Sobre o dia mais claro, a noite mais densa, super-heróis enquanto mitos de conforto e um Lanterna Verde gay

Eu sempre acreditei que os elementos mais importantes de todas as histórias de super-heróis eram as identidades secretas. E não apenas porque elas tornam narrativamente viáveis personagens que de outra maneira seriam quase assustadores – sem Clark Kent o Super-Homem é um alienígena que consegue ver por baixo da sua roupa, sem Bruce Wayne o Batman é uma lenda urbana que espanca pessoas com problemas mentais, sem Peter Parker o Homem-Aranha é um mascarado que se considera acima da lei e J.Jonah Jameson estava certo o tempo todo – mas também porque são elas que permitem ao leitor uma conexão, uma identificação, uma relação pessoal com aquele personagem.

Isso porque, se nunca poderemos nos relacionar diretamente com as experiências daquele alter ego superpoderoso – ninguém aqui dispara fogo pelos olhos ou é conhecido entre os amigos como “o maior detetive do mundo” – quase sempre é na vida daquela identidade secreta que conseguiremos traçar os paralelos mais claros em relação as nossas. Na timidez de um Peter Parker, na necessidade de superar o medo de um Hal Jordan, na dor da perda de um Billy Batson, é nesse tipo de experiência que conseguimos identificação, que achamos semelhanças, que notamos que não somos tão diferentes assim desses personagens mais rápidos que uma bala, mais fortes do que uma locomotiva mas mesmo assim incapazes de chegar a um compromisso na hora certa ou chamar a garota da mesa ao lado pra sair.

E exatamente por isso eu sempre vi os quadrinhos de super-heróis como espécies de mitos de conforto. Seja o garoto fracote em tempos de guerra, seja o garoto nerd sem amigos nos tempos de colégio, seja o menino órfão que sobrevive vendendo jornais nas ruas, nós sempre tivemos como protagonistas aqueles que não se encaixavam, aqueles que de alguma forma, estavam excluídos, haviam sido deixados de fora, mas que recebiam um super-soro, eram picados por uma aranha radioativa ou encontravam um mago que lhes daria poderes baseados num acróstico parecido com aqueles que a gente fazia no colégio pro dia das mães.

Por isso mais do que sobre poderes, mais do que sobre feitos sobre-humanos, as histórias de super-heróis – a não ser quando escritas pelo Frank Miller – pra mim sempre foram sobre o diferente, sobre o outsider, e traziam por isso a ideia de que mesmo as pessoas mais improváveis, mesmo aqueles que eram esquecidos, ignorados ou sentavam sozinhos na hora do recreio, poderiam fazer grandes coisas se fossem realmente boas pessoas. E ainda que em diversos personagens esse tipo de noção sirva como pano de fundo ou metáfora, em outros, como no caso dos X-Men, essa intenção é absolutamente patente – afinal, acredito que “convivência pacífica entre humanos e mutantes” não seja exatamente uma mensagem velada de tolerância.

E é exatamente por isso, por sempre ter visto os super-heróis dos quadrinhos como representações de tolerância e compreensão com o diferente que eu fiquei bastante confuso diante de toda a onda de hostilidade gerada com a revelação de que Alan Scott, um dos Lanternas Verdes da DC, atualmente existindo num universo paralelo e separado da cronologia oficial, iria mudar de orientação sexual depois do reboot.

Não que não seja natural existir resistência quando você reformula um personagem importante – Alan Scott podia ser apenas o quinto Lanterna Verde mais importante da Terra, mas sempre terá seu valor histórico por ser o que veio primeiro – mas vendo diversas reações que envolvem desde declarar a morte do gênero de super-heróis até reclamações formais e ameaças de boicote, ficou claro que isso tem muito pouco a ver com Alan Scott e muito mais a repulsa dessas pessoas diante do simples conceito de um importante super-herói ser gay.

E somando isso às reações também extremadas diante da criação de um novo Homem-Aranha negro e hispânico – por sinal também um personagem alternativo que vive em uma Terraparalela – fica claro que talvez nem todo mundo tenha entendido a mensagem geral de tolerância e compreensão diante das diferenças que os quadrinhos, ao menos na minha visão, tentaram passar. Afinal, se você é incapaz de conviver com a simples ideia de que um personagem ficcional possa gostar de pessoas do mesmo sexo, se esse é o tipo de conceito que te faz sentir vontade de armar um piquete, de começar um boicote, de abandonar todo o gênero de super-heróis apenas porque você não quer que uma orientação sexual seja retratada nas histórias que você lê, então definitivamente você não tirou dos quadrinhos as lições certas.

Isso porque você está, com um gesto desses, automaticamente dizendo que quer tirar de um garoto ou garota gay – ou, no caso do Homem-Aranha, de um garoto ou garota negra – a chance de conseguir diante da diferença dele, a mesma sensação de conforto, a mesma sensação de integração e a mesma sensação de que é ok ser não ser igual a maioria, que você mesmo teve com esses quadrinhos quando era um adolescente, quando era um fracote, quando era tímido, quando sentava sozinho no recreio. E isso, sinceramente, não me parece uma coisa que nenhum super-herói faria.

Sério, o Batman está muito decepcionado com todos vocês agora.

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14 Comentários

Arquivado em quadrinhos, referências, teorias, Vacilo

14 Respostas para “Sobre o dia mais claro, a noite mais densa, super-heróis enquanto mitos de conforto e um Lanterna Verde gay

  1. Excelente texto.

    Acredito que a polêmica depende do personagem.

    A Vespa por exemplo, virou asiática em Ultimates, e a Karma dos novos mutantes “saiu do armário”, assim como o Rictor, Northstar, Shatterstar e o Starman azul que ninguém lembrava que existia.

    O problema de mexer com algum personagem consolidado é que as pessoas tomam aquele personagem como algo seguro. Ex. posso sofrer nas mãos de garotas na vida real mas no fim do mês vai ter uma Mary Jane dizendo “Go get them tiger” até que algum roteirista babaca decide matar a garota explodida num avião.

    É muito complexa a reação dos fãs em relação aos personagens. A Barbara Gordon andando e a Amanda Waller depois do slim fast também foram polêmicas, pela mudança do status quo. E já existia toda uma dicotomia no manter a Barbara sofrendo numa cadeira de rodas num universo em que geral se cura e ressucita de coisas piores (no caso da Amanda eu realmente acho que ela ser gordinha era parte importante da personagem).

    Mas, os fãs tem que entender que são apenas quadrinhos. E existe sempre a opção de parar de lê-los e ir ler outra coisa até que alguma fase boa volte a acontecer.

    Ou ler apenas X-Factor do Peter David e um ou outro graphic novel quando dá vontade.

    Tem funcionado pra mim.

    Abraços.

    • joão baldi jr.

      Isso é uma boa parte do que eu penso, que todo mundo tem a liberdade de não ler quando não gosta. Por exemplo, durante a saga do clone eu estava absolutamente inconformado com os rumos do Homem-Aranha – assim como muitos outros leitores – mas eu não achei que era o fim do mundo, não quis atirar uma bomba na editora, eu apenas fiquei longe até voltar a achar as histórias interessantes.

      [e por sinal, X-Factor do Peter David é sensacional, esse cara devia ficar nesse título pra sempre]

  2. Cara, como sempre, totalmente excelente. Parabéns por explicitar essa perspectiva…

  3. Qual o problema de sentar sozinho do recreio?

  4. Melhor texto sobre o assunto, nunca me senti tão representada!

  5. ThiagoFC

    Cara, seu texto me deu até vontade de ler “The Outsiders – Vidas sem rumo” de novo (seria a 11ª vez, acho). Mas como eu ainda tenho muito o que ler das Crônicas de Gelo e Fogo (ainda nem cheguei à metade do “Festim de Corvos”, o volume 4, e o volume 5 tá pra ser lançado no Brasil), vou deixar o Outsiders pra outra oportunidade.

    Fight the power!

    p.s: Qualquer tentativa de reflexão vai ao chão com o Batman desapontado. Não tem como não rir disso, e tira o foco da discussão.

  6. Excelente texto. Sua reflexão foi rápida, concisa, sem deixar de ser completa. Concordo da primeira à última letra, incluindo o Batman chateado. Parabéns!

  7. Thati

    Yaaaaay! Vc escreveu sobre o assunto, que bom! Fiquei absolutamente horrorizada com os comentários homofóbicos que li sobre essa mudança no lanterna verde. Com todo esse papo de juventude nerd e tal, a gente espera mudanças, tolerância, inteligência, e de repente deu vontade de largar tudo e voltar a dormir. Infelizmente eu nunca tive a chance de ser próxima dos quadrinhos, mas seu texto foi perfeito João, na medida exata!

    • joão baldi jr.

      Ah, foi bacana você ter me dado o toque daquele outro texto, eu tinha opiniões sobre o tema mas foi lendo aquele monte de absurdos que eu acabei sentindo vontade de efetivamente falar sobre isso, então obrigado

  8. Mateus

    Perfeito! Analogias muito pertinentes!

  9. Tales

    Realmente, apesar de ter pouca bagagem em quadrinhos, realmente não consigo achar problemas nesse aspecto. Mesmo que seja apenas por ganância, como já vi sendo dito por aí, no fim das contas faz todo o sentindo, pois como você falou, os quadrinhos tem essa abordagem frequente de incluir aqueles que na vida real costumam ser excluídos.

  10. JuninhO

    O Batman decepcionado não era realmente necessário, mas tirou a seriedade do texto.

    Eu acho que você disse isso tudo porque na verdade se sente mais a vontade agora sabendo que, se o Lanterna Verde assumiu, você também pode.
    Mas isso pode ser um pouco homofóbico da minha parte e você pode me processar, então vou apenas dizer que concordo com a sua visão de que é extremamente importante a representação de todas as classes, cores e sexos nesse tipo de contexto.
    Parabéns, cara!

  11. O batman decepcionando assim como essa gif http://25.media.tumblr.com/tumblr_m4g28rXfwC1qcfmqto1_500.gif
    se encaixa em vários contextos

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