Mini-conto #10: “Meg Ryan”

fry

Eles se esbarraram na saída do trabalho. Os dois estavam parados no único canto do estacionamento onde o celular dava algum sinal, ele tentando confirmar um futebol – “terça, marcelo, eu disse, terça. não, não é sexta, é terça. depois de segunda. não, marcelo, eu disse, segunda, se-gun-da, deixa de ser grosso, velho” – e ela discutindo com alguém, um pouco nervosa, um pouco chorando, o bastante pra ele se sentir meio estranho por estar ali.

Os dois desligaram praticamente ao mesmo tempo e ela se virou, meio tímida, para o lado onde ele estava. “Tudo bem?” ele perguntou e ela respondeu com um meio sorriso “ah, namorado, sabe como é”. Ele tentou fazer uma cara que conciliasse as idéias de “sei como é isso de namorados” e “mas apenas hipoteticamente porque sou um homem hetero e nunca namorei caras”, mas achou que não tinha se saído muito bem. Acenou com a cabeça e foi embora.

Três dias depois eles se toparam num restaurante, ela na mesa, sozinha, ele perguntou se podia sentar. Descobriram que trabalhavam no mesmo prédio, que tinham raiva do mesmo ascensorista, que já tinham sido empurrados pela mesma idosa de bolsa enorme nos simulados de incêndio e que ela concordava com a teoria dele de que primeiro foi o sinal do celular, agora eram os elevadores e em breve as portas daquele prédio seriam trancadas e o logo da Umbrella Corp iria começar a aparecer por todos os lados enquanto zumbis saiam dos andares da contabilidade gritando “cééérebros…e…relatóóórios”.

Se esbarraram mais algumas vezes em elevadores, corredores, horas de almoço e máquinas de café até um dia em que ela estava parada perto da porta giratória na hora em que ele saiu. Perguntou pra onde ela estava indo e ela respondeu que estava esperando o namorado – “meia hora atrasado, você acredita?”. Ela disse que não, não acreditava e tentou pontuar o mais sutilmente possível que nunca deixaria uma garota como ela esperando. Mas não se saiu muito bem, já que também mencionou que nunca deixaria uma garota como ela chateada ao telefone, almoçando sozinha ou sem ter com quem conversar. O namorado chegou, ela se despediu um pouco sem graça e foi embora.

Na outra semana, na garagem, se encontraram de novo. Ele chegou enquanto ela desligava o telefone, o rosto meio vermelho, a expressão irritada. “Namorado, certo?”, ele perguntou e eles se sentaram um ao lado do outro enquanto ela fumava. Se beijaram. No outro dia ela ligou pro antigo namorado pela última vez, na outra noite foram ao cinema juntos, na outra semana já se encontravam nas escadas no meio da tarde pra se beijar e falar sobre o dia. Um mês depois ele já era o novo namorado dela. E ele não fazia com que ela esperasse, discutisse ao telefone, almoçasse sozinha ou ficasse chateada e sem ter com quem conversar. Ao menos não por um tempo.

Porque existam reuniões e existiam atrasos e existiam tardes que pareciam durar uma vida. E havia os dias de mau-humor e os almoços com os amigos da faculdade e as noites sem clima pra nada. E as falhas de comunicação e As vezes em que ele não sabia o que dizer, ela tinha preguiça de perguntar e as piadas sobre zumbis, mortos vivos e jogos aleatórios da Capcom não tinham mais graça. E as vezes eles discutiam, de vez em quando eles brigavam e ele sabia que várias vezes vacilava, mas tinha a certeza de que se gostavam e sempre teriam outro dia pra contornar qualquer problema, pra corrigir qualquer desvio, pra explicar que mesmo que em todos esses anos nessa indústria vital aquela não fosse a primeira vez que aquilo acontecia, eles iam juntos fazer o máximo possível pra que fosse a última. Nada ia dar realmente errado pra eles enquanto alguém ainda estivesse citando Pica-Pau.

Até que num dia eles brigaram. Feio. O motivo não era dos grandes, mas os dois estavam chateados e ele conseguia ouvir que ela segurava o choro do outro lado da linha. Combinaram de se falar mais tarde porque ela estava no trabalho, o sinal estava horrível e ela não queria conversar assim. Mas antes de desligar ele ainda conseguiu ouvir uma voz do outro lado falando “ei, tudo bem?”. E ela respondendo “ah, namorado. sabe como é…”.

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11 Comentários

Arquivado em contos, Ficção, Sem Categoria

11 Respostas para “Mini-conto #10: “Meg Ryan”

  1. Bah,

    Ótimo texto, coloca bem a minha situação.
    =/

  2. “Sabe como é! Namorado!”. Eu do outro lado da linha já pensaria: sabe como é, namorada…

    A melhor parte do texto é o parágrafo: Porque existiam reuniões, existiam atrasos…

    Sim! Uma hora ou outra algo vai dar errado, ou ao menos não da forma que imaginávamos e é aí que conheceremos o que realmente esperamos daquela pessoa que está a nosso lado e se ela é a pessoa com quem quero passar o resto da vida.

    Bom texto!

    http://asabiaignorancia.blogspot.com

  3. ThiagoFC

    Essa é a parte em que eu reparo: é o segundo texto consecutivo em que você fala sobre sebastianismo (se não no texto, nos marcadores).
    Tá esperando o retorno de alguém? (Tipo do Rei, do Jedi, sei lá…)

    • joão baldi jr.

      Cara, nem tinha notado isso, acabo de reparar agora (mas vamos considerar que eu tô fazendo semanas temáticas, algo assim)

  4. gabrielo

    cara, esse texto fechou meu dia depressivo com chave de ouro. obrigado (ah… tem algum post sobre amor não declarado, difícil de ser declarado etc.? (já li o blog todo porém não lembro se há:/))

  5. Não sei o que foi melhor: O texto, a imagem, ou as tags.

    Parabéns.

    http://www.cartasparaela.com.br

  6. Naiara Costa

    Puxa João, eu to tentando ser positiva mas assim fica difícil! hahaha ótimo texto, o irreversível dói até menos.
    Temos que estar meio preparados para o declínio e as repetições, e meio preparados para o sucesso tbm, de vez em quando :)

    • joão baldi jr.

      Juro que o plano não era deprimir ninguém, juro (e o engraçado de teorias cíclicas é que elas conseguem ser ao mesmo tempo desanimadoras e esperançosas)

  7. ana tereza

    Muito bom!
    E esse problema de sinal do celular é algo realmente sério…vai contra a ideia de telefonia móvel e tal. hahahaha

  8. Bom, interessante e muito real.

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