Movie Review #16 – “Os Muppets”

 

Uma coisa que fica cada vez mais clara é que vivemos na era do “humor de borda”. Sim, o humor que está tentando desafiar convenções, o humor que está lutando desesperadamente pra ser “inteligente”, o humor que quer se mostrar politizado, o humor que quer dar tapas de lado de mão na cara da sociedade, levar até seus máximos limites a discussão sobre responsabilidade jurídica e deixar a esquerda atônita, a direita confusa e os adolescentes de centro discutindo inconclusivamente no twitter.

E diante desse humor que tem os mais diversos objetivos e acaba várias vezes deixando de lado algumas das premissas básicas nas quais deveria se sustentar – ser engraçado, por exemplo – várias vezes a gente se pega sentindo falta do humor garoto, do humor moleque, do humor de pés descalços, mais ingênuo e infantil, que mais do que te fazer refletir sobre a humanidade, dissertar sobre a vida e a morte ou mesmo questionar os limites humanos do mau-gosto, tem apenas a intenção de te fazer rir, ter umas duas horas agradáveis e não precisar acompanhar o desenrolar de cada uma das piadas através das manchetes dos jornais. E é nessa categoria, praticamente esquecida, que se encontra o novo filme dos Muppets.

O filme parte de uma premissa simples: após a aposentadoria dos Muppets, que não se apresentam há anos, seu antigo teatro se torna alvo da cobiça de um magnata do petróleo e cabe a Kermit – o artista outrora conhecido no Brasil como Caco – com a ajuda do seu maior fã, Walter, reunir toda a antiga trupe para um último show, que precisa render dez milhões de dólares, dinheiro o bastante para que eles paguem a antiga hipoteca. E desse conceito nada complexo nasce um filme que foi não apenas capaz de distrair durante uma hora e quarenta algumas crianças que pareciam significativamente exigentes – ou ao menos é essa a minha opinião sobre qualquer ser humano que troque de poltrona seis vezes antes de começar a projeção – como também arrancar diversas risadas de todos os adultos na sala. E não, não falo de risadas irônicas, diversão irônica ou nada hipster assim, falo da boa e velha diversão que apenas fantoches cantores em formato de animais podem proporcionar, amigos.

E os Muppets conseguem isso combinando doses significativas de simplicidade e inocência – temos os musicais, temos os personagens clássicos, temos a percepção constante de que o nosso protagonista tem uma mão humana dentro dele – com referências de cultura pop e um velado tom de ironia – o filme brinca com algumas das convenções do gênero e mostra uma enorme capacidade de rir de si mesmo – num filme que moderniza os Muppets para uma nova geração sem em nenhum instante perder a essência do que tornava esses personagens engraçados para as pessoas da minha idade. Ou, sendo mais claro: Gonzo ainda é lançado de dentro de um canhão, tá tudo bem, galera.

Isso leva, claro, a outra característica clássica dos Muppets que se manteve intacta: as participações especiais. Sejam pequenas pontas como Dave Grohl substituindo Animal na bateria da banda de Fozzie e Feist cantando durante um dos primeiros números do filme ou papéis maiores como o de Jack Black (em sua melhor atuação desde “Escola de Rock”), o filme é cheio de pequenos toques e referências que tornam ainda mais divertida a história, além do trabalho brilhante de Chris Cooper como o vilão Tex Richman (“risada maligna, risada maligna”) e de Jason Segel e Amy Adams como os protagonistas humanos.

Ou seja, no todo, “Os Muppets” é um filme alegre, inteligente, engraçado, com boas canções – e olha que eu vi na versão dublada – e que garante quase duas horas de diversão leve e saudável. Então ainda que tenhamos nos acostumado a, quando pensamos em filmes que podemos ver tanto com nossos pais quanto com nossas namoradas ou sobrinhos, procurar pelos desenhos da Pixar, é bom lembrarmos de quem já fazia isso muito antes do Woody ou do Buzz saírem da caixa de brinquedos. Porque sim amigos, as marionetes – e os fantoches de mão, e aqueles bonecos que parecem ser caras dentro de roupas e que me davam medo pra cacete quanto eu era criança – estão de volta na cidade. E espero que tenham voltado pra ficar.

7 Comentários

Arquivado em crise de meia meia idade, Movie Review

7 Respostas para “Movie Review #16 – “Os Muppets”

  1. Eu NUNCA vou me acostumar a chamar o Caco de Kermit.
    Como eu acho um absurdo chamar o Ursinho Puff e “Winnie the Pooh”, e um atentado à moral e bons costumes chamar a fada Sininho de Tinker Bell.

    Tá aí um filme que eu vou baix…. digo, comprar ingressos para o cinema, pra ver com meus filhos.

    • Mateus

      Fora q a adaptação de nomes estrangeiros pro bom e velho português coloquial costuma dar resultados superiores aos originais: vide o Sr. Madruga e o Doutor Silvana.

  2. O filme é tão bacana que eu consegui abstrair o fato de ser dublado e o Caco sendo chamado de Kermit, ainda que pra mim ele seja eternamente Caco.
    E as piadas metalinguísticas são sensacionais, adotarei risada maligna.

  3. Gostei, achei bacana e divertido mas vê-lo dublado prejudicou muito e é uma pena que não tive outra opção já que em minha cidade nenhuma cópia legendada foi disponibilizada, mas isso é assunto pra outra discussão

  4. adoro filme assim. me canso muito dessa necessidade de hoje em dia, a qual você muito bem descreveu aí em cima. que bom que os Muppets voltaram à ação. (:

  5. Parafraseando o apóstolo João “Não digo isto como novo mandamento”, pois não tenho autoridade para tanto.

  6. Bela análise! Não sei se verei o filme. mas se não tivesse lido isso, não veria com certeza.

Deixe uma resposta para Marcio Melo Cancelar resposta

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google

Você está comentando utilizando sua conta Google. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s