Dos problemas da ausência de um senso maior de heroísmo e realização na vida real das grandes metrópoles

kickass

E você saiu de casa atrasado. A reunião era 08:00 e por conta de uma série intrincada de eventos que envolveram desde o fim da pilha do seu despertador até uma certa dificuldade para ligar o aquecedor, passando pela ausência de meias limpas e do fato de você ter gasto dois minutos tentando encaixar uma tetra-chave numa fechadura convencional, você só conseguiu sair do seu prédio às 07:50. O tempo é curto, as probabilidades jogam contra você e ao fundo toca “against all odds”, o que apesar de meio deprimente faz um certo sentido no momento. Mas agora não é hora de lembrar que você precisa tirar esse greatest hits do phil collins do ipod, é hora de correr.

E você corre. Sai do prédio saltando degraus, segue a rua em alta velocidade, desvia de donas de casa com cães, de entregadores com carrinhos, de ciclistas de calçada, de pessoas voltando de caminhadas. Chega até o final da rua e acelera mais ainda o passo para pegar os últimos segundos do sinal verde para pedestres, quase sendo atropelado por uma moto, se desviando de um vendedor de dvds piratas e chegando na calçada oposta já bufando enquanto sua bolsa transversal que deveria estar no ombro já se encontra no pescoço.

Se lança para dentro da estação do metrô. Desce a primeira sequência de escadas com passos rápidos e firmes e já na segunda tenta uma leve porém malsucedida deslizada pelo corrimão que te leva a perder alguns segundos, mas que você recupera cortando a fileira de pessoas que vem no sentido contrário na direção das catracas. Passa o cartão na leitora sem tirar de dentro da carteira e se lança a passos rápidos na direção das escadas da plataforma, de onde você vê que já existe uma composição parada. E sim, ela é verde. Exato, verde pavuna, verde ar-condicionado funcionando, verde vazio no sentido norte no horário da manhã. Verde paz. Verde amor. Verde esperança.

Já nas escadas da plataforma você foge do fluxo contrário, ultrapassa uma idosa, desvia de um senhor com sacolas e de duas crianças indo para o colégio. Pula para o lado diante de um cara com uma bicicleta, começa a descer os degraus de três em três com saltos praticamente felinos e quando finalmente termina o último lance ouve aquele som característico: a sirene avisando que as portas irão se fechar.

Nesse momento você apenas dá dois passos mais longos, estica o corpo e salta. Tal qual um atleta, tal qual um guepardo, tal qual um soldado se jogando na frente de uma granada para salvar seu batalhão, tal qual um super-herói se lançando para salvar uma vítima indefesa, sendo que esse batalhão, essa vítima indefesa, são seu horário, seu trabalho, sua preferência de ir até o trabalho lendo um livro no ar-condicionado ao invés de sem mexer os cotovelos dentro de uma sauna mista sobre rodas. Tudo depende desse salto, desse movimento, desses segundos que você passa praticamente pairando no ar, num vôo, num instante de breve suspensão de gravidade em que você desafia o tempo, a razão e as normas de segurança. Você não quer saber da lógica, você não quer saber da polícia, você não quer saber do vão entre o trem e a plataforma. Você quer apenas entrar nesse vagão.

E então você pousa. De forma pesada mais confiante, você sente seus pés chegarem ao solo e respira fundo. Segura a bolsa com as mãos, confere o celular no bolso, sutilmente fecha o botão da camisa que você tinha aberto assim que saiu de casa. Tudo valeu à pena e você está ali dentro. Agora é pegar seu livro, e esperar a hora de descer. As portas vão se fechar a qualquer momento.

Mas elas não fecham. E nem se fecham no momento seguinte. E nem no outro. E após cinco minutos elas continuam abertas e as pessoas começam a colocar as cabeças pra fora. E aí o condutor diz que está com um problema técnico. E dez minutos depois ele manda todo mundo descer.

E lá fora, enquanto você espera a próxima composição, você ainda consegue ouvir uma idosa, aquela mesma que você tinha ultrapassado na escada, olhando pra você e simpaticamente balbuciando as palavras “tremendo babaca”.

Não existe heroísmo e nem superação no Rio de Janeiro.

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7 Comentários

Arquivado em é como as coisas são, Crônicas, Rio, situações limite, Vacilo, Vida Pessoal

7 Respostas para “Dos problemas da ausência de um senso maior de heroísmo e realização na vida real das grandes metrópoles

  1. gabrielo

    já aconteceu algo similar comigo. trocando o trem por ônibus, trabalho por colégio e idosa por aquela gata do 3ºB que via todo dia, dentro e fora do colégio, pois ela mora no mesmo condomínio que eu – para minha completa desgraça.

  2. Naiara Costa

    Eu poderia dizer que isso acontece comigo pelo menos uma vez todas as semanas, mas seria mentira… acho que acontece todo dia mesmo. Metro de Brasilia bate recorde em quebrar de manhã cedo :(

  3. Rotina diária cotidiana do dia a dia!

  4. ThiagoFC

    Sabe que isso pode render um roteiro para paródia de comercial de desodorante, né?

    Belo relato, me comovi com o drama.

  5. Fernando de Laurentiis

    Mano, vc devia escrever roteiros, sinceramente… genious!! =D

  6. adoro a malcriação da terceira idade.

  7. ana tereza

    é tenso! tb metrô no rio vc anda esperando demais das coisas…
    A minha ideia é nao colocar grandes expectativas ainda mais que estou na caça a um apt! hahaha

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