Problemas práticos do romantismo teórico – XXIII

Dentre todas as vantagens normalmente subestimadas de um relacionamento estável monogâmico, que vão desde ter com quem rachar aquele milk-shake enorme que você pediu por engano e nunca mais precisar entrar numa festa onde toque David Guetta, passando por finalmente saber o que responder quando aquela sua tia chata vem perguntar quando você vai arrumar uma namorada até ter com quem desabafar quando seu trabalho atinge o grau 19 de absurdo e você fica preso até o final da noite no escritório preparando um fluxograma para notas de falecimento, umas das principais é o fato de que um relacionamento te dá direito as pequenas coisas. Sim, elas, as pequenas coisas, os verdadeiros pontos de diferenciação entre um relacionamento e apenas uma série de ficadas constantes com a mesma menina. Mas vamos por partes.

Tente pensar na sua vida de solteiro e nas especificidades do tempo que você passava com as garotas. Festinhas, bares, boates, shows, no máximo, estourando, um cinema. Tempo na sua casa? Possivelmente no quarto, talvez na sala, um pouco no banheiro, mas definitivamente você não vai deixar ela chegar na sua cozinha e se a garota tentar acessar a área de serviço é o momento em que você deve dizer que não está preparado pra algo sério assim e vocês deveriam sair com outras pessoas.

O fato é que, quando você é solteiro, por mais que saia com uma garota vocês sempre tem metas claras, objetivos definidos, programas instituídos previamente. Sexta é cinema, sábado é choppinho e não existe a possibilidade de que vocês apenas gastem o tempo de bobeira. Ficar é, de uma certa forma, um jogo com objetivos e metas, em que as pessoas estão ali testando, avaliando, analisando e pensando se, pegando a sessão das 21:00, dá tempo de transar e achar um táxi antes da meia noite porque você precisa acordar cedo amanhã pro futebol em Niterói. É um tempo sem pausas, é um tempo com objetivos, é um tempo onde não cabem muito bem as pequenas coisas.

Agora pense num namoro. Num namoro existem pausas, num namoro existem esperas, num namoro existem tardes sem planejamento, existem noites sem um bom programa, existem madrugadas em que um está gripado e o outro só precisa estar ali, existem manhãs em que ninguém vai querer sair da cama e só vão acordar porque o vizinho meio surdo deixou o rádio ligado no máximo e o Flávio Prado começou a falar que o elevador do trabalho dele quebrou e ele precisou subir 16 andares pelas escadas. E ainda que esses sejam programas pros quais você, quando estava solteiro, nunca se convidaria (“ei, gata, topa ir lá pra minha casa pra você ficar deitada se sentindo meio mal na minha cama enquanto eu faço carinho no seu cabelo e pergunto se você precisa de alguma coisa?”) são exatamente eles que definem o seu relacionamento e o que ele representa pra você.

Isso porque o simples fato de você não precisar de planejamento, não depender de programas e objetivos já implica que todo o tempo com aquela pessoa é bom e vale a pena, independente do que vocês estiverem fazendo, de onde vocês estiverem e de quem mais estiver ao redor. E também porque, e isso é uma coisa que você vai perceber se essa pessoa realmente te fizer feliz, essas pequenas coisas, esses pequenos momentos não-planejados, essas pequenas horas gastas conversando bobagens, lendo no sofá, se encontrando em aeroportos ou vendo reprises de filmes do Jean Reno e comentando sobre como a polícia americana as vezes apela no overreacting cinematográfico (“eles tão usando um míssil num prédio cheio de gente, é isso mesmo?”) vão te fazer mais feliz do que aquelas noites esquematizadas e aquelas tardes nascidas do maior planejamento.

E acho que é nisso que a gente caracteriza um relacionamento. Nem tanto pelas grandes declarações, nem tanto pelos grandes eventos, menos pelos grandes feitos e mais pelas pequenas coisas, as lembranças de detalhes, os pontos que na hora você nem percebe, mas que são os realmente importantes. Afinal, você pode ir numa festa com qualquer garota, pode sair com qualquer menina, mas é só com aquela que você realmente gosta que você vai querer ficar em casa fazendo maratonas de filmes antigos da Hammer ou deitar na praia pra comentar sobre como aquela senhora idosa realmente lembra o Morgan Freeman e isso é bem desagradável.

E sim, eu sei, eu acabo de escrever um texto sobre relacionamentos no qual eu mencionei de passagem “O profissional”. Vou colocar isso na lista das pequenas coisas.

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10 Comentários

Arquivado em é como as coisas são, romantismo desperdiçado, teorias, Vida Pessoal

10 Respostas para “Problemas práticos do romantismo teórico – XXIII

  1. iza

    esse pprt é interessante pq pra mim sempre foi um problema distinguir de verdade qual era a parte que me fazia namorar. deve ser isso. porque desabafando, acho a ideia como um todo um problema. mas é verdade, essa falta de objetivo definido, falta de vontade de olhar toda hora no relógio ou descompromisso em sempre precisar planejar é tão… revigorante. sempre achei o critério de algo ir pra frente a capacidade de conseguir “ficar em silencio” ou se desconectar das obrigações.

    p.s. espero que n chegue a sua fase de parar de ilustrar com scott pilgrim. se vc falar de construção civil, receita de pão de mel e antimatéria scott pilgrim ainda vai ilustrar lindamente, ctz!

    abraço, joão.

  2. Sinceramente, acho que nunca tinha pensado em relacionamentos dessa maneira. Sempre fui pelas declarações escandalosas, as discussões exageradas e a saudade espontânea. Mas faz sentido. Discutir o título de um livro por três horas não é algo que se faça com qualquer pessoa (tirando os amigos e numa situação em que todos tenham bebido além dos limites pessoais e de grupo). Lembrar de um (simples) olhar oito meses depois é algo único.

    Lindo texto!

  3. Mariana

    Porra. Você não tem noção do tanto que isso me deixa deprimida por estar solteira há tanto tempo.

  4. Disse tudo. Por aqui faz sucesso a maratona de Donkey Kong…. Ahh o amor!

  5. Eu acho que o bacana da relação é justamente isso, depois de toda a angústia dos três primeiros meses de namoro, vem todas essas coisas, passar a tarde falando besteira sem precisar se preocupar.

    P.S: Tem um tumblr de Scott Pilgrim que consegue postar até hoje, vc colocou pouca coisa, acho que ainda rende muito post. Eu não posso dizer o mesmo das fotos do Rob Liefeld.

  6. Lorran W.

    é bem isso mesmo. Já tem um tempo que estou sem me envolver seriamente com ninguém e as melhores coisas que guardo sobre namoro é essa espontaneidade do simplesmente Estar ali. (isso foi mt gay)

  7. Naiara Costa

    Vc por acaso está monitorando minha vida? hahaha
    Era exatamente isso que eu precisava ler depois desse feriado monótono.
    Acho que estou vivendo exageradamente essa fase das pequenas coisas, e as vezes bate um medinho de que a pessoa que está comigo fique entediada com tantas coisinhas rotineiras, mas são levels que a gente tem que passar juntos.
    E eu acho que preciso logo ver Leon…

  8. já ia filosofar, desisti. você está muito romântico. o legal das pequenas coisas é que elas mostram o quanto aquela situação já se tornou familiar. então, tudo fica com mais cara de realidade (acabei filosofando. ah, deixa pra lá). gostei!

  9. O bom de relacionamentos estáveis, no geral, é exatamente isso. As pequenas coisas que agregam, como passar o dia inteiro no shopping sem fazer nada, conversando sobre a moça da frente que está segurando três bebês. Ou dormir juntos em um sofá de tão cansados do trabalho sem ter que falar uma palavra. Ou aquela ligação em que o silêncio parece normal, não é como nos filmes em que é uma situação forçada.

    Namoro tem dessas coisas bem recompensadoras, de verdade.

  10. que filme é esse? °-° -não é legal fazer isso!
    desculpa não comentar sobre o post mas é que já faz tempo que não leio o blog e resolvi começar pelo post que parei (como nas series *-*) só me prendi aqui pela imagem me lembrou eternal sunshine,
    mas prometo comentar quando ler! o/
    na verdade tenho preguiça de comentar (desculpa) mas pra me redimir quero dizer que já acompanho esse blog desde as primeiras postagens desde antes do templante do blog antigo reunir coisas no fim da pagina e ter a imagem de amigos bebendo em cima. Acho que já leio a uns três anos.
    Eu sei que um dia você vai ser um grande escritor! T_T vai fundo cara!

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