Por uma breve taxonomia das reclamações injustificadas

elaine

A reclamação desvinculada – Um clássico da era da informação e das redes sociais, esse é provavelmente o tipo mais comum de reclamação contemporânea e consiste em expressar sua contrariedade e indignação em relação a algo que não apenas não tem você como público-alvo como possivelmente nem tem relação direta com a sua pessoa, como se a simples existência desse elemento, ainda que totalmente isolado do seu ambiente pessoal e num nicho que você necessariamente não precisaria freqüentar, fosse algo absolutamente ofensivo e que gera imenso ódio e fúria incontrolável.

É nesse grupo que se encaixam os adultos que criticam a qualidade da música do Justin Bieber, os caras que reclamam que Sex and the City é muito chato, as pessoas que acham absurdo que em alguns países da Ásia se coma insetos e eu naquela vez em que fiquei dizendo pra minha avó que o bife de fígado que ela estava fazendo pro meu avô era nojento e ela me obrigou a comer também pra que eu aprendesse a não me meter nos problemas dos outros. Sério, foi péssimo. Aquele bife estava nojento.

A reclamação auto-infligida – Típica situação em que a pessoa realiza freqüentes queixas relacionadas a uma situação na qual ela se colocou voluntariamente e da qual ela poderia sair a qualquer momento, dado esse que, se apontado pelo interlocutor, quase sempre é ignorado, tratado com desdém ou lido como demonstração de hostilidade – “pô, velho, que merda de amigo você é?”.

Grandes exemplos disso são todas as reclamações relacionadas a futebol, queixas graves sobre relacionamentos que começaram a menos de duas semanas, usuários de redes sociais que reclamam de falta de privacidade e gente que passa 5 anos economizando pra conhecer a europa e depois fica se lamuriando no facebook porque sente falta do “tempero e do calor humano brasileiros” como se não fosse mais fácil/barato apenas pegar um ônibus, ir até a feira de são cristóvão e comer um espetinho abraçado com dois desconhecidos.

A reclamação enquanto valorização pessoal – Classe de reclamação muito comum em relacionamentos amorosos e ambientes profissionais, consiste em manifestar seu descontentamento não com a real intenção de que a situação que considera negativa seja revertida, mas sim com o propósito de se valorizar através de um suposto sacrifício pessoal para ganhar capital moral e/ou algum tipo de vantagem numa situação ou negociação futura.

Nessa categoria estão incluídos os colegas de trabalho que sempre ficam na baia até as nove da noite apenas pra depois poderem reclamar que não tem vida pessoal, os parceiros que se voluntariam a fazer companhia durante algum tipo de atividade apenas para ficar se lamentando durante todo o evento e depois jogarem essa presença na sua cara sempre que contrariados e sua mãe quando menciona em voz alta o quão dolorosa, cansativa e dramática foi a tarefa de te criar apenas pra convencer você a comprar duas caixinhas de leite quando for voltar pra casa.

A reclamação genérica – Uma vertente que consegue ser ao mesmo tempo clássica como ontem porém fresca como o amanhã, a reclamação genérica de longo alcance é aquela que não possui alvos específicos, não pede uma motivação explícita e quase sempre é usada para manifestar um desconforto geral com a vida, ocupar um silencio constrangedor durante uma conversa ou apenas ilustrar uma imitação particularmente ruim do Alborghetti – “ah, luciana, vai pro inferno!”.

Representada quase sempre por clássicos como “homem é tudo igual”, “bandido bom é bandido morto”, “não dá pra confiar em políticos” ou “por que coisas ruins acontecem com pessoas boas?”, a reclamação genérica enquanto manifestação vazia de desconforto que não leva necessariamente a nenhum tipo de contraproposta é, junto com os polegares opositores, a mentira deliberada e a caça recreativa, uma das coisas que nos separa enquanto espécie dos outros animais. Afinal, nunca vi um castor adulto parado ao lado do outro dizendo “nossa, mas esses jovens de hoje, hein?”.

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5 Comentários

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5 Respostas para “Por uma breve taxonomia das reclamações injustificadas

  1. JuninhO

    Sensacional! A reclamação auto-infligida é comum e revoltante. Quando vê algo assim você se questiona sobre que tipo de pessoas nos tornamos ou porque tem gente tão idiota no mundo.
    E a reclamação enquanto valorização pessoal funciona muito em namoros, pra comparar situações e justificar comportamentos.

  2. Admito que tenho certo costume de utilizar da reclamação auto-infligida.

  3. eu já tive a oportunidade de ver um castor parado ao lado de outro reclamando da juventude de castores. Mas era um cara vestido de castor. Acho que isso não invalida sua tese…

  4. NINA BASTOS

    VOCÊ SABE QUE RECLAMAR FAZ PARTE
    DO DRAMA , ELE FICA COM MAIS EMOÇÃO.

  5. Thati

    Mas esse povo de hoje em dia não tem mais o que escrever mesmo viu. Não acredito que perdi cinco minutos da minha vida lendo isso. Tum dum tsss.

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