Mini-conto #13: “Comédia romântica”

Nas comédias românticas as pessoas gostam de dizer que se lembram tudo. Que você usava vermelho, que a lua estava cheia, que nós pedimos macarrão, que o táxi atrasou, que o garçom era engraçado, que o seu perfume tinha algo de jasmim. Eu lembro que você me esperava na frente de uma banca de jornal, que quase não conseguimos achar um bar, que as pessoas falavam alto em torno da gente, que um garotinho se ofereceu pra fazer alguma coisa em troca de dinheiro – falar os dias da semana em inglês,foi isso? – e você foi muito simpática com ele e achei isso muito bacana em você. Eu não lembro exatamente da sua roupa, eu não lembro exatamente da lua, ou se estava frio, ou se estava quente, mas eu lembro que você estava com uma câmera e eu fiquei inseguro pensando se esse era um plano de emergência caso eu fosse muito chato – “ei, desculpa sair assim, mas esqueci que precisava fotografar uns canários agora à noite pra um trabalho e olha só, esse é meu táxi, tchau”. E no tempo que eu precisasse pra perguntar se canários efetivamente saem à noite e que tipo de trabalho era aquele você ia ter ido embora, algo assim. Mas naquela noite você ficou. E ainda consigo lembrar do primeiro sorriso que você me deu.

Nos filmes as pessoas quase sempre acreditam em sinais. Que quando eu toquei a sua mão eu senti eletricidade, que na hora do primeiro beijo havia uma música indistinta tocando ao fundo, que de alguma forma o ritmo dos sinais naquela noite da Avenida Paulista dizia em código morse que aquilo era amor, que quando você me beijou pela primeira vez você soube que era eu, que quando coloquei meu braço em torno do seu ombro eu soube que era de verdade. Num filme o mocinho não ficaria hesitando durante meia hora antes do primeiro beijo, não existiria ao lado uma mesa de pessoas chatas gritando, a cerveja não acabaria antes da nossa hora de ir embora. E também acho que num filme ninguém ficaria preocupado em parecer babaca por estar usando uma camisa do super-homem e muito menos iria pra casa absolutamente inseguro sem saber se a mocinha tinha gostado ou não dele, só tendo certeza por causa de uma mensagem que fez com que ele saltasse e gritasse “aeeeee” de uma forma que assustou significativamente os outros passageiros presentes na altura do portão 10 do aeroporto de Congonhas. Na verdade eu acredito que nunca filmariam uma comédia romântica em Congonhas, se você quer saber a minha opinião. Mas eu ainda tenho mensagens suas de meses atrás salvas no celular pras quais eu olho durante as reuniões chatas.

E numa comédia romântica teríamos conflitos, claro. Você teria namorado meu irmão, eu teria ficado com sua prima no colégio. Nosso relacionamento teria começado como uma aposta pra depois você descobrir que era mais do que isso, eu teria sido contratado pelos seus pais pra te manter na linha. Você iria terminar comigo por conta de um plano nefasto de uma ex-namorada, eu iria te tirar de dentro de um vôo pra dizer que o que nós sentimos é mais importante que sua bolsa de estudos e seu relacionamento incipiente com Hans, um modelo alemão que parece ser o cara dos seus sonhos mas na verdade odeia animais, crianças e quer apenas o dinheiro da sua família. Eu, com meu jeito descontraído e péssimo gosto pra roupas ia roubar você do seu namorado certinho e frio e você com seu conhecimento infinito de música e vício em batatas fritas ia me tirar da minha namorada modelo que não acredita no meu potencial como escritor. Numa comédia romântica você seria a Lizzy Caplan, eu iria insistir no Matthew Perry por razões pessoais e o estúdio iria vetar o projeto antes mesmo de qualquer versão final do roteiro porque não entenderiam a insistência dos produtores com tantas cenas em planetários e a piada do gato-rato. As pessoas não sabem reconhecer um bom filme.

Então, se você pensar friamente, pelos critérios técnicos, a gente talvez não seja lá uma grande comédia romântica. Eu não sou tão engraçado, você diz coisas no trânsito que subiriam em 6 anos a censura de qualquer filme, nós nunca terminamos e voltamos e talvez nem mesmo no circuito indie as pessoas estejam preparadas para um plano-sequência de três horas de um casal no sofá assistindo Twin Peaks – e até agora eu não entendi aquele velhinho do serviço de quarto, sério. Talvez falte conflito, talvez faltem clichês, talvez não tenhamos grandes gestos, talvez aqueles biscoitos em formato de coala não sejam o bastante pra gente decolar no mercado asiático.

Mas nós temos as manhãs de domingo. E nós temos as noites de sexta-feira. E nós temos as conversas na cama, e nós temos os filmes ruins, e nós temos as discussões sobre a carreira da Angelina Jolie, e os problemas com ar-condicionados em diversos ambiente e momentos. E temos os táxis na chuva, e as tardes na praia, e as corridinhas no kinect, e as reprises de “o profissional”, e as esperas em aeroportos.  E as mensagens de boa noite, e os emails de bom dia, e os telefonemas , e os abraços em que eu as vezes aperto você demais e essa sua coisa de ficar me dando tapas quando eu estou distraído e que realmente dói de vez em quando, ainda que você ache que é frescura minha.

E são coisas assim, que possivelmente não entrariam em nenhum roteiro e que dificilmente aconteceriam com o Joseph Gordon-Levitt numa reprise do Telecine, que fazem com que a nossa seja com certeza a melhor história da qual eu já fiz parte. Isso e possivelmente a trilha sonora. Sério, 95% do meu ipod atualmente é composto de músicas que você me indicou. Eu realmente não sei como eu lidava com isso antes da gente se conhecer.

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16 Comentários

Arquivado em cinema, contos, Ficção, referências, Vida Pessoal

16 Respostas para “Mini-conto #13: “Comédia romântica”

  1. Eu adoro tudo o que você escreve. Mas eu adoro mais ainda quando são coisas bonitinhas e românticas como essa. Feliz dia dos namorados à você e à sua digníssima! :D

  2. Naiara Costa

    Duas coisas:
    Matthew Perry é uma ótima escolha.
    E biscoitos de coala realmente são especiais em relacionamentos, experiência própria!
    Feliz dia dos namorados e Ah! O amor é lindo, e que bom que vc atualizou o blog (ainda tava paranoica, ne)

    :)

  3. M.K.

    Já estava sentindo falta de textos aqui, haha.
    Não sei como você consegue escrever coisas tão boas assim, fico sempre impressionado.

  4. ana tereza

    Ohnnn! Que lindo João!
    Final Feliz é tão legal!!!! hahahaha

    Bjo

  5. Loló

    que lindo! que lindo! muito provavelmente que gritou “aeee” foi sua nomorada ao ver esse belo texto seu!

  6. Lucas

    e depois desse texto o mundo acaba de explodir em docinhos em forma de coração, biscoitos orientais em formato de coala e iPods azul-bebê lotados de loser love songs.

  7. Mais um bom regresso! Lindo conto. Se fosse um filme eu assistia. E nada de pipocas, biscoitos em forma de coala são melhores.

  8. Mari

    João, você é surpreendente ! Minhas visitas ao blog sempre me fazem pensar que eu deveria passar mais por aqui e que precisamos marcar um encontro de turma para ouvirmos suas histórias ao vivo e, claro, conhecermos sua namorada! Beijo grande.

  9. ThiagoFC

    Reuniões chatas = pleonasmo redundante.

    No mais, keep on fighting the good fight!

  10. Pô, seria um filme bacana.

  11. Flávia G.

    Ounnnnnnnn!!!Muito amor pra sua vida João!

    =D

  12. juliana

    amei
    chorei
    me identifiquei
    ja vivi algo similar

    QUERO TUDO ISSO DE VOLTA….

  13. Esse é o tipo de coisa que vai fazer sua namorada pensar de novo e voltar atrás qdo ela pensar que pode ser que vocês nao deem certo. :(
    Lindo!

  14. Marcia Annia Walker P. da Silva e meio de Castro Vaz Kenobi

    essa é a parte que eu me forço a não fazer comentários infames como a imagem daquela foquinha que chama os outros de gay.
    que no fundo no fundo não é preconceituosa se você analisar o significado real da palavra. mas eu tenho tido reservas em assuntos com linguistica historica, anacronismo, politicamente correto e com mamíferos marinhos que tem praticamente a minha altura e, por mais que sejam bem diferentes de mim, o fato de pesarem no mínimo quase o dobro que eu me faz lembrar de como ser magrela as vezes realmente é um saco. e que ainda odeio a olivia palito, coitada.

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