Sobre o apê novo, o espírito das casas e aquela epifania envolvendo a melancia

Uma das coisas que a gente só consegue perceber quando chega numa certa idade é que boa parte do processo de crescer e envelhecer consiste em deixar de lado uma certa visão mágica e emocional do mundo em prol de uma abordagem mais racional e técnica de como as coisas funcionam. Presentes não são dados por um velho mitológico de barba de acordo com o nosso comportamento e sim pelos nossos pais de acordo com os rumos da economia, ovos de páscoa não são produzidos e escondidos por coelhos felpudos e sim disputados a tapa num estande das lojas americanas, bebês não são entregues por aves engraçadas e sim produzidos numa complexa atividade física entre humanos na qual sua mãe, após o divórcio, fez questão de ressaltar numa reunião de família que seu pai nunca foi tão bom assim.

E no meio de todo esse processo de abandono das pequenas ilusões e conceitos que nos separavam e protegiam da realidade, um dos mais sutis e que nós temos mais dificuldades para abandonar é a idéia de casa. Sim, casa, esse lugar mágico onde, quando nós éramos crianças, a comida aparecia automaticamente na mesa, o quarto amanhecia bagunçado mas subitamente se arrumava antes que a gente voltasse do colégio e o nosso máximo de esforço em termos de manutenção doméstica era gritar “mããããe, esqueci a toaaaaaalhaaaa” e reclamar porque não entendia a razão daquela mulher demorar tanto pra resolver uma coisa tão simples.

Não que a mudança não seja gradual, claro. Afinal, conforme crescemos vamos nos aprofundando cada vez mais nos mistérios da casa e entendendo como ela funciona. Aprendemos a manutenção em pequena escala ganhando o controle de um quarto, entendemos que a comida não aparece sozinha ajudando a carregar sacolas de mercado, descobrimos a importância de saber guardar as coisas quando somos obrigados a ter uma conversa séria com nossas mães sobre aquela caixa cheia de pornografia japonesa com colegiais, óculos, pinguins e cordas, mas ainda assim contamos com a supervisão de um pai, uma mãe, ou outro adulto que conhece mais sobre o espírito das casas e é, ele sim, o verdadeiro responsável pelo mistério que é o funcionamento de um lar propriamente dito.

E aí vamos crescendo. E moramos em repúblicas, e dividimos apartamentos, e ainda que praticamente adultos, não somos obrigados a lidar diretamente com a casa, no cara a cara, de homem para habitação. Temos amigos que tiram o lixo, colegas que pegam o que sobrou do queijo, irmãos que colocam a roupa do varal, numa espécie de divisão das tarefas que faz com que ninguém precise entender do todo, num fordismo da habitação onde cada um tem sua função específica mas ao mesmo tempo tem o seu back-up preparado, dividindo as responsabilidades e a sensação que as tarefas geram.

Até que você, é claro, vai morar sozinho. Sim, sozinho. E existe a mudança, e existem os móveis, e existem as contas, e existe o técnico da NET que usa o fio do telefone pra plugar o receptor no roteador e deixa o aparelho em si pendurado sozinho na parede. E claro, por um tempo a sua namorada fica, e ela indica onde colocar os móveis, e ela ajuda a pendurar o varal, e ela descobre o macete de fechar o boxe – além de rir um pouco de você pelo jeito como você quase cai sempre que vai ligar o ar-condicionado. Mas numa certa hora até ela precisa ir embora e aí fica ali você, sozinho, finalmente tendo que aprender a lidar com esse mistério chamado casa.

E é basicamente aí que você entende. Entende que o lixo não se recolhe sozinho, entende que se você não lavar a louça ela vai mesmo ficar ali, entende que se você colocar aquele pote de carne sem tampa na geladeira tudo vai ficar com gosto de carne por umas duas semanas e existe uma boa razão pela qual nunca lançaram o gatorade sabor lombinho canadense. É ficando sem back-up e sem plano b que você entende que a casa tem sua própria dinâmica, que um apartamento de dois quartos gera tantas micro-responsabilidades quanto governar a Albânia, que o pessoal da tok stok sempre monta tudo no cômodo errado – “sério, porque a minha mesa de jantar está no meu banheiro, isso nem faz sentido” – e que, se você viajar numa sexta-feira e deixar uma melancia na bancada da cozinha até domingo quando você voltar vão existir tantos insetos e cheiros e problemas e você vai se sentir extremamente constrangido ao contar isso pra qualquer pessoa porque todo mundo vai te olhar como se você fosse meio retardado – “meu deus, joão, uma melancia, cara, no que você tava pensando?”.

Mas isso, como todo resto, é parte do processo de crescer, seja lavando a própria louça, comprando os próprios móveis, trocando a própria roupa de cama, pendurando a própria cortina ou entendendo que se você colocar uma conta no débito automático vai ter que colocar todas, porque se você deixar uma de fora vai acabar pagando o gás duas vezes e atrasando a luz até ser cortado. Fora que, eu tenho certeza, algum dia aquelas mosquinhas que apareceram na melancia vão sumir da cozinha. Tipo, já passou quase uma semana, eu lavei tudo seis vezes, não faz sentido aqueles bichos continuarem lá. Sério, no que eu tava pensando?

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25 Comentários

Arquivado em é como as coisas são, crise de meia meia idade, homens trabalhando, situações limite, teorias, Vida Pessoal

25 Respostas para “Sobre o apê novo, o espírito das casas e aquela epifania envolvendo a melancia

  1. Camila Abreu

    É demais a forma que você narra as coisas! Adorei!
    Leio o blog a muito tempo, mas nunca tinha comentado…rs :o]

  2. Lorran W.

    Tava com saudades dos seus textos, jão!

  3. Lorena

    Fico feliz por não ser a única que não gosta de água sabor carne congelada.

  4. Pense sempre que antes uma melancia do que uma jaca, certo?

  5. ana tereza

    Tb estava com saudade dos seus textos e ia ate te ligar pra saber se o pessoal da net já tinha aparecido….fiquei esperando o pior vindo deles!
    Vou aproveitar a minha experiência de 1 ano morando sozinha (na parte cuidados com o lar, papai pagava boa parte das contas) e te dar um conselho compre frutas individuais…melancia João!?!! uva é legal, morango, poucas bananas, mexerica, manga, ameixa, jabuticaba e etc. hahahaha
    Boa sorte com os ralos tb…sempre é bom deixar uma agua correr pra evitar que o cheiro ruim volte (eu não sei de onde vem o cheiro se é esgoto ou agua parada mesmo).
    Tudo de bom pra vc no apt novo!

  6. Diego Tavares

    Cara, uma melancia, sério? Inteira ou aquelas cortadas?

    Tava fazendo falta por aqui já, bicho. Bom retorno.

    • joão baldi jr.

      Acho que era 1/4 de melancia, sabe? Mas pô, pra uma pessoa só foi bastante, preciso começar a comprar pedaços menores

  7. gabrielo

    fico me imaginando em uma situação dessas, não sei como reagiria a uma invasão de insetos na cozinha.

    ainda bem que vc voltou com o blog cara!!!

  8. Lili

    Que bom que você não resistiu e voltou antes de março. Mas…melancia, João? Francamente! Tsc, tsc, tsc.

  9. Cara, que bom que estás de volta.
    Você escreve muito bem… São otimos seus texto.
    Vire um grande admirador do seu trabalho. Parabéns!

  10. o SEU quarto “amanhecia bagunçado mas subitamente se arrumava antes que a gente voltasse do colégio”, que fique claro isso.

  11. O_Pulga

    Primeira vez que vejo alguém gaguejar para escrever:
    “sobrou do que queijo”

  12. melhor parte: fordismo da habitação. hahahahaha. uma melancia?

    • joão baldi jr.

      Gosto de melancias, sabe? Muito líquido, muito sabor. Apenas gostaria que a galera da manipulação genética criasse uma “melancia thompson”sem as sementes. Fico na torcida.

  13. Inês

    hahahahahaha, se serve de consolo, as mosquinhas de fruta levaram muito tempo pra deixarem minha casa também!

  14. Henrique

    Tava no Canadá também?

  15. Lucas

    me identifiquei imensamente com tudo, mas em principal com AS MOSQUINHAS. cheguei a procurar tutorial de como expulsar as mosquinhas em definitivo da cozinha e não achei. elas não morrem com SBP.

    o único problema que eu tenho a mais que você é uma quantidade IMENSA de baratas que surge todos os dias. um final de semana e tinham 12 mortas dentro de casa. uma maravilha.

    tô há 6 meses morando sozinho e aviso: não melhora.

  16. jonas

    velho o texto nao tem nem uma conclusao, voce só tava falando da vida? vai se foder

    • joão baldi jr.

      Os textos sem conclusão são um protesto contra a censura na internet, sabe como é. Meu blog só vai voltar a ser uma espécie de wikipedia quando vetarem o SOPA, desculpe.

  17. Clara

    A dica pra acabar com as mosquinhas é um tanto mórbida, mas funciona: aquelas raquetes elétricas. Custam uns 10 reais e matam os insetos sem sujeira nem traumas (pra gente, pra eles eu acho q não deve ser tão legal).

  18. Neo Charles

    Bom! Crescer é algo em si muito misterioso, mais misterioso é o mundo que nos rodeia sem que o percebamos. Parece que uma casa tem vida própria… e tem suas próprias conclusões!

  19. Viver sozinho…uma aventura, uma loucura! Eu amo viver sozinha. Mas realmente faz falta alguém para fazer as coisas por nós. E eu não sabia essa da melancia, pelo menos não cometerei esse erro, obrigada.

  20. Camila Rodrigues

    Nossa, adorei o seu blog! Fiquei conhecendo num post seu no Papo de Homem sobre a gentileza social. Bacana demais! Parabéns!!

  21. Cara, seus textos são facinantes, sério, sou um grande admirador do seu trabalho.

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