Diários da ex-adolescência #6 – O estagiário pornô [2/2]

 

Da primeira vez foi uma coisa inocente, claro. Ele se aproximou, perguntou se estava tudo bem e se eu, que entendia dessas coisas de internet, poderia dar uma força. Ele queria baixar uns filmes e não sabia onde procurar. Eu, estagiário, fui dando indicações sobre torrents, sites de filmes legendados, essas coisas, até entender exatamente de que tipo de filme ele falava e explicar que bem, eu não poderia ajudar num assunto assim, feria minha ética profissional, sabe como é. Primeiro porque eu sempre vi a pornografia da mesma maneira que o álcool – é interessante, ajuda a relaxar,durante a adolescência você talvez exagere na dose e não consiga responder a algumas perguntas dos seus pais, mas quando começa a afetar sua vida pessoal e seu trabalho é porque você está indo longe demais. E depois porque, bem, era eu baixando pornografia pra um cara. Isso é esquisito, de diversas formas. Não é bacana.

Mas sendo eu a pessoa facilmente pressionável que sou e existindo no meio da questão a minha necessidade de dinheiro,  acabei cedendo e comecei a dedicar de 30 minutos a uma hora diária do meu dia na busca à busca de conteúdo pornográfico para o meu chefe, de acordo com o interesse dele. O cara queria loiras eu achava loiras, ele queria ruivas eu achava ruivas, ele queria gêmeas eu achava gêmeas, ele queria líderes de torcida eu achava líderes de torcida. Era esquisito, era significativamente desconfortável, era algo que me deixava feliz por não precisar fazer um relatório de estágio, mas me permitiu ter uma mesa de canto e na minha cabeça era algo temporário, que me garantiria já no próximo mês aquele input financeiro que eu tanto procurava.

O problema é que meu chefe, assim como vários neófitos no universo da pornografia, apenas não conseguiu segurar a onda. Se nas primeiras semanas asiáticas, colegiais e latinas eram o bastante, já na semana seguinte asiáticas latinas vestidas como colegiais eram pouco e em alguns dias nem mesmo um colégio cheio de latinas no meio da ásia parecia razoável. Os pedidos que ele me mandava por email, outrora vagos e envolvendo apenas termos chave – “loirinha, peitão” – se tornavam mais audaciosos e específicos – “quatro mulheres, presas por cordas, dentro de um porão, com 35 homens usando máscaras de couro e espadas samurai. no mínimo dois bodes enquadrados durante todo o filme. dê preferência pra imagens em tom de sépia. com legenda. em espanhol” – e começavam a cada vez ficar mais complicados de atender.

Se antes procurar filmes pornôs era uma rotina menor no meu trabalho, rapidamente a pesquisa de conteúdo nsfw se tornou meu core business e eu conseguia reconhecer mais facilmente a voz da Tory Lane do que a dos meus amigos e familiares. E pior, o lance de começar a me pagar no mês seguinte era mentira. Claramente eu havia atingido o fundo do poço e dentro dele Peter North me esperava com uma sunga de elefantinho.

Diante dessa situação decidi que o melhor seria abandonar o estágio. Alegar cansaço, falar que ia sair porque precisava de algo remunerado, dizer que meus horários de aula tinham mudado, qualquer coisa que me permitisse abandonar o local sem me indispor com meu chefe – porque você não quer ficar mal com um cara que assiste “ebony slaves 17” durante o expediente. E naquele dia voltei pra casa com a firme convicção de logo na manhã seguinte ir até a sala dele  e dizer que agradecia pela oportunidade mas teria que abandonar o estágio. Havia sido um ótimo período, uma experiência fascinante, mas eu precisava alçar novos vôos, buscar novos objetivos e se possível nunca mais ouvir falar em bukkake.

Porém quando cheguei no estágio no dia seguinte já notei uma certa comoção em torno de minha mesa, com várias pessoas de pé em frente ao meu monitor e a senhorinha do café me olhando com um olhar de reprovação que em minha memória ela só havia oferecido a assassinos, ladrões e às pessoas que reclamavam da quantidade de açúcar que ela usava. Chegando na minha mesa notei um técnico vasculhando meu histórico do dia anterior e localizando nele todos os sites óbvios de pornô possíveis e imagináveis, o que claramente me deixou confuso já que eu não apenas usava torrents como também sempre limpei meu histórico. Ao meu lado o chefe me olhava com uma expressão confusa de quem acabou de descobrir que a internet tem histórico e a realidade ficou óbvia: ele havia tentado procurar pornografia no meu computador depois que eu havia saído.

Meu superior então, sentindo meu pânico e terror diante da total e completa degradação moral que se aproximava me olhou nos olhos, colocou a mão no meu ombro, e falou. “Se divertindo, hein, garoto?”. E enquanto eu tentava em vão argumentar que eu nem estava lá nesse horário e que com certeza tinha sido outra pessoa ele encerrou a situação com um “tudo bem, joão, não tem problema, você é novo. só não pode fazer isso outra vez, tá?”. A sala rapidamente se esvaziava eu ainda tentei dizer um “mas eu nem curto loiras fantasiadas de camelo, galera, que isso” mas ninguém mais estava ali pra me ouvir. Com a sala já abandonada me sentei na frente do computador por alguns segundos. Aí imaginei que todo mundo devia achar que eu já estava procurando pornografia de novo e achei melhor me levantar. Peguei minha mochila e fui embora para nunca mais voltar.

Depois disso ainda acabei tendo mais dois estágios, nenhum deles remunerado, até finalmente me formar. Até hoje limpo o histórico do meu navegador diariamente, não deixo que ninguém no trabalho use meu computador pra nada e provavelmente devo ser o único cara que vocês conhecem que fica com os olhos meio marejados quanto ouve falar do site sandrinha.com.

Algumas coisas a gente apenas não consegue esquecer, não sei se vocês entendem.

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11 Comentários

Arquivado em é como as coisas são, Sem Categoria, situações limite, trabalho, Vacilo, vida profissional

11 Respostas para “Diários da ex-adolescência #6 – O estagiário pornô [2/2]

  1. Henrique

    Caralho, João, caralho!
    Sinto por você, cara. Além de todo o constrangimento com seu chefe, ainda teve que aguentar a vergonha diante todos os funcionários. Cara, que situação.
    De qualquer forma, sempre há um lado bom. Se em algum momento da sua vida estivesse decidido que você mataria alguém, com certeza seria seu chefe incluso digital.

    Só faltou o link do “ebony slaves 17”.

  2. Naiara Costa

    Por um momento eu tive medo e cheguei a pensar que você começaria a produzir pornografia pro seu chefe, com cada pedido bizarro que ele fazia. Mas ainda bem que só rolou aquela humilhação básica que todo estagiario passa na vida…

    Mas veja o lado positivo: ele não chegou nos anões transsexuais, chegou?

  3. ThiagoFC

    Fantárdigo, cara. Fantárdigo.

  4. Cara que história! E que cara filha da mãe, pra não dizer filho de outra coisa…

    Não dá pra esquecer mesmo algo dessa magnitude… e você levou na boa ainda… tem gente que explodiria no mesmo instante e sacaria sua metralhadora de estimação e atirava em tudo sem atingir ninguém, que é pra aumentar o trauma das pessoas depois matava todo mundo! Brincadeira hein!

    A Sábia Ignorância:
    http://asabiaignorancia.blogspot.com.br/

  5. Que situação! Mas o chefe também sofreu..perdeu o menino do download.

  6. Se divertindo, hein, João!

  7. Muito vacilo do seu chefe, cara. Muito vacilo.

  8. putz. ia ser legal um dos seus antigos colegas de trabalho acessar essa história e enviar como cco para todos os funcionários da empresa. imagina os olhares para o chefe vacilão no dia seguinte?

  9. O_Pulga

    Esse seu chefe é a mais perfeita descrição de um chefe:
    O cara que pede para você fazer o que ele tem medo de fazer e as outras pessoas descobrirem, e quando as pessoas descobrem o que você está fazendo ele, como um ninja, joga uma bomba de fumaça e desaparece da cena, deixando você, principalmente no caso que você citou, literalmente na mão

  10. ana tereza

    Estagiário…como é complicado! hahahaha

  11. Mothaflocka

    Caralho,que situação hein…. E principalmente, que chefe fdp (não,não Fã de Pornô)…

    Enfim, apenas um adendo:
    Perceba a ironia da vida presente nos motivos pelos quais você baixava pornografia para seu chefe: “Mas sendo eu a pessoa facilmente pressionável que sou e existindo no meio da questão a minha necessidade de dinheiro,(…)”

    Se você perguntar pras atrizes pornos porque elas começaram a fazer porno, provavelmente vai começar assim a resposta:
    “Bom,sendo eu a pessoa facilmente pressionável que sou e existindo no meio da questão a minha necessidade de dinheiro,(…)”

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