Breves teorias natalinas – Item #88

E chega o mês de dezembro e junto com ele o natal e suas tradições. Os panetones e as rabanadas, os frangos transgênicos e os supermercados com trilhas sonoras que claramente são versões baixadas em torrent daqueles discos de natal que a Som Livre vendia por telefone em meados da década de 90, os tios do pavê e as piadas sobre músicas da Simone que já não eram muito originais na época em que as pessoas ainda faziam cara de surpresa quando alguém vinha contar que o Papai Noel tinha sido inventado pela Coca-Cola (“por isso ele se veste de vermelho, sabia?”). E claro, entre todas essas coisas que não podem faltar no natal estão elas, as lembrancinhas.

Sim, lembrancinhas. Aquele típico sub-presente, quase sempre dado por tias, avós, mães de amigos e colegas de trabalho exibicionistas, e que consiste em algum objeto de pequeno valor cuja função é dizer que, ainda que  não tenha sido presenteado com algo mais significativo, você foi sim lembrado – daí o nome “lembrancinha”. Ou seja, uma atitude bonita, uma ação gentil, um comportamento que, em tese, está cheio apenas das melhores intenções e vai até de acordo com o verdadeiro espírito do natal – porque, sinceridade, ouro é bacana, mas incenso e mirra não são exatamente presentões. Baita cara de coisa comprada de última hora em feira hippie, sabe? Mas deixemos isso de lado e vamos analisar mais friamente o conceito da “lembrancinha”

Primeiro pelo que ele é de fato: um presente de menor grau, que claramente custou menos e exigiu menor esforço e dedicação. O que, ainda que tenha a intenção de dizer que a pessoa gosta demais de você para não te dar nada, diz ao mesmo tempo que ela não gosta de você o bastante para te dar um presente de verdade. Ou seja, vamos encarar os fatos e entender que, mais ou menos como aquele seu colega que te chama pra cerimônia de casamento mas não pra festa e aquela garota que disse que gostava de você mas só como amigo, uma lembrancinha é uma forma, enrolada em papel natalino e possivelmente comprada numa loja de brindes, de dizer “gosto de você, mas nem tanto”.

Segundo porque existe na idéia da lembrancinha uma certa vulgarização do presentear. Afinal, um presente é algo pensado, elaborado, personalizado, que exige dedicação e cuidado para que se consiga ao menos uma certa compreensão dos anseios e desejos da pessoa querida e ela possa receber algo que seja significativo tanto pra ela quanto pra quem presenteia. Já a lembrancinha, um presente padronizado, quase sempre comprado em lotes e que não leva em conta as particularidades do presenteado, vulgariza o processo, abstraindo dele todo o romance e toda a magia, deixando de lado o presentear arte e buscando sempre o presentear pragmático, de resultados. Ou seja, a lembrancinha te despersonaliza, passando por cima das coisas que definem você, seus sonhos, ambições, projetos pessoais, te transformando apenas num número, um objeto, um alvo para uma caneta ou uma caixa de chocolate comprada num aeroporto. A lembrancinha, de uma certa forma, nos torna menos humanos.

Ou seja, antes de dar um chaveiro, uma caneca, de oferecer um pacotinho de kit-kat, se pergunte: eu quero mesmo presentear essa pessoa? Eu preciso mesmo fazer isso? Eu estou presenteando esse meu colega/amigo ou apenas meu próprio ego? Quando dou essa lembrancinha de Paris eu estou tentando demonstrar afeto ou me vingar daquela desavença pessoal declarando sutilmente que enquanto eles estavam aqui conferindo relatórios eu estava ficando bêbado na França e transando com uma garota chamada Ninette? E só depois desse exame de consciência, se o seu coração ainda disser que sim e suas intenções forem puras dê alguma lembrancinha.

A não ser, claro, que as suas lembrancinhas sejam sabonetes. Sério, se for isso apenas jogue tudo fora. Não sei quem raios inventou que sabonete é presente, na boa. Foda esse tipo de coisa.

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13 Comentários

Arquivado em é como as coisas são, crise de meia meia idade, situações limite, teorias

13 Respostas para “Breves teorias natalinas – Item #88

  1. Cara, vejo as lembrancinhas pelo lado bom: você nunca espera nada delas e, provavelmente da pessoa que presenteia, então o que vem é lucro. Pior é participar de um amigo oculto ou estar na festa de natal da família e ganhar cuecas ou meias. Fala sério! Isso é o fim.

  2. lila

    desconfio que foi a natura que inventou que sabonete é presente. todo ano tem pelo menos uma ou duas caixas de sabonetes “bonitinhos” entre os kits de natal, dias das maes etc ¬¬

  3. Pior que lembrancinha, só mesmo lembrancinha no amigo oculto. Aí sim é foda.

  4. Rapaz, mirra me fascina. Tipo, é um mistério! Onde mais você já ouviu falar de mirra? Só na historinha lá dos três reis magos e, depois ou antes disso, nunca . Ninguém nunca mais deu mirra de presente pra ninguém, não há documentos históricos, nada.
    Daí, fui procurar no google, claro, e tcharan: usada em produtos aromaterapêuticos, tipo sabonetes. Tipo sabonetes de lembrancinha. Caramba! Mirra era o sabonetinho da época dos três reis! Acho que eles que inventaram a ideia!

  5. Lili

    Putz, vou ter que dar aquela caixa de sabonetes pra outra pessoa. Mas eu compro uma lembrancinha bem legal pra você ali na feirinha da Carioca. Incenso, talvez.

  6. Já comprei minha caixinha de papai noel de chocolate pra dar de lembrancinha e você não está na lista. Morra de inveja!

  7. Cara, a lembrancinha também pode querer dizer outra coisa, e é esse meu caso: a pessoa que dá a lembrancinha tá na pindaíba financeira, sem grana pra comprar algo melhor, mas não queria deixar passar batido. Meus filhos e minha sobrinha (que também é minha afilhada!) vão ganhar lembrancinhas no Natal, minha esposa talvez ganhe algo, e o resto da família fica só com o “feliz Natal!”.
    Não é que eu não goste deles. É que eu escolhi ser jornalista, e essa profissão paga mal pra cacete.
    Eu sou pão-duro? Sou, mas esse é apenas mais um detalhe….

  8. Loló

    também sempre liguei o fato de dar lembrancinhas com a liseira, falta de grana. e assim… a generalização, o fato de lembrancinha não ser especial e tal, cê tá por fora. pessoas lisas têm muito trabalho para achar algo bacana mesmo barato. você foi mais para o lado de brindes… ou melhor, gente que dá brindes como lembranças. aí é foda. concordo total. melhor não dá. passo sem tranquilo.

  9. “Não sei quem raios inventou que sabonete é presente, na boa. Foda esse tipo de coisa.” HAHAHAHAHAHA
    ADOREI!!
    Minha mãe teria que ler esse texto pra ver que não sou só eu que penso assim. hahahaha
    Mais um texto ótimo. :)

  10. E ainda há quem reclame de cuecas e meias, sabonete é muito pior. Vai que a cueca que você ganhou é uma cueca bacana, de marca e tal? Nesse caso é válido dar cueca?

  11. estava esperando você falar dos sabonetes. hahahaha.

  12. Não acho sabonete tão mau assim…se estiver inserido num kit de higiene (shampoo, condicionador, sabonte líquido, água de colónia, perfuminho barato, esponja para o banho e creminho perfumado). Porque aí, ainda é um pouco esquisito, mas pelo menos já teve um maior esforça para dar o upgrade na básica barra de sabonete com pedaços de fruta e aroma de flores (apesar de, provavelmente, ter sido o mais barato e despreocupado kit da loja toda, incluindo 3 filiais).

  13. hahaha. ri muito, principalmente quando foi retomada dicotomia: arte x pragmático (ou de resultados).

    você é o cara, Baby.

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