Breves manuais para complexas situações cotidianas – Item #17

Conversar tranquilamente em locais públicos com pessoas idosas de direita – É uma coisa que pode acontecer. Você está num ponto de ônibus, na frente de uma banca, num consultório, perdido num evento familiar da família de outra pessoa, quando subitamente você nota, emparelhado ao seu lado, um velhinho. Suspensórios, boina, possivelmente uma bengala, camisa xadrez, ele te olha e, com uma aparência simpática e displicente, mas olhos levemente ameaçadores e traz à tona algum tema da atualidade que tem possíveis ramificações políticas e sobre o qual você realmente não queria conversar. “Mas essa ocupação da USP, hein?” ou “Mas e esse PC do B, hein?” ou mesmo “E essa coisa de bolsa-família, né, rapaz?”.

Você, jovem um tanto quanto pouco politizado, que sempre se enquadra no partido do “ah, essas são questões complicadas e eu não quero emitir uma opinião sem conhecer todos os lados com risco de parecer leviano porque você sabe que…opa, mas e o flamengo?”, tenta então usar a resposta padrão para discussões gerais – “complicado, né?” – na esperança de que o velhinho apenas perceba que o elevado debate político não é a sua praia, mas o animado idoso persiste. “Eu acho que é assistencialismo puro, sabe? Não tem que dar o peixe, tem que ensinar a pescar, é o que eu acho. Saudades do Geisel, aquilo sim era presidente”. Você sorri e diz “ô…geisel…é”.

Mas ele não está satisfeito e te pressiona. “Mas e você, o que acha? Você tem cara de garoto de faculdade.  Tem essa barba…Deve ser daqueles esquerdinhas”. Você, sem graça, tenta achar uma rota de fuga pra especificar que não tem ligações com a direita, não se sente preso à esquerda e uma das suas maiores decepções políticas foi quando descobriu que o aerotrem do Levy Fidelix não efetivamente voava, mas o velhinho exige uma posição mais contundente. “E greve, o que você acha de greve? Eu acho coisa de bandido. Acho que a polícia devia bater em todo mundo”.

Você nota que não tem escapatória e vai ter que realmente falar alguma coisa. Por um segundo calcula as possibilidades e que tipo de resultado você poderia ter se realmente tentasse explicar pro idoso as suas convicções políticas, sua visão sobre os limites entre assistencialismo e as obrigações orgânicas do estado, sua visão do embate entre as classes, o que você tirou daquelas aulas de economia da faculdade, o que você acredita que seria um melhor projeto de Brasil diante dos desafios desse século, desde nossa posição na geopolítica contemporânea até o combate ao analfabetismo.

Aí você pensa que isso vai dar trabalho, que você está meio com sono. Respira fundo e dispara. “Greve? Greve é coisa que vagabundo inventa pra não ter que trabalhar”. E o velhinho sorri. E aí ele fala sobre manifestações estudantis. E você diz que é coisa que vagabundo inventa pra não ter que trabalhar. E ele fala sobre crise na Grécia. E você diz que é coisa que vagabundo inventa pra não ter que trabalhar. E ele menciona a CPMF. E você diz que é coisa que vagabundo inventa pra não ter que trabalhar. Aí ele fala que o sobrinho está doente. E você está quase dizendo que “isso é coisa que vagabundo inventa pra não ter que trabalhar”, mas consegue se segurar a tempo e solta um “pô, espero que melhore”. E aí você fez um amigo. Mas vai pensar duas vezes antes de parar de novo naquela banca de jornal.

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13 Comentários

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13 Respostas para “Breves manuais para complexas situações cotidianas – Item #17

  1. Lucas

    Nada ganha do velhinho que me garantiu que só anda com bengala para espantar, assustar e, quem sabe, bater em vagabundo e trombadinha. E ele ainda completou dizendo que se sentia GALANTE com a bengala, e eu não poderia estar mais certo.

  2. Égua, isso acontece muito comigo. No ônibus e em fila de banco, principalmente. Em geral eu tento concordar sem me envolver, sabe? E aos poucos, bem de leve, quase que imperceptivelmente tento dizer o que penso, pra ficar de bem com minha consciência. Mas acabo sempre tendo que soltar um “Mas é um bando de maconheiro sem o que fazer mesmo” no final, para evitar que tiozinho me olhe com cara feita.

  3. Rainer

    Não poderia ser mais verdade.Acho que todo mundo passa por essa situação,em que um(a) senhor(a) começa a puxar papo com você em algum lugar,- devido a sua simpatia,você se sente incapaz de ignorar o(a) pobre velinho(a) – e principalmente,todos reagem da mesma maneira,respondendo ao mesmo(a) vagamente,sem especificar e nem puxar papo:

    “é…”,”poisé,né”,”verdade…”,”aham…”,”noss…”

    Agora vem a pergunta (inútil) que sempre me vem quando me acontece isso:
    Será que eles percebem a tentativa de não-prolongar muito o assunto através desses gestos e continuam só para continuarem sendo simpáticos ou simplesmente não percebem/tão nem aí e conversam normalmente?

  4. Lorena

    Passo por isso sempre que vejo meus avós paternos. Acabo praticando tanto as monossílabas ao invés de emitir opiniões que eles acabam tendo que perguntar sobre como vão meus estudos, com medo de que eu tenha desaprendido a falar, ler ou escrever. Também funciona e muda o rumo da conversa para algo menos politicamente complexo.

  5. sou a melhor amiga dos velhinhos. hahahahaha.

  6. Não sei se os velhinhos é que são (pelo menos 90%) assim ou se eu tenho cara de boa menina e eles acham que podem falar comigo na boa, mas me acontece muito. A última vez foi na escola de condução (acho que se diz auto-escola aí no Brasil). Uma senhora mais velha do nada me chamou de filha e todos os dias puxava algum assunto estranho comigo. Já fui à um festival de Jazz com o meu irmão e uma senhora também cismou comigo e até coca-cola ela me ofereceu depois de alguma conversa. Mas eu gosto. As vezes é bem esquisito, mas para mim acaba sempre por ser bem engraçado ou gratificante ( não sei porquê, mas costumam me oferecer coisas).

  7. ThiagoFC

    Eu acho que o sobrinho dele tá de desculpinha vagabunda pra não ter que trabalhar, que vai dar um migué pra se aposentar e mamar nos impostos que sugam o sangue dos banqueiros (essa classe que arrasta o desenvolvimento do Brasil às duras penas) e que a polícia tinha mais é que descer o porrete nele.

    Ah, e quando a Revolução lulo-marxista-leninista acontecer, esse velhinho (se ainda estiver vivo) vai ser um dos primeiros no paredão de fuzilamento!

  8. eita, joão! sempre exato!!!!

  9. Naiara Costa

    E é por isso que eu vou me divertir muito qndo for velha… afinal de contas é um direito que se conquista, poder puxar assuntos aleatorios em todo lugar que se vai.

  10. O pior é quando esse velhinho é seu próprio avô, que mora na sua casa hehheheh Todas as vezes que tento falar o que penso, ele manda a sua resposta pronta: ”Você só tem 18 anos, não conhece a vida.” Fazer o que, né?

  11. Eu tento sempre usar a tática do sorria e acene. E é impressionante a quantidade de desconhecidos que me abordam na rua pra conversas desse tipo, eu devo mesmo parecer amigável.

  12. HAHAHAHA. Bom pacaraio!

  13. Pensar que é uma pessoa entediada, deixa o papo rolar.

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