Por uma breve taxonomia do mau-caratismo, da malandragem e do vacilo

O mau-caratismo: Um comportamento sistêmico, contínuo e de longo prazo, o mau-caratismo quase sempre envolve uma profunda tendência a ignorar as regras básicas do convívio social e da fraternidade humana. O praticante do mau-caratismo – doravante chamado “mau-caráter” – basicamente não reconhece grande parte das limitações morais que atingem as outras pessoas e tenta, através do seu alheamento e falta de consideração por vários dos principais pilares que evitam a barbárie na sociedade, aproveitar oportunidades que o cidadão comum não tentaria utilizar por considerar que é meio errado roubar dinheiro de cadáveres, invadir a casa do chefe durante a madrugada para pegar documentos ou encoxar a mulher do amigo durante a festa de casamento dele. Mais uma deformação moral do que um traço de personalidade, o mau-caráter é mais ou menos como o Dexter, com a diferença de que ele não necessariamente mata pessoas e seria capaz de, hospedado na sua casa, roubar seu carro, xingar seu pai e assediar sua irmã. Ok, talvez não tenha nada a ver com o Dexter. Eu às vezes confundo os seriados.

A malandragem: Ainda que várias vezes confundido com o mau-caráter, o malandro pode ser diferenciado pelo fato de que, ao contrário do primeiro, ele reconhece e compreende a dinâmica e o funcionamento das normas e acordos sociais, assim como está ciente da idéia de que esses termos valem tanto para ele quanto para todos os outros. A “malandragem” portanto reside na idéia de que ele, por ser mais “esperto”, “malandrão” ou apenas “champs” é capaz de driblar algumas dessas normas (vistas como obstáculos) para obter vantagens em relação ao próximo, desde que tudo seja operado dentro de um certo escopo. Isso significa que o malandrão é capaz de, por exemplo, furar uma fila, sonegar um imposto, dizer pra namorada que vai visitar a tia doente quando na verdade vai ao forró, mas é incapaz de roubar o caixa do banco, entrar armado no prédio da receita federal e dizer que vai visitar a tia mas na verdade ir chefiar um ritual satânico. A não ser que ele possa furar a fila do forró e sonegar impostos no ritual satânico. Mas aí seria malandragem demais, precisamos ter limites.

O vacilo: O vacilo é um ato pontual, específico e com clara localização no tempo, praticado por alguém que, mesmo ciente das regras e dos acordos morais e concordando que eles são essenciais para o convívio civilizado, não é capaz de, seja por pressão externa ou desejo interno, respeitar essas normas convencionadas. O praticante do vacilo – comumente conhecido como “vacilão” – costuma quase sempre apresentar, em maior ou menor grau, externados ou não, sentimentos de culpa e arrependimento, já que sua consciência da inconformidade entre suas atitudes e as expectativas dos que o cercam faz com que veja seus atos, independente do tipo de vantagem momentânea ou duradoura que possam lhe trazer, como errados. O vacilão é portanto aquele que reconhece as regras, está ciente da sua aplicação, considera que não deveria burlá-las e mesmo assim incorre em erro, gerando com isso arrependimento, remorso e possivelmente menções pouco elogiosas em canções da cantora Perlla. A nova, não aquela que parecia uma índia e cantava “Galopeira”.

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8 Comentários

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8 Respostas para “Por uma breve taxonomia do mau-caratismo, da malandragem e do vacilo

  1. Marco

    “encoxar a namorada do amigo durante a festa de casamento dele.”
    Se estão na festa de casamento, ela não é mais a namorada uai! Já é a esposa!

    • joão baldi jr.

      Mais pura verdade e já realizei a correção.
      Por sinal seu uai aumentou drasticamente sua credibilidade.

      • Marco

        Ahahah! Ok ok! (como diz o Nelson Rubens)
        Aguardo mais textos seus aqui e no PdH!
        Como já disse antes, são os q eu mais curto por lá.

  2. O Dexter jamais roubaria seu carro, xingaria seu pai e assediaria sua irmã! Agora, se os 3 fossem assassinos, ele mataria a todos. Aí sim, aí tudo bem.

  3. E por 3 eu quis dizer você (seja você quem for, né, porque é hipotético), seu pai e sua irmã. Não seu carro, né. RISOS

  4. O Mau-Caráter e o Vacilão são do Mal, mesmo!!!..mas eu tolero o Malandro. Acho que é um estilo de vida e não um defeito ou característica qualquer.
    E tendo em conta que todo mundo sabe (ou deveria saber) que “Malandro é Malandro e Mané é Mané” e que você parece entender do assunto, gostaria de colocar uma questão (que na verdade são duas). Tem termo contrário para Vacilão e Mau-Caráter?!

  5. E o que eu quero saber é: em qual dos três o Tico Santa-Cruz estaria classificado? Eu chuto vacilo.

  6. legal, agora vou ficar com essa música na cabeça o dia todo. oh-my.

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