Sobre o dia em que eu tive medo de avião

Eu sempre achei que fosse ter medo de avião. Quer dizer, medo não, pavor. Primeiro pela óbvia periculosidade da idéia – é uma caixa de metal, erguida ao céu por turbinas, deslizando no ar quente, comandada por um cara que sempre tem um sobrenome como “mendonça”, “peçanha” ou “menezes” e sobre a qual só ouvimos falar quando cai – e segundo pela minha óbvia facilidade para ter medo das coisas. Tenho medo de altura, tenho medo de cavalos, tenho medo de lugares fechados, tenho medo de pessoas não tão familiares que  me cumprimentam dando aquele abraço com a cabeça apoiada no ombro, tenho medo de pegar carona e ser obrigado a conversar com o dono do carro. Em suma, se algum dia ocuparem Wall Street pedindo uma melhor divisão do medo dentro da sociedade, eu, com toda certeza, vou estar entre aquele 1% que todo mundo vai criticar por estar concentrando receios demais.

Daí então, quando eu finalmente fui entrar num avião, nos longínquos meados de 2009, a minha certeza era a de que eu iria ter um colapso. Chorar, me debater, me sentir sufocado, querer procurar a cordinha e descer, tentar beijar jogadores de futebol do mesmo sexo, essas coisas que as pessoas fazem quando se sentem mal em aviões e todo mundo conhece muito bem. Mas pra minha surpresa eu, mesmo sentado ao lado da asa, mesmo apertado entre uma senhora obesa e um bebê, mesmo ouvindo do piloto que naquele dia uma aeronave do mesmo modelo tinha tido “problemas para decolar” – o que na minha cabeça era uma gíria aérea para “explodiu numa imensa bola de fogo sem deixar sobreviventes” – consegui não apenas fazer uma boa viagem como dormir e só acordar já no meu destino, praticamente sem recordações da viagem, como numa divertida e gostosa abdução alienígena, só que sem aquele lance chato das sondas.

E conforme o tempo foi passando eu descobri que realmente gostava dessa coisa de avião. Fosse nas viagens de férias em que eu conseguia assistir filmes do Woody Allen confortavelmente na minha poltrona, fosse na ponte-aérea pra ver minha namorada, na qual eu conseguia filar os deliciosos biscoitos de côco da gol (2 por pessoa e não adianta pedir mais) eu conseguia não apenas relaxar como possivelmente dormir ou até mesmo ler um livro, sem nunca ficar assustado ou receoso, mesmo quando haviam turbulências, crianças chorando ou mesmo naquela vez em Porto Alegre quando, antes da decolagem, o piloto disse que não confiava na aeronave, tinha pedido folga naquele dia e esperava que deus nos protegesse, mais ou menos como se a Sinead O’Connor rasgasse o projeto do avião na minha frente. Isso tudo até, é claro, o vôo da sexta-feira passada. O vôo no qual eu viajei com o Neymar e o Pelé.

Não, não os originais, claro. Na verdade eram sósias, daqueles que fazem eventos, aparecem quando a globo filma um estádio ou correm por cima de uma piscina de amido durante uma tarde insuspeita de domingo. Mas já foi o bastante pra que eu tivesse um profundo e doloroso momento de reflexão. Afinal, numa viagem normal, comum, de rotina, a gente consegue superar as preocupações, deixar de lado os riscos, não pensar que se tudo der errado nunca vamos ter terminado aquele livro, conhecido aquele lugar, dito aquelas últimas palavras. Nós apenas sentamos, deixamos a preocupação em alguma área secundária do cérebro e seguimos em frente.

Mas num vôo com um sósia do Pelé isso é impossível. Porque vendo ele ali, um cara que vive de ser parecido com o Pelé, é como se o universo tivesse jogado na sua cara todo o absurdo da existência, toda a contradição do ser, todo o ridículo cósmico. Diante de um cara que tem o cabelo do Pelé e que agradece a comissária de bordo com um “entende” ficam claras todas as rachaduras da nossa rotina humana, todas as falhas na matrix em que vivemos, todos os riscos pelos quais passamos todo dia e apenas ignoramos, porque se pensarmos neles não vamos conseguir dormir. Diante do cara que imita o Pelé não existe a possibilidade de conforto, não existe a esperança de razão, não existe a chance de um sono tranqüilo, não sobrevive a crença humana natural de um final feliz.

Diante de um cara que fala de si mesmo na terceira pessoa e diz que “o edson precisa ir ao banheiro” tudo que te sobra é o receio, o medo, o terror de que, se aquela porcaria de avião cair, tudo que todos vão saber, se porventura aquilo chegar a render uma pauta em algum jornal de domingo, é que caiu o avião “que levava o sósia do pelé”. Sim, porque sentado na poltrona 27F daquele vôo da gol era apenas isso que eu era: um figurante nessa grande farsa chamada vida, e num capítulo perdido no qual o protagonista, o ator principal, era um imitador do Pelé. E nesse momento, amigos, enquanto eu pensava que merecia mais do que isso, que a vida deveria ser mais que essa sucessão sem sentido de som, fúria e participantes do domingo legal com celso portiolli, eu, sinceramente, e pela primeira vez na vida, tive medo que um avião caísse.

Mas depois eu cheguei em São Paulo, todo mundo desceu, e ficou tudo bem. Na verdade foi um excelente final de semana, se vocês querem saber. Sei lá, eu deveria viajar com o Pelé mais vezes.

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14 Comentários

Arquivado em é como as coisas são, situações limite, Vida Pessoal

14 Respostas para “Sobre o dia em que eu tive medo de avião

  1. Oi, João! Primeiro queria dizer que vi seu recado no Forms, mas ando com preguiça de escrever lá e resolvi me aventurar por aqui de novo. Gostei muito do texto, e me identifiquei mais do que seria saudável (também tenho cá minha cota exagerada de medos).

    Uma vez eu peguei um avião de Curitiba a Maringá (minha cidade natal) e sentei do lado de um monte de moleques com uniformes rubronegros de futebol. Pensei que fosse um time de escola e quase cometi a gafe de pergutnar se eles eram de Maringá mesmo. Aí pegamos uma turbulência e, enquanto eu apertava gentilmente os braços da cadeira pensando em ignorar o aviso de proibido celular e ligar pra minha mãe pra dizer que a amo, aqueles meninos com o dobro do meu tamanho entraram em PÂNICO. O que tava do meu lado escondeu o rosto nas mãos e ficava repetindo “meu Deus do céu” (chegando no aeroporto eu descobri que eles eram o Atlético Paranaense). Acrescentei esse caso à minha lista de experiências de quase-morte (entre a madrugada em que eu me perdi na cracolândia e a vez em que eu fiquei presa no mirante da catedral – minha lista não é mesmo muito criteriosa).

    E ah, um texto do Verissimo sobre medo de avião que eu acho engraçado: http://www.quemtemsedevenha.com.br/emergencia.htm

    Parabéns de novo pelo blog e tal :)

    • joão baldi jr.

      Queria só dizer que você realmente aumentou meu nível de identificação com a equipe do Atlético-PR após essa informação (e que quis comentar no texto do seu blog sobre se sentir idoso na internet com uma emocionante anedota sobre quando me convidaram para um casamento via facebook mas não foi possível porque o sistema não deixou. ah, e não consegui ler o texto do veríssimo porque o sistema também não deixou. a culpa é do sistema, sempre)

    • Lili

      Olha, a Nayara é minha conterrânea.
      Me diz uma coisa: você ficou presa no mirante da catedral de Maringá?

  2. ae, João, um pouco antes de ler teu texto, me deparei com essa tirinha http://ultralafa.files.wordpress.com/2011/11/despadrao-ator.jpg?w=454&h=449
    não sei se levo isso como um sinal do universo (estaremos todos condenados ao sucesso dos sósias e atuantes baratos que, no momento final, terão suas existências sobrepondo as nossas, de meros mortais?) ou se dou risada da coincidência e finjo que tá tudo bem, no final pousaremos em paz.

  3. Renata A.

    Morando em Brasília e sendo de Recife, é muito comum pegar voos (maldita reforma ortográfica!) com políticos. Jarbas Vasconcelos, Humberto Costa, Sérgio Guerra.
    Só penso que se o avião cair, o país inteiro vai pensar em mim como dano colateral.
    Terrível!

  4. Graaaande João Baby Jr.! Muito bom, mestre!!!

  5. Naiara Costa

    Que bom que não sou a única a ter medo de pegar carona e ser obrigada a conversar com o dono do carro. E enfim sinto que posso assumir isso publicamente e quem sabe procurar um grupo de ajuda…até pq é meio chato usar a desculpa do “não é vc, sou eu” com quem vc não tá terminando um relacionamento.

  6. ThiagoFC

    “Diante do cara que imita o Pelé não existe a possibilidade de conforto, não existe a esperança de razão, não existe a chance de um sono tranqüilo, não sobrevive a crença humana natural de um final feliz”

    São Paulo? Cara, depois dessa, tô achando que seu avião tinha como destino a Ilha de Lost… Mande lembranças ao Rodrigo Santoro!

  7. “um cara que vive de ser parecido com o Pelé”. chorei. e eu tenho medo de ter medo de avião. mas, acho que é um lance com o desconhecido… porque, a coisa que eu mais tenho medo é tubarão e bem, eu nunca vi um na vida (e acho que tem algo a ver com a morte do Morgan Freeman naquele Do fundo do mar) e nem pretendo, claro.

  8. Imagina então quem pega vôo com o Ovelha? Muita tensão.

  9. Eu amo avião. Amo mesmo, tipo fico super feliz sempre que tenho que viajar, e metade dessa felicidade é pelas poucas horas que passo dentro de <>. Doentio provavelmente, mas eu já tenho muitos medos na minha lista. Os meus maiores medos são meio infantis: escuro e silêncio. Eu sei, doente!

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