O que você me pede eu não posso fazer: sobre gentileza, favores, filas de mercado e uma referência velada a uma música do Humberto Gessinger

Vivemos numa era de poucas gentilezas. Se você deixar seus livros caírem poucas pessoas se voluntariam a pegar, se você estiver com compras pesadas quase ninguém vai te ajudar a carregar, se você precisar mudar de pista nenhum carro vai te dar a vez e se você precisar de um transplante de coração duvido que alguém vá se matar pra você conseguir. Ainda que esse último talvez tenha sido um exemplo ruim. Mas bem, espero que vocês tenham entendido meu ponto. Vivemos numa era de poucas gentilezas, como eu disse.

E muito disso se deve ao fato de que, ainda que quase sempre usemos a expressão “troca de gentilezas” para descrever ações que não envolvem efetivamente o conceito do intercâmbio de gestos efetivamente acolhedores, a idéia de ser gentil, mesmo quando praticada da forma mais desinteressada possível, sempre envolve uma expectativa, ou ao menos uma presunção tácita, de que esse comportamento simpático e agradável será mútuo ou ao menos futuramente correspondido de alguma forma. Ou seja, ainda que você, quando é gentil, não esteja esperando daquela pessoa algum tipo de retribuição imediata vinculada a você, existe sempre a presunção inconsciente de que a sua gentileza gerará um ambiente mais gentil onde aquela pessoa com quem você foi gentil será gentil com outros, gerando um círculo que possivelmente poderá beneficiar não apenas você mas a todos, como numa troca generalizada de gentilezas, no sentido estrito ou, se você gostar de filmes do Haley Joel Osment e do Bon Jovi, numa “corrente do bem”. Mas esse filme não é bacana, sério. Nem sei porque fui mencionar isso aqui.

Então quando algum desconhecido te pede alguma coisa ou se coloca em uma situação na qual você pode ajudá-lo, seja deixando dinheiro cair no chão, precisando que alguém segure um elevador ou tentando colocar o carro numa pista movimentada, boa parte do seu ímpeto para segurar esse dinheiro, parar esse elevador ou dar passagem a esse carro vem da noção interna de que, na situação dele, você gostaria de se deparar com alguém que fizesse essas coisas e da visão geral de que o mundo seria um lugar mais razoável pra se viver se todos praticassem ações assim. Mas aí você vai, ajuda a pessoa a pegar o dinheiro dela, mas quando é o seu que cai, alguém chuta suas moedas. Ou você vai e segura o elevador, mas quando é você que está com pressa tem um puto lá apertando a setinha de fechar que nem um louco. Você vai e espera o carro do desconhecido entrar na pista, mas quando é o seu dava pra ouvir “stairway to heaven” na oi fm 16 vezes antes de alguém te dar espaço. E aí seu ímpeto pra gentileza, com o tempo, acaba esfriando.

Ou então é algo diferente, como no caso das pessoas que, sabendo que você tende a ser gentil ou cortês, te pedem favores não baseados em expectativa de cortesia mútua, mas na idéia de que são mais “espertas” que você e podem levar vantagem. É aquele amigo que te pede dinheiro sem intenção da pagar, o colega de trabalho que sempre precisa que você quebre um galho mas nunca está disposto a luxar um palito de dente quando você precisa, o vizinho que pede mais 30 minutinhos pra festa dele às três da manhã mas chama a polícia quando você se empolga cantarolando belle e sebastian no chuveiro às dez e uma da noite. São aquelas pessoas que quando você faz um gesto gentil sabe que não está gerando gentileza mútua, não está criando um clima mais ameno entre os povos, mas sim está dando uma história que ele vai contar rindo para a namorada enquanto menciona o quanto você é trouxa de cair numa dessas e eles brindam com campari, não porque isso faça algum sentido, mas porque na sua cabeça todas as pessoas ruins e muito más bebem campari. Muito doce aquilo, sabe? Não gosto.

E ainda que não seja por isso que a gente deva parar de ser gentil, ou não segurar  mais elevadores, ou deixar de ajudar o próximo ou nunca mais esperar que as pessoas saiam do vagão antes de começar a entrar no metrô – o que nem é gentileza, é mais bom senso mesmo – chega num ponto em que um homem apenas se cansa e precisa tomar uma posição.

Não porque precise de recompensas em seus atos, não porque tenha perdido a fé na humanidade, não porque tenha abandonado o respeito pelo seu semelhante, mas apenas porque acha uma imensa e tremenda babaquice essa coisa de, no meio de uma fila de supermercado cheia de carrinhos lotados, alguém ficar pedindo pra passar na frente porque só está com um kapo de morango e um saco de ruffles. Porque amigo, na boa, existe caixa rápido pra isso, certo? Claro que a fila do caixa rápido está maior, mas em compensação ele é mais rápido, como o nome diz. Tem poucos itens, vai pra lá. Fora que se tá com pressa vai numa padaria, certo? Já me basta esse Extra aqui do Largo do Machado ser uma porcaria e ter esse cheiro esquisito de peixe que só eu pareço sentir, não preciso de gente vacilona tentando levar vantagem na hora de pagar a conta.

E na boa, homem de verdade nem bebe kapo de morango, sério.

Anúncios

16 Comentários

Arquivado em é como as coisas são, Desocupações, Gente bizarra, referências, Rio, situações limite, Vacilo, Vida Pessoal

16 Respostas para “O que você me pede eu não posso fazer: sobre gentileza, favores, filas de mercado e uma referência velada a uma música do Humberto Gessinger

  1. Eu procuro ser sossegada nesse aspecto. Não dá pra ser gentil esperando que os outros vão ser gentis de volta.
    O pior é o constrangimento de dizer pro cara sarneando com o kapo que não, você não vai deixar passar na frente. Mas provavelmente eu deixaria e depois iria pra casa escrever sobre isso.

  2. rene

    na boa nem existe oi fm…a questão da gentileza já me sinto feliz em realizar,não importa o que os outros irão dizer ou pensar,se é feito de coração não importa.

  3. Lili

    Eu já superei a fase de ficar constrangida em dizer não pro cara do kapo. Esses dias, no Zona Sul aqui perto de casa, soltei um grande NÃO pra uma velhinha com um pacote de frango. E ainda disse – com gentileza – que a fila preferencial para idosos era no caixa ao lado. Eu podia estar de TPM ou sei lá mas também fico puta da vida com essas pequenas “ixperrrtezas”.
    E, João, na boa, para de comprar naquele Extra. Aquele mercado é nojento.

  4. Naiara Costa

    Esse texto era tudo que eu precisava ler nessa altura da vida por que sei que estou me tornando uma pessoa insuportavelmente ranzinza com essa historia toda de bom senso, educação e gentileza… parece mesmo que o mundo caminha para que todos voltem a ser bárbaros e tudo acabe se resolvendo na base da seleção natural: quem tiver “vantagem natural” conseguirá sobreviver (acho que nada disso fez sentido).
    Mas ao menos há esperança de que mais alguém, além de mim e você,esteja incomodado com essa hipótese de futuro sombrio…

  5. Flávia G.

    hahahahahahah deixa disso!

  6. Charles

    Poxa, qual o problema com o Kapo de morango? Sábado a noite fui ridicularizado numa roda de amigos porque disse que gosto do tal suco quando estou de ressaca.

  7. Diego Tavares

    A cidade grande não está preparada para a educação e os bons modos dos interioranos.

    Ou a gente é muito otário, mesmo.

  8. Ninguém citou o poeta gentileza, eu posso fazer isso?

  9. ThiagoFC

    Ninguém citou o episódio de Friends em que o Joey diz para a Phoebe que toda ação altruísta é – na verdade – egoísta, eu posso fazer isso?

  10. Eu penso que ser gentil é o maior ato egoísta que posso ter. Pois não faço isso para ficar bem com os outros, tenho atos de gentileza pra me sentir bem comigo mesmo.

  11. Thiago JR

    Estive no Rio poucas vezes, mas uma coisa da qual me lembro muito bem é esse cheiro de peixe do Extra do Largo do Machado. Isso e os “pilotos”de kombi para Santa Teresa/Prazeres.

  12. Hérica Rocha

    Se fosse um kapo sabor uva, aí juro que cortava os pulsos.
    Essa coisa do ser gentil me fez lembrar uma experiência que tive na semana passada. Estive pela primeira vez na linda Porto Alegre-RS, fiquei na cidade por menos de 24 horas, mas deu até um aperto no peito quando entrei no avião deixando para trás aquela cidade de gente tão educada e gentil. Foi incrível a forma como fui tratada, desde o motorista de taxi, passando pela moça da pastelaria, o balconista da farmácia que me vendeu pastilhas de menta, o vendedor de bergamota que me ensinou como voltar para o hotel, até o pessoal da produtora que viajaram na minha loucura de sair do norte do país com destino ao sul, apenas para ver o show de uma banda de rock uruguaia.

  13. JuninhO

    “Ou então é algo diferente, como no caso das pessoas que, sabendo que você tende a ser gentil ou cortês, te pedem favores não baseados em expectativa de cortesia mútua, mas na idéia de que são mais “espertas” que você e podem levar vantagem.”
    Bingo! Esse tipo de situação é corriqueira. É como quando minha prima me liga em um sábado à tarde e me pergunta se eu posso fazer o favor de buscar a filha dela do outro lado da cidade. “Família, família…”

  14. NINA BASTOS

    NÃO SEJA REVOLTADO ASSIM

  15. Realmente, o Extra do Largo do Machado é a filial do inferno na Terra!

    A questão é que a gente não faz pelos outros, a gente faz por si mesmo. Tudo o que vai, volta. Pode não ser na mesma hora, não na forma que a gente espera. Ser gentil a despeito de como o mundo pareça te tratar é uma questão de egoísmo, eu diria.

    Enfim, filosofias à parte, de maneira geral concordo com você.

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s