Uma breve reflexão tardia sobre o final de Lost

E como boa parte da humanidade, eu fiquei um tanto quanto cabreiro com o final de Lost. Não que eu seja daqueles fãs hardcore que acompanhavam religiosamente a série, consumiam ansiosamente previews e webisodes, discutiam acaloradamente pôsters ou apostavam semanalmente os números do Hurley na mega-sena na crença cega de que com isso não apenas ganhariam milhões como também peso, sendo depois amaldiçoados e enviados para uma ilha deserta onde perderiam o melhor amigo durante um evento esquisito com um submarino e a única garota de quem jamais gostaram durante uma tentativa de primeiro encontro em que ela desceu pra pegar vinho na escotilha e foi baleada por um cara que costumava andar de cadeira de rodas nas primeiras temporadas de OZ, porque eu não sou, mas ainda assim, quando eu vi o episódio final, ali em meados de 2011, não pude negar que entendi a sensação geral de decepção.

Afinal, todos nós queríamos respostas. O que era o monstro de fumaça? Qual era o lance com o Walt? O que era a Dharma Corp? Como o Locke tinha voltado a andar? Como Batmanuel tinha ido parar na ilha? E se ele estava lá, seria The Tick um dos outros? Foram diversas as perguntas que a série semeou ao longo dos seus seis anos de duração e para as quais nós esperávamos que a última temporada oferecesse respostas claras, lógicas, contundentes e que nos fizessem dizer “aaaaaah, agora sim”. Daí a clara decepção, beirando a revolta, quando os episódios finais, que deveriam ser praticamente uma maratona de “O mundo de Beakman”, explicando todos os mistérios físicos, químicos e espirituais de Lost, possivelmente com o Locke numa roupa de rato gigante, se transformaram numa viagem metafísica de flashbacks sem sentido, sidebacks esquisitos e realidades paralelas que nem era tão paralelas e nem eram tão realidades.

Saímos confusos, saímos perdidos, saímos com tantas respostas quanto entramos e por isso saímos frustrados. Queríamos razão, lógica, ordenação do caos, explicações razoáveis, racionalidade aplicada e tudo que conseguimos foi uma fonte dourada, dois irmãos fanfarrões e uns episódios muito ruins com o Rodrigo Santoro. Lost não foi, no final das contas, a série que a gente esperava.

E eu tinha basicamente aceitado esse fato e deixado essa história pra lá até esses dias conversar com um amigo sobre “Sherlock”, a releitura da BBC para o Sherlock Holmes, que possivelmente é uma das coisas mais inteligentes já feitas na televisão nesses últimos anos. E eu estava comentando exatamente sobre isso, sobre como a série é inteligente, bem-pensada, bem escrita e quase completamente à prova de furos – ou ao menos capaz de te convencer que é completamente à prova de furos – quando eu acabei me lembrando de Lost e, de uma certa maneira, finalmente entendendo o final da série.

Afinal, Sherlock é uma série totalmente planejada. Todos os plots se encaixam, todas as ações tem uma função, todas as subtramas se fecham, todos os casos mencionados mas não mostrados podem ser lidos na internet, todos os personagens fazem sentido, mesmo que dentro de uma lógica intrincada. Já em Lost não. Em Lost as coisas eram pensadas conforme a série ia andando, os personagens apareciam e sumiam sem explicação nenhuma, subtramas eram abandonadas ou retomadas sem a menor cerimônia e as questões mais importantes não apenas não eram respondidas com nem mesmo eram formuladas. Ou seja, sim, amigos, eu quero chegar exatamente onde vocês estão imaginando: Lost, ao contrário de Sherlock, é uma metáfora pra vida.

Isso porque apenas na vida real e não na ficção achamos razoável conviver com diálogos que não fazem sentido, pessoas que aparecem e desaparecem sem a menor explicação, eventos que parecem ser importantes mas não dão em nada e gente que passa seis anos reclamando da saudade que sente de alguém mas depois subitamente decide ficar com outra pessoa e dizer que tá tudo bem agora – here’s looking at you, Sayid. Na vida real gostaríamos de ver sentido, organização, arcos fechados com personagens que efetivamente se desenvolvem e terminam num final feliz, mas frequentemente temos que nos contentar com atuações questionáveis, gente agindo fora do personagem e eventos totalmente randômicos que não apenas não se encaixam na jornada do herói como ferem as leis de trânsito e até mesmo a constituição.

E talvez fosse exatamente isso que Lost, enquanto obra de ficção, queria nos mostrar.

Toda a construção, todo o mistério, todas as perguntas, eram apenas pra nos lembrar que no mundo real quase nunca existem respostas. Lost, mais do que uma série de fantasia ou ficção científica, era um estudo filosófico do absurdo da realidade, do vazio da existência, da frustração da busca por explicações num mundo que não tem a menor vontade de oferecê-las.

O final de Lost, mais do que uma tentativa de responder qualquer mistério, era o “rááá” final de uma pegadinha do mallandro existencial que durou seis temporadas e que tinha como único objetivo nos lembrar que da mesma forma que não entendemos porque ursos polares vivem em ilhas tropicais ou o Desmond tinha poderes especiais, nunca vamos entender porque ela foi embora, porque não conseguimos aquele emprego ou porque coisas ruins acontecem com pessoas boas. A grande resposta de Lost é que não existem respostas, não existe um grande plano, não existem explicações. E nós precisamos aprender a conviver com isso.

Ou então, é claro, eu apenas não consigo aceitar que gastei tantas horas e tanta banda larga pra acabar me deparando com um final tão babaca. Pode ser isso também. Não vou descartar.

Anúncios

16 Comentários

Arquivado em é como as coisas são, Desocupações, Televisão, teorias, tv

16 Respostas para “Uma breve reflexão tardia sobre o final de Lost

  1. Você é sensacional! Leio sempre, mas nunca comento, mas esse mereceu! Lost é demais to nei ai pro fim :*

  2. Meu namorado resolveu assistir Lost depois de todo mundo e eu simplesmente não consigo apoiar a idéia, é muito sofrimento ter que rever tudo aquilo e dar de cara com aquele fim.

  3. Um exímio trabalho de arqueologia, senhor Baldi Jr.! Realmente, Lost, mesmo depois daquele final, ainda me traz boas lembranças e mostra que o que importa é cada episódio com final misterioso, cada escotilha nova encontrada, cada segredo do Linus revelado… o que importa é o caminho, e não a chegada. Uma bela metáfora para a vida, que mostra que talvez devêssemos nos importar menos com as respostas e nos atentar mais ao caminho que estamos traçando na tentativa, talvez vã, de encontrar as respostas e atingir objetivos em nossas vidas.

    Mas que o final foi ruim, foi! Hahahahahaha

  4. Thati

    Publicamente eu digo pras pessoas que todos os amigos que fiz, as conversas loucas num boteco bolando teorias, as lágrimas, tudo o que Lost me proporcionou valeu a pena mesmo com um final merdão… Mas dentro do meu coração, toda vez que ouço “dos roteiristas de Lost”, eu quero correr na direção oposta como se tivesse encontrado aquele ex inconveniente no meio da rua.

    • ThiagoFC

      Eu também tenho fugido como o diabo da cruz de tudo que quer se relacionar a Lost (e olha que antes eu tinha visto Alias, e gostado!), mas abri uma exceção recentemente: “Era uma vez” (talvez porque não parece haver nenhum grande mistério ali).

      E a única coisa em Lost pior que o final é a participação do Rodrigo Santoro. Ele e aquela Nikki não acrescentaram porcaria nenhuma à trama.

  5. Cristiano

    Por isso tudo que eu gostei daquele episódio do Rodrigo Santoro. Pra o pessoal que encontrou a garota lá, “morrendo” por causa da picada da aranha, ficou mais um mistério não resolvido: do que esses dois morreram? o que quer dizer “Paulo mente”?
    Mais um dos inúmeros mistérios que o pessoal da ilha teve que engolir, mas não nós, os telespectadores, nós sabemos exatamente o que aconteceu. Esse episódio pode ser considerado “a chave”. Pensa assim, tudo aquilo que não foi explicado e que você não entendeu tem uma explicação totalmente plausível que não tem relação nenhuma com a trama.

  6. O fim de Lost é, provavelmente, uma ferida crónica na minha vida. Foi a única série que eu acompanhei religiosamente e acabou, bem, como todos sabemos.
    Eu também acho que o objetivo da série não era nos entregar perguntas e depois dar respostas. Era algo superior, se calhar pura loucura daqueles dois. Se calhar até era, mas a coisa se descontrolou e para não perder a aposta que eles tinham feito com todo mundo (que a série só ia acabar em 2010 ou durar 6 anos) eles criaram aquela maluquice toda que não tinha solução.
    Seja como for ou porque for, Lost sempre será Lost. Aquela série maluca, cheia de pontas soltas, situações bizarras e com uma pitada de cultura literal. Ou seja, uma amostra grátis da vida.

    Muito bem escrito João! Belíssimo post.

  7. Ah, o Lost… que decepção!
    Jack vira pra Michelle Rodriguez: “Quanto tempo leva para treinarmos (algo assim) um exército?” Aí fica aquele clima tenso e começa a tocar a vinheta de malhação. No dia seguinte, nah, deixa pra lá.
    Rodrigo Santoro e a guria lá são enterrados, aí um deles, em close, diz: “Nada fica enterrado na ilha” (algo assim) e daí que eles morreram enterrados, mesmo.
    “WAAAAAAAAAAAAAAAAALTT MY SON!!” ????
    “DON’T TELL ME WHAT I CAN’T DO!!”
    O Charlie nem precisava ter morrido, também.

  8. Lost foi uma decepção para mim.

  9. ENTENDAM O FINAL DE LOST
    TUDO IA BEM ATÉ QUE OS ROTEIRISTAS ENTRARAM EM GREVE, NÃO CHEGARAM AO ACORDO QUE QUERIAM, CHEGARAM SOMENTE A UM ACORDO PARA CHEGAR AO FINAL DA SÉRIE
    FIM

  10. Celso Brandão

    Claro que ficou uma ponta de decepção frente a tantas perguntas sem respostas. Mas o final acredito que foi tão bonito que compensou este detalhe(acredito este ter sido a intenção dos produtores com este final). Um dos mais emocionantes, senão o mais emocionante final de seriado, filme ou qualquer coisa do gênero.Achei este post muito interessante, porque traduziu de forma simples, mas eficaz a serie, como ninguém que escreveu sobre o assunto conseguiu. Nem mesmo nas nossas vidas encontramos respostas para tudo, nem tudo tem uma explicação contundente. afinal o que é a vida, senão um grande mistério?… Em suma, parabéns pelo texto…Sensacional

  11. vitor

    só eu gostei do final? ‘-‘

    • emerson

      Não amigo, não foi só você … Acabei de terminar de ver a serie, e acredite, foi minha primeira vez !!! não gosto de acompanhar series junto com todos , gosto de ver depois que acaba, assim tenho uma visão melhor de tudo, sem a pressão de esperar pra ver o episodio na hora que é exibido ou de ficar com pulga atras da orelha por uma semana esperando o próximo episodio, e por incrível que pareça, entendi perfeitamente o final da serie, que foi explicado quase que completamente no dialogo de Jack com seu pai, e adorei,achei muito bem bolado.

      • Joana

        Eu gostei também. Fico me perguntando: eu teria uma ideia melhor? Alguém teria uma ideia melhor? O seriado prendeu minha atenção do início ao fim… até na terceira e quarta temporada, onde senti uma certa enrolação. Seriado não é novela, que tem que esclarecer tudo nos mínimos detalhes e, de preferência, no último capítulo. Na sexta temporada fiquei presa à pergunta: o que está realmente acontecendo? As coisas ainda estão rolando na ilha ou o avião realmente não caiu (ou deixou de cair)? Quando o Desmond fala para o Jack que eles não estão ali realmente e que o avião não caiu, eu pensei: não acredito que assisti 6 temporadas pra agora dizer que nada daquilo aconteceu de verdade. Enfim, o objetivo dos caras não é deixar a gente feliz com o final, é prender o público entre um episódio e outro para ganhar audiência. Tiro o chapéu para os caras. Foram perfeitos nisso. Prova disso é que muita gente assitiu até o final

  12. mayconn

    Ainda bem que não deram tudo explicadinho no final, uma das coisas que me fizeram gostar de Lost é que eles nunca subestimavam a inteligencia do publico, fazendo os espectadores terem que fazer pesquisas e criar teorias para saber o que realmente estava acontecendo, e isso se manteve até o final, foi perfeita a analise de que como na vida, em Lost não se tem todas as respostas:
    http://trincheiraespiritual.blogspot.com.br/2013/05/deus-e-o-diabo-na-ilha-de-lost.html

    Existem teorias muito boas sobre o que realmente aconteceu, tem uma muito boa, que consegue ligar todos os eventos que ocorreram na ilha:
    http://minilua.com/lado-negro-lost/

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s