A fantastic fear of everything

Eu nunca fui um cara corajoso. Nunca. Sabe aquelas histórias de crianças que fazem as coisas mais absurdas, se penduram nos lugares mais altos, brincam com as facas mais afiadas, pegam qualquer coisa em qualquer lugar e colocam na boca? Eu nunca fui assim. Eu era a criança que ficava sentadinha direito na cadeira, eu era o garotinho que tinha receio do porta-talheres, eu era o bebê que não apenas não pegava coisas do chão como possivelmente partiu direto do “gugu”, “dada” e mamãe” para “isso se encontra devidamente higienizado, minha boa senhora? não me venha com rodeios”.

Isso também se manteve, é claro, durante a minha adolescência. Sabe aquela fase em que você acha que é invencível, imortal, nada pode te afetar e portanto dá pra dirigir sem carteira, transar sem camisinha, chegar bêbado na filha do delegado e passar a mão na bunda do cão policial? Também nunca tive disso, é claro. Sempre tive enorme consciência da minha falibilidade, da fragilidade dos meus ossos, da distensibilidade dos meus músculos, dos perigos da direção negligente e do fato de que se eu transasse sem camisinha, com a minha sorte iria não apenas contrair 6 dsts como também a gripe espanhola e logo depois ser atingido por um meteoro que me confundiu com um dinossauro.

Houve, é claro, alguns breves episódios em que eu tomei atitudes corajosas e vagamente insanas, mas eles tinham muito menos a ver com qualquer surto de bravura interior do que com meu temperamento facilmente provocável – “duvido que você tira a rouba e pega o ônibus coberto apenas por essa pele de marmota presa numa tábua” – e minha compulsão por ganhar apostas – “27 centavos se você entrar sem calças nessa arena de rodeio e voltar passando por baixo da cerca” – além de uma vaga compulsão dos meus amigos por me ver de cueca, já que grande parte das provocações ou apostas envolvia eu tirando minhas calças, agora que reparei. Mas não quero pensar nisso.

E o ciclo, é claro, continua. Outrora um garotinho covarde e depois um jovem cheio de receios e preocupação, me tornei um homem adulto cuja falta de coragem tem reflexos tanto na vida pessoal quanto profissional, já que quase nunca falo em reuniões, evito me colocar em situações desafiadoras no trabalho, nunca atendo números desconhecidos no celular e tenho pouca ou quase nenhuma experiência com one night stands porque se uma garota que eu mal conheço diz que quer ir pra minha casa eu penso que ela faz parte de uma gangue e se ela diz que eu devo ir pra dela eu automaticamente lembro daquele episódio de Nip/Tuck sobre tráfico de órgãos. Sério, eu sabia que não devia ter visto aquilo.

Não que eu não me esforce, não que eu não tente mudanças ou busque adicionar um pouco mais de coragem ao meu temperamento esquivo e receoso – ainda mais depois que eu manifestei meu medo de ficar de pé numa escada de1,5 m e minha namorada disse que eu estava sendo muito bichinha – mas a verdade é que no frigir dos ovos eu claramente sou uma pessoa nada corajosa, um bocado neurótica e deveria aceitar que arroubos de bravura ou atitudes impulsivas e impensadas realmente não fazem parte da minha personalidade.

Até que, é claro, um cara que eu conheço só pelo twitter me convida para comparecer, à meia noite de quinta pra sexta, numa quadra isolada na Praia do Flamengo para jogar uma pelada com mais várias pessoas que eu nunca vi antes e eu aceito sem hesitar, caminhando pelas desoladas ruas do Catete às 23:45 e me deparando com mendigos deitados no chão, senhoras idosas que caminham com tanto medo que caem em bueiros e bêbados que te cumprimentam e sentam ao seu lado para defecar no chão.

E sério, agora eu vou ter que repensar toda a minha personalidade. E sim, o futebol gera mesmo reações muito esquisitas nas pessoas. E cara, o Catete fica muito esquisito depois de um certo horário, na boa. Precisa olhar demais onde tá pisando, é foda.

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8 Comentários

Arquivado em é como as coisas são, crise de meia meia idade, Futebol, Rio, teorias, Vida Pessoal

8 Respostas para “A fantastic fear of everything

  1. Diego Tavares

    Verdade, cara, mas na última pelada você ficou alertando a todo mundo o perigo de jogar com desconhecidos, de jogar contra o Montillo drogado e de jogar com as dimensões da quadra considerando não a marcação em tinta mas o fim do cimento, lembra? Tá tudo bem agora.

    • joão baldi jr.

      E admito que quando me contaram que o cara de camisa do River Plate processava as derrotas enchendo os bolsos de pedra e atirando nas coisas eu fiquei bem receoso também. Pô, me sinto bem melhor agora, sério.

      • Diego Tavares

        Cara do River Plate também conhecido como “cara que anulou um gol porque supostamente o goleiro pegou a bola fora da área”, que não faz sentido nenhum, já que o goleiro não pegou fora da área, e mesmo que pegasse o gol teria que ser validado, que carinha simpático.

  2. Lorran W.

    Cara, lembrei de um primo. Ele é mt “pacato”, daqueles que falam pouco e tudo mais (ou menos). Mas quando ele tá numa pelada parece que ele incorpora. Grita, corre, e até xinga! Nunca entendi isso

  3. Mothaflocka

    Eu também nunca fui muito corajoso.Eu sempre pensava – e ainda penso,pra falar a verdade -, em tudo que pode dar errado. E nas poucas coisas que eu tive coragem de fazer, eu sempre me dava mal como esperado. Também não falo muito, apesar de não ser pq eu tenha medo de algo,mas pq a unica reação que consigo pensar quando alguém está me contando algo é: “…uhum.”
    E,pra fechar com chave de ouro, meu medo de insetos – dos grandes,e principalmente os que voam -. Bom, não seria exatamente medo, eu tenho plena noção das capacidades do inseto e da minha pessoa, mas há algo naquela criatura que me impede de agir de imediato quando ela aparece,de repente,bravamente vindo em minha direção, destemido, confiante.
    Por sorte minha e da minha masculinidade, poucas pessoas sabem disso, e todos os meus momentos em que eu sou surpreendido por um,me levando a fazer gestos estanhos e rápidos pra todas as direções, nunca foram flagrados por ninguém além de minha própria família.Sério, eu tenho sorte que tenho um irmão mais velho, senão eu seria uma vergonha pros meus pais.

  4. ThiagoFC

    “Isso se encontra devidamente higienizado, minha boa senhora? não me venha com rodeios”.

    Troque o “minha boa senhora” por “maldita mulher”, e eu sou capaz de jurar que, quando bebê, você era o Stewie Griffin. “(“VICTORY IS MINE!”)

  5. tenho um teoria que certas coisas não mudam as pessoas, mas apenas revelam sua personalidade. estão nessa lista o dinheiro, o poder, a fama e o futebol, com certeza.

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