 possíveis posturas para sobreviver em reuniões ligadas a assuntos sobre os quais você não entende absolutamente nada

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O anotador – E você foi pego de surpresa pela reunião. Um gerente morreu, seis coordenadores foram atropelados, três assistentes precisaram viajar e você, que estava para a escala de presença desse evento mais ou menos como o Alceu Valença está para o trono da Suécia, acabou sendo a única opção razoável para representar a sua área num encontro sobre a nova padronização de blowouts e gushers, para o qual você estaria totalmente preparado, não fosse achar que gusher era um tipo de comida judaica. Sentado na sala você nota que não apenas não conhece as pessoas, não entende do assunto e não sabe o que precisa fazer como também não teve acesso a brochura que todos estão consultando a cada palavra. Desesperado, você pega o caderno e começa a anotar. Sim, anotar. Anota o nome dos participantes, anota o local da reunião, anota o que explicam no quadro, anota os comentários e quando nota que realmente não está entendendo porra nenhuma começa a anotar a marca dos móveis, sua lista de compras e as capitais dos antigos países da União Soviética.

Na semana seguinte comentam com seu chefe o quanto você pareceu interessado e disposto e duas pessoas querem te chamar pra fazer as atas das próximas reuniões.

O yoda – E você foi pego de surpresa pela reunião. Quer dizer, não exatamente de surpresa. Ela havia sido marcada um mês antes, relembrada duas semanas atrás e comentada pela sua chefe com você na véspera, mas sabe como é, quarta-feira, rodada do brasileirão, sua preparação consistiu em 12 long necks,400 gramas de amendoim e uma passada leve de olhos no ppt, onde você acha que leu a palavra gestão. Mas também podia ser pistão. Ou tufão. Algo assim. Chegando na sala você nota que todos, tal qual pessoas no twitter, tem opiniões claras, formadas e embasadas sobre cada detalhe do tema abordado, menos você. A chefe vai consultando os empregados um a um e quando finalmente chega a sua vez, você recorre a única medida disponível: reconstruir as frases das pessoas. Lembrando que alguém disse que a gestão é importante para os processos você declara que os processos são importantes para a gestão e por aí vai, com declarações elegantes como “o trabalho vem dos lucros”, “superação vem dos desafios” e “a força é muito poderosa em você, pequeno padawan da contabilidade”, só parando quando está prestes a sentar nas costas do cara do RH e sair caminhando com ele por um pântano para treiná-lo pra uma luta contra o próprio pai.

O genérico – E novamente, como parece ser frequente na sua vida, você chega a uma reunião total e completamente despreparado. Não teve acesso ao material, não domina o tema, não conhece os clientes, errou duas vezes o prédio e achou que o banheiro gerencial era uma sala de videoconferência. Seu único consolo é o de que dessa vez você conta com o dinâmico back up de um colega que, talvez por sorte, talvez por coincidência, talvez por não ter ido a um show do Molejo na véspera,  está total e completamente inteirado dos assuntos em pauta e lhe permite passar os próximos 90 minutos destilando comentários genéricos e vagos sobre o tema, quase todos gratuitos e dispensáveis, tomando como pistas as falas dele.

Se ele diz “precisamos mapear os fluxogramas e discutir os processos” você diz “fluxogramas, processos, sabe?”. Se ele menciona que “a dinâmica do mercado tem criado situações desafiadoras mas cheias de oportunidades” você fala “muitas, várias, inúmeras oportunidades”. Quando ele finaliza com “um prazer ter conversado com vocês” você conclui com um “ô, um grande prazer”. Muito provavelmente depois disso esse seu colega nunca mais vai querer a sua companhia numa reunião e você vai estar com a leve desconfiança de que pode ter imitado involuntariamente o Barbosa, da TV Pirata.

O ocupado – E novamente, pela quarta vez em uma semana, você chega a uma reunião sem a menor pista do que se trata e com grandes desconfianças de que a resposta não vai ser “coronel mostarda, na cozinha, com o castiçal”. Nenhum colega foi junto, sua chefe não está presente e todas as suas técnicas de enrolação foram gastas até o limite do constrangimento nos eventos anteriores, com o agravante de que nem mesmo sua agenda e sua lapiseira estão presentes, impedindo que você tente dessa vez acertar qual é a capital da Geórgia. Mas para sua sorte seu grande amigo celular está presente, criando uma das mais clássicas rotas de fuga possíveis.

Colocando o celular no silencioso para que ele não possa tocar, você simula uma ligação e, chamando o máximo de atenção possível, pede desculpas pelo incômodo, mas diz que precisa atender porque tem que aprovar um projeto na sua gerência. Saindo da sala, você diz ao telefone frases como “mas e o cliente?” ou “como assim pediram em outro formato?”. É recomendado evitar a tentação de frases mais contundentes como “mas são mesmo uns putos”, “não, não, pode matar todo mundo” ou “khaaaaaaaaaaan”. Já fora da sala, encaminhe-se para o banheiro e, dentro de um dos boxes, passe períodos que variam entre 5 e 15 minutos, sem nunca passar dos 20. Após isso volte a sala com expressão agitada e, em alguns minutos, simule outra ligação, nos mesmos termos. Após a terceira ligação simulada solte um “meu deus, vocês não conseguem resolver nada sem mim!” e abandone o evento.

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15 Comentários

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15 Respostas para “4 possíveis posturas para sobreviver em reuniões ligadas a assuntos sobre os quais você não entende absolutamente nada

  1. Henrique

    Haha, muito boa, João.
    A do “Ocupado” já é bem conhecida mas nunca perde a utilidade. Inclusive, outro dia, estava procurando alguma coisa no Market e achei um aplicativo para simular ligações, deixando mais convincente ainda.

  2. Anotando tudo que eu não conhecia aqui, mas já sou uma adepta antiga do genérico, inclusive em participações em sala de aula. Me identifiquei muito com tudo, principalmente por ter apenas uma ligeira noção do que a empresa onde eu trabalho há 2 meses faz.

  3. Sem saber eu já fazia a do Anotador e a do genérico. Vou testar a do ocupado e do yoda, parecem legais.

  4. Prisicla

    Balançar a cabeça afirmativamente e franzir a testa (estilo “refletindo”) também são alternativas .Mas tem que ter toda uma habilidade para ser convincente…

  5. Eu sabia que era Tbilisi, antes mesmo de ver a tag!

  6. Eu sempre me pergunto se seus colegas de trabalho, mais especificamente seus superiores, sabem que você tem um blog…

    • joão baldi jr.

      Eu gosto de pensar que não. E que, se ficarem sabendo, vão ter a compreensão de que isso tudo é cronismo freestyle sem embasamento real, sabe como é.

  7. KKk, muito boa, a do anotador é a minha preferida.

  8. É João, vivendo e aprendendo com seus textos…

  9. Mateus

    O triste é quando bancam o “Ocupado” enquanto é você quem faz a apresentação… dá vontade de atirar uma lança nas costas do sujeito, qual o Xander Drax (inimigo do Fantasma, no filme) ou mostrar pro cara como fazer um lápis desaparecer (Coringa). Mas acho que isso não seria bem visto pelos demais membros da corporação.

  10. Eu sou mais anotadora, mesmo, mas anoto pra prestar atenção, se não eu fico viajando.

  11. na faculdade tinha uma colega que gostava de falar e falar, ela nunca falava nada no final, deixava todo mundo tão confuso, que parecia ter falado, mas não falava. sei lá, acho que é uma alternativa, tbm. mas, tem que ser bom de falatório.

  12. Lorran W.

    Lembrando que para fazer o Ocupado tem que ser um tanto quanto ator….

  13. Pingback: Uso acadêmico do iPad | A Grande Abobora

  14. Uso o genérico para a VIDA

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