Mini-conto #9: “O eterno não dá”

Da primeira vez ele reparou nela, assim que chegou no bar. Ele estava voltando do trabalho, com três amigos e ela estava comemorando o aniversário da irmã. Ele gostou do jeito como ela sorria, achou bonitinha a forma como ela mexia no cabelo, sorriu quando viu que ela era a única bebendo coca-cola numa mesa cheia de tequilas. Ela nunca ficou sabendo, mas foi o melhor amigo dele que vomitou no pé dela naquela noite, logo na saída do banheiro.

Na segunda vez ela reparou nele. Era uma festa, e os dois estavam na fila do bar, ela queria uma cerveja e ele estava planejando pedir um mojito. Quando chegou a vez dele, olhou pra trás, viu a garota e perguntou se ela queria pedir primeiro. Ela aceitou e saiu achando que ele era um cara estranhamente educado, mas bem bonitinho. Ele respirou aliviado porque sempre ficava sem graça de pedir mojitos na frente de garotas. Mojito era meio bebida de veadinho.

O encontro seguinte foi no dia de São Patrício e quando ele viu que ela estava do outro lado do balcão resolveu tomar coragem, possivelmente uma cerveja verde, e ir lá tentar alguma coisa. No tempo que ele levou pra pedir a cerveja um americano grandão chegou perto dela e quando ele viu o jeito como ela estava sorrindo soube que naquela noite ele não tinha muita chance. Bebeu mais seis cervejas, das grandes, e voltou pra casa com a língua colorida, um chapéu de leprechaun e uma garota chamada Liliane que ele, depois de bêbado, chamava de Trillian, mas ela não entendia a graça da piada.

Da outra vez foi numa locadora, no corredor de lançamentos, e eles se cumprimentaram, ela com aquela sensação de “conheço esse cara de algum lugar” e ele com a impressão de que ela, e mais todo mundo na locadora, sabia que com o notebook no conserto ele estava alugando pornografia.

E então eles se encontraram no aniversário de uma colega de trabalho dele, mas ela tinha levado um namorado e ele passou a maior parte do tempo na cozinha fazendo guacamole. Uma guacamole que ela achou horrível, por sinal. E depois num show, mas dessa vez ele tinha levado uma namorada e estava tão apaixonado que nem percebeu ela lá chorando nas música românticas e enchendo um ex-namorado de mensagens. E depois numa fila de cinema, mas ele ainda estava chateado por causa do término  e passou a sessão toda com a cabeça praticamente enfiada no balde de pipoca, além de ter feito barulho bebendo sprite, o que ela considerou bem desagradável.

E depois se toparam no shopping. E ela sorriu pra ele, e ele sorriu de volta, mas achou que seria esquisito demais puxar papo com alguém na seção de fogões das Casas Bahia. E então num estádio, mas ele estava com os amigos e ela também, ainda que pra ele o amigo dela tenha parecido um namorado e ela tenha tido uma leve desconfiança de que já tinha visto um dos colegas dele antes, numa situação que envolvia vômito.

Numa festa, uma semana depois, se encontraram de novo. Ele chegou perto e disse oi, mas antes mesmo de se apresentar o telefone dela tocou e ela disse que precisava correr porque a irmã tinha batido com o carro. Ela teve medo que parecesse uma desculpa altamente elaborada pra cair fora. Ele teve certeza que aquele cavanhaque não estava dando sorte e ele devia voltar a usar a barba inteira.

Seis meses depois, mesmo bar. Ele tinha mudado de emprego, ela tinha mudado de cidade. Estava visitando uma amiga. Ele notou a garota na mesa e acenou com a cabeça. Ela sorriu. Ele foi com uma cerveja na mão, chegou perto, puxou uma cadeira e sentou. Olhou pra ela e disse, “a gente já não se conhece de algum lugar?”. Ela fechou o sorriso, terminou a tequila de um gole só e falou “não…acho que não…”, antes de caminhar em direção as duas amigas que já estavam na pista.

No caminho pra casa ela se perguntou porque os bonitinhos tem sempre cantadas tão idiotas e ele se perguntou porque ainda insistia no maldito cavanhaque.

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13 Comentários

Arquivado em contos, Ficção, romantismo desperdiçado

13 Respostas para “Mini-conto #9: “O eterno não dá”

  1. Henrique

    Esse preconceito da sociedade com bebidas que não sejam cerjveja/uísque/conhaque ou essas outras já rotuladas como bebidas de macho precisa ser revisto. Mojito, meus amigos, é muito bom.
    (Mas drink com frutinha, coloridinho, realmente. Isso aí não pode, é totalmente homossexual.)

    E mesmo com o título tendo “eterno” no nome e conhecendo seus textos, eu ainda achava que ia rolar pelo menos um casual no final, viu.

  2. Fica a lição: não importa se já a conhecia de algum lugar, se já a havia visto naquele lugar anteriormente ou se ela estiver engessada como se realmente tivesse caído do céu, usar disso pra puxar papo sempre soará como uma cantada idiota.

  3. Naiara Costa

    Me lembrou aquela música do Vanguart, Last time i saw you, mas talvez não tenha nada a ver…

  4. Naiara Costa

    E, pensando bem, essa é uma situação muito comum. Conhecer alguém sem realmente conhecer, frequentar sempre os mesmos lugares e trocar os mesmos sorrisos ou olhares mas existir sempre aquela força do universo que impede de se falarem de verdade.

  5. Eu tenho a impressão de que cavanhaques só funcionam em pagodes.

  6. Porra, João!

    Mas sabe, acho que era o destino dando um sinal a esse dois: não fiquem juntos, não vai der certo e o rapaz toma mojitos, provavelmente ele choraria.

  7. Toda vez que esbarro em um excelente escritor, aqui na net, sorrio. Virtual e realmente. Ganhou uma nova leitora. Está convidado a conhecer o meu blog!
    Parabéns!
    Cláudia

  8. concordei com a Marília, na primeira parte. não sei nada a respeito de drinks, não posso opinar.

  9. Escusado era dizer que o conto é bom, mas não custa nada, por isso…Bons mesmo são esses fins de contos são “previsivelmente surpreendentes”. O que é óptimo.
    E não, cavanhaque não mesmo!

  10. hm… que casal mais morno! De fato, não dá!

  11. Sensacional, Baldi.

    “E se a gente já não mais, rir um do outro, meu bem, então o que resta é chorar.”

  12. Cavanhaque realmente atrapalha as coisas…

  13. Edu_Rappel

    De João Ubaldo a Pietro Ubaldi !!!

    Nos Amores e na Política, como já diria o único caudilho nacional, Leonel Brizola:
    ….”O cavalo encilhado, passa, uma única vez!!!…
    O problema não é o cavanhaque, nem o vômito, nem o mojito…É a atitude…rs

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