Mini-conto #11: “Carol Brown apenas pegou um ônibus pra fora da cidade”

Cíntia disse que estava tudo bem e no meio da noite foi embora levando roupas, discos, livros, anseios, sonhos e minha única mala de rodinhas. Que ela nunca devolveu. Jéssica me deixou pra trás numa fila de cinema, com um imenso medo de me envolver e dois ingressos pra sessão das nove de “A casa do Lago”, perdas que ninguém nunca vai poder me ressarcir. Carina me trocou por um colega de trabalho que era mais alto e ainda comentou com as amigas que agora poderia voltar a usar salto.

Letícia me pediu pra não ligar mais e prometeu mandar minhas coisas pelo correio, mas nunca fez questão de confirmar meu endereço ou mesmo de fazer comigo um checklist pra saber quais seriam as minhas coisas. Clara me chamou de infantil e foi embora, Lisandra mudou de telefone, Cecília mudou de cidade, Mariana mudou de país. Paula alegou ter mudado de país, mas dois meses depois alugou um apartamento no mesmo andar que eu e numa manhã de sábado ainda bateu na minha porta pedindo açúcar. Não que com isso eu tenha algum problema, apenas achei grosseiro ela reclamar quando viu que eu só tinha cristal. Fernanda mudou de opção sexual e agora sai com garotas, mas eu não gosto de falar sobre isso porque meu apelido na faculdade era Ross e sempre dá trabalho explicar que não é porque eu gosto de dinossauros.

Mariana terminou comigo durante um episódio de Lost me deixando sem entender como um romance ou mesmo um seriado conseguem acabar daquele jeito. Cássia decidiu cair fora durante uma viagem de final de semana, Fernanda achou melhor dar um basta durante as férias, Márcia decidiu que não dava mais durante um jantar na casa dos pais dela, logo antes da sobremesa, num dia em que a mãe dela tinha feito pudim. Era um ótimo pudim. Julia disse que precisava de um tempo, Clarisse disse que precisava de ar, Luciana disse que eu precisava de um emprego, Marcela disse que não sabia do que precisava mas que não precisava disso e eu precisava entender o que a gente precisava fazer. Então eu disse que ela não estava sendo muito precisa e ela disse que não era hora pra esse tipo de brincadeira.

Elisa terminou com um recado na caixa postal enquanto eu jogava bola, Marina terminou com uma mensagem enquanto eu estava dormindo, Claúdia terminou com uma carta enquanto eu estava no hospital depois de ter quebrado o pé tentando tirar o gato dela de cima de uma caixa d’água no sítio. Juliana apenas foi embora sem dizer nada então existe a possibilidade dela ter apenas desaparecido ou sido abduzida, ainda que as atualizações no facebook continuem. Natália ligou de madrugada pra dizer que não me amava, eu era um idiota e eu me senti mal, mesmo não conhecendo nenhuma Natália e não me chamando André.

Ângela desligou na minha cara durante uma ligação internacional, Viviane me deixou falando sozinho num restaurante, Gabriela saiu com o carro sem me deixar pegar minhas chaves ou minha carteira e eu tive que voltar pra casa andando. Chovia. Monique me deixou esperando na rodoviária pra sempre, Cristiane partiu meu coração por email e Priscila partiu meu coração, dois vidros da sala e ainda quebrou a maçaneta porque quis sair irritada e não lembrou que precisava primeiro girar pro lado oposto, depois dar um tranquinho vindo de baixo e só então rodar.

Então eu realmente não acho que você possa me culpar se eu fico te seguindo pela casa e quero ir junto sempre que você diz que precisa ir na cozinha. É apenas complicado pra mim acreditar que você foi só pegar queijo.

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11 Comentários

Arquivado em citações, contos, Ficção

11 Respostas para “Mini-conto #11: “Carol Brown apenas pegou um ônibus pra fora da cidade”

  1. Como sempre sensacional, João!

  2. Rosana

    Hum… quase chorei… mas acabei rindo, isso é bom?

  3. Marji

    Senti aquele sentimento de CUMPLICIDADE & ENTENDIMENTO ao ler esse texto.

  4. Ao menos ele não teve problemas com quantidade, certo?

  5. Breno

    cara, sou teu fã (de um jeito hétero e saudável)

  6. Li o texto todo com pena do rapaz e no fim vejo que maior que o desgraçado passado amoroso dele é o que ele sente por ela (a sem nome que gosta de queijo). Ou o trauma que as outras todas causaram.
    Muito bom.

  7. ThiagoFC

    Mó vacilo a atitude da Natália..

    Outra coisa: os nomes Mariana e Fernanda se repetem. São as mesmas, que pensaram bem a atitude, resolveram voltar, e depois pensaram bem quanto a isso também? Ou é só uma coincidência de nomes, levando em conta que são nomes bem comuns?

  8. JuninhO

    O cara é um pegador nato.

  9. JuninhO

    Me lembrou aquela celebre musica do MC Catra.
    “Vem Mariana, Juliana, Marieta, Julieta, Carla, Paula… Vem todo mundo”

  10. Pô, cara… mas com todas essas você chegou a…você sabe né… todas essas???

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