Sobre Drive, rudimentos de interpretação cinematográfica e a eterna semiótica do palito de dentes

Dentre todas as fascinantes características das obras de arte contemporâneas, uma das mais intrigantes, senão a mais intrigante de todas, é a de sua indeterminação, de sua posição como obra aberta, por assim dizer. Isso porque, sendo exposta a quantas interpretações quanto for seu número de leitores, ela nunca se esgota, com cada observador participando ativamente do processo criativo e da busca por significado. E claro, ao mesmo tempo em que, no aspecto positivo, isso quer dizer que a obra de arte sempre se renova a cada leitura já que todo novo leitor tira dela um sentido diferente, no aspecto negativo isso quer dizer que alguns leitores, várias vezes a maioria deles, vai apenas viajar grandão, ter um monte de idéia errada e ir pra casa achando que Cocoon era um filme pornô porque tinha idosos em traje de banho. Sério, tem galera que faz isso mesmo.

No cinema, por exemplo, os casos são inúmeros. Pessoas que tomam “Conduzindo Miss Daisy” como um filme sobre a questão racial quando na verdade ele critica o sistema de transporte público, galera que entende “Toy Story” como um filme sobre infância e amizade quando se trata de possessão demoníaca e objetos inanimados que se movem durante a noite, rapaziada que vê “Rei Leão” e não nota a clara propaganda pró-adoção e o reforço positivo dos resultados da criação de bebês por casais interespécies do mesmo sexo – Timão e Pumba. E o mais recente caso de filme em que a galera claramente não está conseguindo pegar o espírito da coisa é o possivelmente oscarizado Drive, do diretor dinamarquês Nicolas Winding Refn.

Afinal, enquanto alguns classificam “Drive” como um noir contemporâneo, um violento drama de ação, um elegante exercício em termos de estilo, uma emocionante história sobre um herói existencial, definido não por suas palavras, mas por seu comportamento, o filme claramente é muito mais do que uma trama de assalto, mais do que uma história de perseguições e mais do que uma observação sobre como você não precisa nem mesmo saber falar pra pegar gatinhas quando você se parece com o Ryan Gosling. Não, amigos, Drive é muito mais do que isso. Drive é uma elaborada, apaixonada, dramática e incisiva defesa do hábito de usar palitos de dentes. Sim, palitos de dentes.

Mas por que palitos de dentes? Pela simbologia, amigos. Afinal, existe uma boa razão pela qual eles foram escolhidos como principal traço definidor de personalidade de um personagem com tão poucas falas, tão pouco passado, um personagem sem monólogos internos, sem narrativas em off. Eessa razão é que o palito de dente diz basicamente tudo que é preciso dizer sobre uma pessoa. O palito denota autenticidade, o palito demonstra coragem para buscar a utilidade em detrimento da estética, o palito representa a disposição em desafiar a sociedade, ignorar o status quo, caminhar de cabeça erguida contra a censura e a autoridade instituída. O palito significa o constante desafio, a incessante busca, o interminável conflito, a eterna preparação para o confronto e a possível certeza de que no banheiro daquele bar não vai ter fio dental então é melhor se preparar se for pedir porçãozinha de carne assada porque gruda tudo no dente e vira um inferno.

O palito simboliza a coragem de ser diferente, de quebrar as regras simples, mas não pela vontade de chocar, não pelo ímpeto iconoclasta pós-moderno que nos leva a fazer tatuagens faciais, derrubar sites e calçar crocs laranjas num casamento, mas sim pela vontade de moldar o mundo de acordo com a nossa conveniência, de buscar a nossa satisfação mesmo quando ela foge dos padrões pré-estabelecidos e das regras sociais. O palito é um símbolo da rebeldia introspectiva, da resistência silenciosa, discretamente escapando por entre os lábios, sutilmente apontando ao mesmo tempo para fora e para dentro.

E essa é, no final das contas, a verdadeira mensagem do filme, o verdadeiro sentido, a genuína rebeldia. Porque o que torna o piloto sem nome de “Drive” um rebelde, um fora da lei, mais do que a jaquetinha de escorpião, mais que os crimes, mais do que as corridas, mais até mesmo do que aquele lance tenso envolvendo o martelo é a coragem de sair por aí usando um palito de dente quando poucos outros ousariam. E possivelmente nada nesse mundo te torna mais ousado, mais rebelde, mais autêntico, do que tirar aquele lance que está preso no seu dente do jeito que você quiser, sem se preocupar com o que os outros vão dizer.

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5 Comentários

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5 Respostas para “Sobre Drive, rudimentos de interpretação cinematográfica e a eterna semiótica do palito de dentes

  1. Henrique

    João, muito boa a análise sobre o papel do palito na sociedade. Me lembrou”Dreamcatcher”, onde um personagem morre justamente ao tentar proteger toda essa tradição, essa simbologia, essa filosofia, esse estilo de vida proporcionado pelo palito.

    Agora, no início do texto não ficou muito claro, para mim, se você critica positiva ou negativamente essa nova ‘tendência’ que você define como uma indeterminação da obra.

    A propósito, achei Drive, juntamente com Warrior e alguns outros poucos, um dos melhores filmes de 2011.

    • joão baldi jr.

      Dreamcatcher, boa lembrança, tá aí um filme que merecia mais carinho e compreensão do grande público.

      Sobre a obra aberta, acho que quanto mais interpretações mais rica a obra se torna, e quanto mais bizarras elas forem, mais feliz eu me torno no processo, porque sou uma pessoa que se diverte com coisas erradas, claramente.

  2. Usar crocs já é um ato de rebeldia, mas o fato de usar croc laranja em um casamento é praticamente mostrar ao mundo que você é um espírito livre indo contra todas as amarras da sociedade.

    E Drive é sensacional, eu acrescentaria além da cena do martelo aquela do elevador.

  3. Rainer

    “(…)o filme claramente é muito mais do que uma trama de assalto, mais do que uma história de perseguições e mais do que uma observação sobre como você não precisa nem mesmo saber falar pra pegar gatinhas quando você se parece com o Ryan Gosling.”

    Uma das maiores verdades ditas nesse post.O cara não diz nem o nome dele pra mina.Ele só dá aquele olhar 43 pra ela e já era: No outro dia ele já faz parte da família já.Só faltou a muleque chamá-lo de papai.

  4. Excelente texto, muito divertido e, como você mesmo especificou na sua introdução, ele é aberto a diferentes interpretações, principalmente para aqueles que acham que Cocoon é uma comédia pornô com pessoas da ‘melhor idade’.

    Quase um “inception”, parabéns. Depois daqui as outras análises sobre “Drive”(principalmente a minha) se tornaram completamente desnecessárias hehehe.

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