5 estilos de dança das pessoas que não sabem dançar

david bowie
O pulo
– Possivelmente uma das reações mais comuns entre as pessoas que não sabem dançar quando expostas a alguma situação de dança obrigatória, o pulo consiste na maneira mais fácil de executar algum tipo de movimento, ainda que não-ritmíco, de forma a tentar se misturar a um ambiente no qual todos se encontram, de uma maneira ou de outra, dançando. Utilizado com variados graus de êxito dependendo do local e da música de fundo – show aberto envolvendo rock/alto sucesso, cerimônia de casamento na hora da valsa/baixo sucesso, canções específicas durante shows de Sandy e Junior ou Van Halen/êxito total – o pulo, em suas diversas variações, é uma das formas mais primitivas de mostrar que você está animado ou pressionado demais para ficar parado mas ainda não bebeu o bastante para tentar ensaiar passinhos ou fingir que está manipulando uma bola imaginária de energia [ver: “passinhos de rave”]

A dramatização – Outra das formas clássicas de dança não-dançante, a dramatização consiste em, ao invés de praticar algum movimento ritmado que represente figurativamente as sensações geradas pela música ou aderir a passos treinados projetados para aquele ritmo específico, apenas encenar, com movimentos similares aos de um jogo de mímica, todas as ações e sentimentos descritos na canção. Na música fala em abraço? Você se abraça. No refrão alguém chora? Você roda as mãozinhas na frente do rosto. Na letra alguém está transando? Pélvis projetada em todas as direções.

É importante não confundir a dramatização musical com o conceito de coreografia literal praticado pelo funk ou pelo axé, por exemplo, já que na dramatização musical não existe organização, senso de ritmo ou seqüencialidade entre os movimentos mas sim situações desconexas como sua amiga ouvindo Adele e tentando simular o gesto de “tacar fogo na chuva”. Um primo distante da dramatização é a “dança do microfone”, que consiste em ficar na pista de dança fingindo que está cantando a música enquanto ela toca.

O movimento superior sem movimento inferior/movimento inferior sem movimento superior – Um dos grandes desafios na arte da dança, a prática da movimentação sincronizada dos membros superiores e inferiores muitas vezes é complexa demais e gera situações em que uma pessoa, diante da sua total incapacidade para conciliar ambos os movimentos, precisa escolher se vai se mover da cintura pra cima ou da cintura pra baixo, visando minimizar suas áreas de atuação e maximizar seus resultados – vulgo: não tropeçar, não machucar ninguém, não derrubar a bebida.

Desse dilema nasceram movimentos clássicos como a “pisadinha”, que consiste em bater os pés no ritmo da música e o “braços pro alto”, que consiste em levantar os dois braços, movê-los sem uma direção definida e se aproveitar do fato de que num ambiente lotado ninguém pode ver as suas pernas para fingir que está dançando animadamente e não fazendo uma espécie de “ola” com trilha sonora e achando que tá de boa.

Os passinhos de rave – Uma das grandes contribuições da música eletrônica para o nosso cotidiano, os chamados “passinhos de rave” consistem em movimentos criativos e derivativos da dança dramatizada que envolvem representações dançantes de ações ou simulações lúdicas de jogos e atividades e oferecem um nível de dificuldade muito menor do que passos de dança convencionais, ainda que precisem de uma certa compreensão inicial de todas as partes envolvidas.  Isso porque se numa festa normal você apenas começar a fingir que está rodando uma massa imaginária ou uma bola invisível e tentar lançar para seu tio Tonico a sua mãe pode se sentir tentada a te chamar de volta pra mesa da família e perguntar se tem alguma coisa que você gostaria de contar pra ela. Sério, não é legal, são muitas explicações pra dar e o tio Tonico nunca mais vai te tratar do mesmo jeito.

A dancinha irônica – Possivelmente um dos reflexos mais duradouros da lendária cena de dança envolvendo John Travolta e Uma Thurman em Pulp Fiction, essa tendência hipster consiste na prática desleixada e em vários casos propositalmente incorreta de movimentos clássicos de dança visando, na teoria, demonstrar rebeldia e despreocupação diante do status quo dançante, mas na prática esconder o fato de que aquela coisa de passar as mãos por cima dos joelhos enquanto eles se mexem é muito complicada e a gente jamais conseguiria fazer se fosse a sério. Tendo como única diferença para a tentativa real porém mal-executada de uma dança convencional o olhar de superioridade ostentado pelos praticantes, também é um ótimo recurso póstumo quando você foi tentar simular algum movimento da cena final de Footloose mas deslocou uma clavícula e agora quer fingir que tudo aquilo foi de propósito.

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12 Comentários

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12 Respostas para “5 estilos de dança das pessoas que não sabem dançar

  1. MEUDEUS! Este texto desmascarou todos os meus movimentos em uma festa na qual eu sou obrigada a abandonar a minha cadeira e ir pra ~pista~ dançar! Espero que meus amigos não vejam isso, ou eles vão descobrir que eu não sou descolada, despojada e despreocupada, e sim que eu danço tão bem quanto uma tábua de passar roupa e estou tentando disfarçar.

  2. Você se esqueceu de um tópico importante que eu chamo de dança dos anos 70, mas se encaixaria bem na dancinha irônica que consiste em dançar no estilo embalos de sábado à noite, fazendo aquele lance de rodas os braços e apontar os dedos.

    E claro, para os mais desprendidos tem sempre a dança da galinha.

  3. Tô abismada com a sua capacidade de descrever passos de dança tão indescritíveis como a dancinha irônica.

  4. You know my bip-bopping days are over
    I hung my boots up and then retired from the disco floor

    mais nada

  5. Mothaflocka

    Eu só não estou tão abalado pelo post porque eu já me vi em frente áqueles espelhos de corpo inteiro dançando minha dancinha da parte inferior sem mover a parte superior do corpo e vice-versa, e aquilo era uma catástrofe mundial. Se eu tivesse feito aquela dancinha na época da Guerra Fria em algum dos dois países seria considerado uma declaração de guerra e definitivamente todo aquela conscientização feita pelo Carl Sagan seria esquecida e estariamos em um mundo pós-apocaliptico nesse exato momento.

  6. Muito bom esses seus textos de análise comportamental. Sempre rio muito lendo seu blog,mas acompanho seu trabalho já a um tempo, você é realmente muito bom escrevendo e sinto falta daqueles textos e contos sobre relacionamentos, pra mim suas melhores postagens são desse temática. Parabens pelo trabalho.

  7. Flávia G.

    Passinho de rave é sofrível! Senti falta de alguma referência ao sertanejo, nesses tempos tristes em que tchetcherererere é poesia!

  8. A minha máscara caiu! Obrigada João.

  9. ThiagoFC

    “fingir que está manipulando uma bola imaginária de energia”: Ryu, Ken, Goku e outras três pessoas curtiram isso.

    Bônus pela referência a uma música clássica do Van Halen. Bônus duplo pela tag “Carlinhos de Jesus não tem dentes no país dos banguelas”, fazendo referência a um disco clássico dos Titãs.

  10. Matheus

    Sinto-me violado e exposto pelo elevado grau de veracidade desse texto com relação ao meu comportamento nesse selvagem ambiente que é a pista de dança.

  11. Eu fico só na dobradinha de joelho. Danço ridiculamente mal. É vergonhoso.

  12. Nai Costa

    Isso só me faz pensar que eu prefiro tão mais as pessoas que não sabem dançar e simulam do que aquela galera que faz aulas de dança e fica no meio da festa rodopiando e dando duplo-twist carpado como se estivesse participando da Dança dos famosos. Sério, muito ódio por esses pseudo-profissionais da dança.

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