Mini-conto #12: As incríveis aventuras espaciais de Adam Strange no planeta Rann

De madrugada o telefone tocou e era alguém procurando Orlando. Depois disso não consegui mais dormir direito, rolei na cama, tomei três copos d’água. Quando finalmente peguei no sono o despertador tocou, fui tentar caminhar em direção ao banheiro ainda de olhos fechados e bati com a cabeça na porta. Não achei meu chinelo, o aquecedor não funcionava, tomei banho frio. Tia da roupa não tinha vindo na véspera, vesti aquela calça jeans de quando eu estava gordo, coloquei a camisa que estava em cima da cadeira. Essa era a que eu tinha separado pra lavar na noite anterior porque tinha uma mancha de molho na manga. Só notei quando já estava dentro do metrô.

Cheguei no trabalho, tinha esquecido da reunião do projeto. Entrei na sala no meio, recebi aqueles olhares de reprovação, desabei numa cadeira. Joguei a mochila pro lado, peguei o celular, bateria acabando. Tinha esquecido o carregador. Tentei me concentrar, em quinze minutos estava dormindo, quase caí pro lado. Fui acordado pela Soraya perguntando se eu queria acrescentar alguma coisa. Vaca. Bocejei, tentei manter os olhos abertos, não conseguia. Fiquei nessa pelas próximas 3 horas, enquanto falavam sobre um relatório que eu não conhecia, usando uns termos técnicos que eu não entendia. Pela janela eu via os aviões decolando no aeroporto. Dormi de novo. Me acordaram de novo.

Almocei sozinho porque meus amigos estavam viajando. No restaurante tinha fila e não achavam mesa pra um. Estava com fome. Pedi ao ponto, me trouxeram mal passado, pedi pra trocar me trouxeram queimado. Deixei pra lá. No caminho de volta pensei em tomar um sorvete e pedi uma casquinha de baunilha mas só tinha mista ou chocolate. Não gosto de sorvete de chocolate.

De tarde fui revisar um texto com um gerente. Ele me mandou, eu fiz uma versão, ele reclamou, mandei de novo, ele reclamou de novo. Fiz uma nova versão, ele disse que ainda precisava melhorar, reescrevi todo, ele disse que não tinha gostado. Mexi de novo, ele disse que ia reler. Duas horas depois me mandou um email dizendo que não precisava do texto. Nessa hora a internet caiu.

Me chamaram pra outra reunião e já era bem tarde. Sentei na sala e me perguntaram se eu podia fazer a ata. Eu disse que não, ia precisar sair cedo, tinha um vôo. Me disseram pra fazer a ata mesmo assim e eu acabei não conseguindo dizer não. Tinha dito que ia sair cedo mas mesmo assim, quando eu saí cedo, fizeram de novo o olhar de reprovação. Peguei a mala, desci, fui procurar um táxi, vi que não tinha sacado dinheiro. Voltei pra ir ao banco.

No aeroporto me mandaram despachar a mala mesmo ela sendo pequena, me deram um aviso falso de cancelamento, o vôo atrasou mais de meia hora. Tinha fila no quiosque de pão de queijo, eu tinha esquecido de levar um livro, me ligaram do trabalho pra perguntar sobre um folheto.

Entrei no avião. Comprei janela mas tinha um cara sentado na minha poltrona, tive que pedir pra ele levantar, ele não quis, tive que discutir, ele foi embora xingando. Aeromoça derrubou coca-cola na minha camisa e serviu um mix de castanhas que só tinha passas. Nunca gostei de passas. Senti aquela dor no ouvido quando o avião pousou. Minha mala era a última na esteira e tinha umas marcas estranhas do lado de fora.

O taxista disse que conhecia o endereço mas na verdade não conhecia. Confundiu os bairros, pegou duas ruas pelas quais eu nunca tinha passado, parou num posto de gasolina pra pedir orientação. Orientaram errado. Demos mais duas voltas, falamos com policiais, perguntamos pro cara do gás. Chegamos na rua certa pelo lado errado e ele ainda me cobrou sessenta reais.

Desci na sua porta, tirei a mala do bagageiro, mexi no cabelo com a mão e toquei seu interfone. Tentei dobrar a manga pra não aparecer a parte que tinha manchado com molho. Você desceu de pijama, abriu a porta, parou na ponta dos pés. Me deu um beijo e me perguntou se estava tudo bem, como meu dia estava sendo. E aí eu olhei para aquele seu sorriso e sem a menor necessidade de mentir consegui dizer que até ali estava tudo indo muito bem.

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9 Comentários

Arquivado em contos, Ficção, romantismo desperdiçado, Vida Pessoal

9 Respostas para “Mini-conto #12: As incríveis aventuras espaciais de Adam Strange no planeta Rann

  1. muito bom mesmo.

  2. gabrielo

    esse seu texto foi o reverso dos demais, que geralmente, começam bem e terminam mal. e cara, quase chorei uma lágrima hétero no final.

  3. Porra! Que puta sacada! Quando estamos bem, com alguém que nos faz feliz todos os problemas e infelicidades são reduzidos a nada.
    Phoda!

  4. Romantismo desperdiçado? Que nada. Nada se perde nesse mundo… principalmente alguma forma de amor… o amor, pelo contrário, move a humanidade! Muito bom esse texto. Mas é a opinião de um mero sábio ignorante:

    http://asabiaignorancia.blogspot.com.br/

  5. Cara! Te achei! Ufa! Pensei que depois de clicar em 3 ou 4 blogs diferentes chegasse aqui e me deparasse com uma mensagem macabra, do tipo: “yé yé, pegadinha do malandro!”. Será que vc lembra deu? Fato é que a ocosidade e a total falta de paciência para facebook, e etc., me trouxe novamente uma vaga idéia: escrever. Espero ler e acompanhar vc como fazia “naquela época” (ó que faz tempo mesmo). Já adicionei aos favoritos (e já que te achei, vou alterar a tag do seu blog lá no meu). Beijo Jão!

  6. Gosto e muito dos teus textos. Cada texto teu me dá 5 ideias de textos diferentes.
    E os mini-contos são os melhores!

    http://www.cartasparaela.com.br

  7. rene

    É nesses dias que os astros dizem a verdade.

  8. Lembrei do Orlando Moraes.

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